Como funciona método brasileiro que promete melhorar memória e bem-estar de idosos

Publicado em 16/03/2026, às 15h21
Divulgação/Supera - Cálculos com ábaco, jogos de tabuleiro, livros de exercícios, dinâmicas e interações sociais são algumas das atividades trabalhadas pelo método
Divulgação/Supera - Cálculos com ábaco, jogos de tabuleiro, livros de exercícios, dinâmicas e interações sociais são algumas das atividades trabalhadas pelo método

Por Galileu

Um estudo da Universidade de São Paulo revelou que o 'Método Supera', um programa de estimulação cognitiva para idosos saudáveis, melhorou a memória, o humor e a qualidade de vida dos participantes ao longo de dois anos.

Os resultados mostraram que os idosos que participaram do programa apresentaram redução de queixas cognitivas e sintomas depressivos, além de um aumento na percepção de qualidade de vida, destacando a eficácia do método em um grupo escolarizado sem comprometimento cognitivo.

O estudo, que envolveu 207 participantes e foi realizado por meio de um ensaio clínico randomizado, sugere que intervenções de estimulação cognitiva podem contribuir para a reserva cognitiva, embora não revertam danos já existentes em casos de demência.

Resumo gerado por IA

Um programa brasileiro de estimulação cognitiva aplicado em idosos saudáveis foi associado à melhora da memória, humor e qualidade de vida em um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP). Publicada em janeiro na revista International Psychogeriatrics, a pesquisa avaliou os efeitos do chamado "Método Supera" em pessoas com 60 anos ou mais ao longo de dois anos.

A pesquisa foi feita em colaboração entre o Departamento de Gerontologia da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH-USP) e o Grupo de Neurologia Cognitiva e do Comportamento da Faculdade de Medicina da USP. Os resultados foram apresentados no último dia 11 de março, durante um evento da empresa educacional Supera, que também financiou o estudo.

Segundo os pesquisadores, os principais benefícios observados entre os participantes que realizaram o método foram redução das queixas cognitivas, melhora no desempenho de memória, diminuição de sintomas depressivos e aumento na percepção de qualidade de vida. Os achados, no entanto, se referem a idosos escolarizados, sem comprometimento cognitivo ou diagnóstico de demência.

Como funciona o método

O Supera é um curso de estimulação cognitiva que oferece aulas semanais de duas horas com atividades lúdicas e estruturadas que exercitam diferentes funções mentais. O método se baseia na Teoria das Inteligências Múltiplas, de Howard Gardner, assim como em conceitos como neuroplasticidade e metacognição. Algumas das atividades realizadas envolvem:

  • cálculos com ábaco;
  • jogos de tabuleiro e online;
  • livros de exercícios;
  • atividades neuróbicas (que tiram o cérebro da zona de conforto);
  • e interação social.

Embora o estudo tenha focado em pessoas idosas, a empresa que aplica o método atende públicos de diferentes faixas etárias, com propostas que vão do apoio ao desempenho escolar de crianças ao aumento de produtividade em adultos. Fundada há 20 anos, a rede educacional, sediada em São José dos Campos (SP), conta hoje com mais de 250 unidades espalhadas por todo o Brasil.

Como o estudo foi realizado

O estudo para avaliar os benefícios para idosos foi feito através de um ensaio clínico randomizado (participantes selecionados aleatoriamente) e controlado. Ao todo, 207 pessoas com 60 anos ou mais foram acompanhadas por dois anos e divididas em três grupos diferentes: grupo experimental (participantes das atividades do Supera); grupo controle ativo (pessoas que participaram de aulas teóricas sobre envelhecimento) e grupo controle passivo (idosos que seguiram a rotina habitual sem nenhuma intervenção).

Os pesquisadores definiram previamente o tamanho da amostra e consideraram possíveis perdas de participantes ao longo dos 24 meses de acompanhamento, como desistências, adoecimento ou morte.

