A herança genética é uma combinação complexa de genes dos pais, influenciando características físicas, comportamentais e de saúde, o que pode ajudar na compreensão do próprio corpo e saúde individual.
Embora a maioria das características seja herdada igualmente de ambos os lados, a influência materna se destaca em aspectos como o DNA mitocondrial e a inteligência, enquanto o cromossomo Y do pai determina características masculinas.
A herança genética é moldada também por fatores ambientais e experiências de vida, sugerindo que genes e ambiente juntos formam um mapa de possibilidades, não um destino fixo para os indivíduos.
“Você puxou a quem?” A pergunta, comum em reuniões de família, tem resposta mais complexa do que parece. A herança genética é resultado de uma combinação sofisticada de genes vindos da mãe e do pai, misturados ainda com influências do ambiente em que a criança cresce. Segundo especialistas, entender o que vem de cada lado ajuda não apenas a matar curiosidades, mas também a compreender melhor o próprio corpo, comportamento e saúde.
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De forma geral, cada criança herda metade dos cromossomos da mãe e metade do pai. “Os genes são transmitidos a partir do óvulo e do espermatozóide, formando um genoma único”, explica Mateus Torres, médico geneticista do DLE, marca do Grupo Fleury. Essa combinação define desde características físicas até predisposições para doenças e talentos.
Mas nem tudo segue uma regra simples. Como lembra Rodrigo Ambrosio Fock, médico geneticista, existem diferentes padrões de herança. Algumas características seguem as leis clássicas da genética, enquanto outras são multifatoriais, influenciadas por dezenas de genes e também pelo ambiente.
O que costuma vir mais da mãe
Embora a maioria das características seja herdada dos dois lados, há alguns pontos em que a influência materna se destaca. Um deles é o DNA mitocondrial, transmitido exclusivamente pela mãe. Ele está ligado ao metabolismo e à produção de energia das células, afetando o funcionamento do organismo como um todo.
Outra influência importante envolve características multifatoriais. Estudos indicam que o QI e aspectos ligados à inteligência tendem a sofrer maior influência genética materna, embora o ambiente tenha papel fundamental. “A inteligência não depende de um único gene, mas de vários fatores genéticos e ambientais que se somam”, enfatiza Rodrigo.
Algumas condições ligadas ao cromossomo X também costumam ser herdadas da mãe, como o daltonismo e certos tipos de calvície. Isso acontece porque mulheres têm dois cromossomos X e podem carregar uma alteração genética sem manifestá-la, transmitindo-a aos filhos homens, que têm apenas um X.
Há ainda indícios de maior influência materna em questões como miopia e até em padrões de atenção, como o TDAH, sempre dentro de um contexto multifatorial.
O que geralmente vem do pai
Do lado paterno, a herança mais clara está relacionada ao cromossomo Y, transmitido apenas aos filhos homens. Ele é responsável pela determinação do sexo masculino e por características ligadas à fertilidade e ao desenvolvimento de traços masculinos, como o crescimento de pelos faciais.
Além disso, Rodrigo destaca um aspecto curioso do ponto de vista evolutivo. “É comum que recém-nascidos se pareçam mais com o pai ou com a família paterna”, explica. Essa semelhança inicial teria ajudado, ao longo da evolução humana, a fortalecer o vínculo paterno e a proteção da criança. Com o tempo, porém, essa aparência pode mudar, já que a expressão dos genes também sofre influência epigenética.
Características como padrão de força muscular e composição corporal também podem ter peso maior da herança paterna, especialmente em meninos, embora nunca atuem de forma isolada.
O que vem dos dois e do ambiente junto
Altura, cor dos olhos, tom de pele, formato do rosto, peso corporal e até traços de personalidade fazem parte do grupo das características multifatoriais, aquelas que resultam da soma de muitos genes e do ambiente. “Cada variante genética tem um efeito pequeno, mas juntas elas criam uma grande diversidade”, afirma Mateus.
Talentos artísticos, aptidão para música, esportes ou matemática também entram nessa conta. Uma criança pode herdar predisposições genéticas e, ao crescer em um ambiente que estimula essas habilidades, desenvolvê-las ainda mais.
Até experiências vividas por gerações anteriores podem deixar marcas. A epigenética estuda como fatores como estresse e privação alimentar podem influenciar a forma como os genes se expressam nas gerações seguintes. “Há estudos mostrando que netos de pessoas que passaram por fome em períodos de guerra têm maior tendência ao ganho de peso”, exemplifica Rodrigo.
No fim das contas, a herança genética funciona como um mapa de possibilidades, não como um destino fechado. “Genes importam, mas o ambiente, as relações e as experiências ao longo da vida têm um papel enorme em como essas características vão se manifestar”, resume Mateus.
Entre traços do rosto, jeitos de ser e até talentos inesperados, carregar um pouco da mãe e do pai é também construir, aos poucos, uma identidade própria.
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