A cirurgiã Fabiana Makdissi, líder do Centro de Referência de Tumores da Mama do A.C.Camargo Cancer Center, foi diagnosticada com câncer de mama aos 45 anos, após uma mamografia de rotina, o que a levou a uma mastectomia da mama direita.
Makdissi, que sempre sonhou em ser médica e se especializou em mastologia, enfrentou o diagnóstico com conhecimento técnico, mas também com o impacto emocional de ser paciente em sua própria área de atuação.
Durante a recuperação, ela enfatizou a importância da reabilitação e do autocuidado, reforçando seu compromisso em estimular suas pacientes a se cuidarem e realizarem exames regulares, após vivenciar a experiência do câncer pessoalmente.
A cirurgiã Fabiana Makdissi construiu a carreira cuidando de mulheres diagnosticadas com câncer de mama, e, há dez anos, é líder do Centro de Referência de Tumores da Mama do A.C.Camargo Cancer Center, em São Paulo. Dois anos após assumir o posto, porém, ela se viu pela primeira vez na posição que conhecia tão bem do ponto de vista profissional: a de paciente oncológica.
O diagnóstico veio aos 45 anos, após uma mamografia de rotina, seguida por uma biópsia que apontou carcinoma ductal in situ. Trata-se de um tipo de câncer considerado inicial, mas que, no seu caso, era extenso e exigiu a retirada completa da mama direita.
O desejo de se tornar médica surgiu cedo. Makdissi conta que antes de pensar em qualquer outro papel, como o de mãe ou esposa, sonhava com a medicina. Na faculdade, decidiu que queria ser cirurgiã, e o contato com a oncologia veio quando seu pai recebeu um diagnóstico de câncer enquanto a filha estava no segundo ano do curso.
Após concluir a residência em cirurgia geral e em cirurgia oncológica, ela se especializou em mastologia, área dedicada ao tratamento das doenças da mama. Makdissi ingressou no A.C.Camargo Cancer Center em 2003 e, em um alinhamento cósmico, se tornou líder do setor em 8 de março, data em que é celebrado o Dia da Mulher e, por coincidência, seu aniversário. Neste domingo, ela completa 53 anos.
Quando a médica vira paciente
Dois anos depois de assumir o cargo, a médica estava mergulhada na nova função de gestora. Dividia o tempo entre cirurgias, pesquisas, ensino e atividades administrativas. “Eu estava num momento muito feliz da minha jornada profissional, apaixonada pelo que estava fazendo”, lembra. “E, como acontece com muitas mulheres, acabei me colocando em segundo plano.”
Quando voltou à ginecologista para atualizar os exames de rotina, percebeu que havia passado dois anos sem fazer mamografia. O exame revelou microcalcificações suspeitas classificadas como BI-RADS 4, categoria que indica achados suspeitos de malignidade.
A biópsia apontou carcinoma ductal in situ, um tumor ainda restrito aos ductos mamários, sem invasão para outros tecidos. No entanto, por se tratar de uma lesão extensa, o tratamento indicado foi uma mastectomia da mama direita, seguida de reconstrução com prótese.
Mesmo sendo especialista na doença, ouvir a confirmação do câncer não foi simples. “Eu recebi o diagnóstico de uma amiga no meu próprio consultório. Quando ela saiu da sala, eu precisei engolir o choro, porque ainda tinha uma paciente na recepção para atender”, relembra.
Apesar do impacto emocional, não foi exatamente uma surpresa. A médica sabe de cor que o câncer de mama é o mais frequente entre as mulheres no mundo — sem contar o de pele não melanoma — e, segundo estimativas internacionais, pode afetar uma em cada oito mulheres ao longo da vida.
A importância da reabilitação
Se por um lado o conhecimento técnico ajudava a confiar na cura, por outro antecipava riscos que poderiam surgir no caminho. Seu maior medo era uma possível sequela da operação: perder a funcionalidade das mãos, algo vital para uma cirurgiã. Segundo a médica, toda paciente que faz mastectomia fica com algum grau de limitação funcional. Por isso a fisioterapia e a atividade física são tão importantes.
Mesmo após a liberação para voltar a operar, Makdissi se deu conta de que precisava da ajuda de colegas para tarefas prosaicas como amarrar a máscara no rosto e fazer um rabo de cavalo. Além disso, ao fim de jornadas em que chegava a operar quatro ou cinco pacientes, precisava do socorro da fisioterapeuta para relaxar a musculatura contraída.
Em determinado momento, a profissional contratada avisou que seria necessário atacar a causa das dores, com fortalecimento muscular. Nos primeiros exercícios de braço, Makdissi conseguia levantar apenas meio quilo. Com o tempo, a força voltou, e hoje ela levanta três ou quatro quilos.
Durante o período de recuperação, a médica foi convidada para se tornar membro da Academia Brasileira de Medicina de Reabilitação. “Foi um dos convites mais gratificantes da minha vida. Primeiro pela honraria. Segundo porque eu estava vivendo, na pele, a necessidade da reabilitação”, afirma.
A experiência reforçou algo que ela já defendia na prática clínica: o tratamento do câncer não termina na cirurgia ou no controle da doença.
“Se eu já tinha uma responsabilidade social como líder de estimular as minhas pacientes ao autocuidado, a fazer seus exames e a se reabilitar, depois de ter tido câncer isso aflorou em mim de um jeito ainda maior", diz. "Pra mim, o câncer não foi um presente. Foi ruim, e não mudou quem eu era. No máximo, o diagnóstico me lembrou ainda mais de quem eu queria continuar sendo”, diz.
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