No grupo experimental, os participantes fizeram o programa do Supera durante 18 meses, com 72 aulas presenciais de duas horas, além de tarefas para casa e atividades em uma plataforma digital de jogos cognitivos.

Já o grupo controle ativo participou, no mesmo período, de encontros com gerontólogos sobre temas como saúde, estilo de vida e direitos da pessoa idosa, além de discussões sobre textos e vídeos.

O grupo controle passivo, por sua vez, foi avaliado apenas nos momentos definidos pelos pesquisadores, sem participar de aulas ou atividades dirigidas.

As avaliações foram feitas aos seis, 12, 18 e 24 meses, por meio de testes neuropsicológicos que medem desempenho cognitivo, emocional e comportamental em áreas como memória, atenção e funções executivas.

Principais resultados

Sobretudo no grupo que participou do método, os pesquisadores observaram melhora em habilidades como flexibilidade mental e processamento semântico (processo de compreensão e interpretação do significado de palavras, frases e sentenças). Esses resultados apareceram em testes de fluência verbal, nos quais os participantes precisavam dizer, em um minuto, palavras iniciadas por uma determinada letra.

Esses ganhos se destacaram a partir dos 18 meses, em comparação com os outros dois grupos, e se mantiveram seis meses depois do fim da intervenção. Para os autores, isso sugere que parte dos efeitos do treinamento pode persistir mesmo após o encerramento das atividades.

Outro resultado observado foi a redução das queixas de memória e uma melhora na autopercepção do desempenho cognitivo. A partir dos 12 meses, os participantes do grupo experimental apresentaram uma queda nos relatos negativos em relação ao desempenho.

Segundo Thais Bento, gerontóloga e autora principal do estudo, esse dado tem relevância clínica porque a percepção negativa sobre a própria performance cognitiva pode afetar autoestima, confiança e disposição para aprender ao longo do envelhecimento.

Melhora no bem-estar

O estado de ânimo dos participantes também foi analisado. Os grupos controle ativo e controle passivo apresentaram uma porcentagem maior nos sintomas depressivos. Já o grupo experimental apresentou uma redução mais expressiva desses sintomas, especialmente aos 18 meses. Segundo os autores, a combinação entre estimulação cognitiva e interação social presencial pode ter contribuído para esse resultado positivo.

Os pesquisadores também realizaram um teste que avaliava a qualidade de vida dos participantes com a escala CASP-19 — que avalia controle, autonomia, autorrealização e prazer em pessoas a partir de 55 anos. De acordo com o a equipe, aos 12 meses de participação no programa, o grupo experimental demonstrou, novamente, um resultado positivo em relação à própria qualidade de vida.

Avanço cognitivo

Além disso, foi observada uma melhora de cerca de 45% no desempenho de memória aos 12 meses, mantida aos 24 meses. As funções executivas, que incluem foco, atenção, organização e raciocínio, apresentaram ganho de aproximadamente 11% aos 18 meses, também mantido na avaliação final. Já a cognição global — uma média dos diferentes domínios cognitivos avaliados — teve uma melhora estimada entre 9% a 10%.

Para os autores, o conjunto de resultados sugere que esse tipo de intervenção pode contribuir para a chamada reserva cognitiva, uma espécie de “poupança” de recursos neurais acumulados ao longo do tempo, que ajuda o cérebro a lidar melhor com os efeitos do envelhecimento e até mesmo lesões e doenças degenerativas.

Embora os resultados indiquem benefícios em idosos saudáveis, Thais Bento destaca que a estimulação cognitiva não devolve habilidades já perdidas em pessoas com Alzheimer ou outros casos de demência.

“A estimulação cognitiva entra como um recurso de preservação das habilidades que ainda não foram afetadas pela doença”, explica a gerontóloga, em entrevista à GALILEU. Nesses casos, além de ajudar a preservar funções ainda mantidas, a proposta do método é oferecer ganhos indiretos, como socialização, redução de alterações comportamentais, senso de pertencimento e melhora na qualidade de vida.

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