Reprodução

Conheça o microzoológico que traficante ligado ao PCC montou em sítio

Daniel Haidar/Metrópoles | 23/10/21 - 11h55 - Atualizado em 23/10/21 - 12h06

Pablo Escobar (1949-1993) tinha um zoológico com hipopótamos em Puerto Triunfo, na Colômbia. O também megatraficante Joaquín “El Chapo” Guzmán (1964-) contava com uma área particular com panteras, leões e tigres em Guadalajara, no México.

Um aspirante brasileiro a chefão do tráfico não quis ficar para trás. O paulistano Anderson Lacerda Pereira, de 38 anos, conhecido como Gordão, tentou imitar criminosos notórios na criação de animais em cativeiro, montando um microzoológico em seu sítio em Santa Isabel, na Região Metropolitana de São Paulo.

Dono de dois jacarés, araras, cavalos e um macaco, Gordão se inspirou em outro megatraficante mexicano, Amado Carrillo Fuentes (1956-1997), para batizar seu sítio de Guamuchilito, a cidade natal de Fuentes.

A descoberta do endereço se mostrou na reta final de uma investigação que mapeou a rede de lavagem de dinheiro de Gordão, formada por imóveis, clínicas e até um hospital em Arujá, também na Grande São Paulo. Só para manter o local e a alimentação dos animais, o brasileiro gastava R$ 100 mil por mês, de acordo com a polícia.

O sítio era um retiro de lazer para o criminoso. No afã de imitar a cultura de seus ídolos, Gordão construiu por lá até uma capela ao estilo mexicano. Inclusive, encomendou uma composição em homenagem a ele mesmo de um narcocorrido, o gênero musical de canções que enaltece barões mexicanos. Ironicamente, a faixa foi batizada Un Ser Humilde (ouça aqui). A polícia achou cópias em dispositivos do traficante.

Quando o sítio foi alvo da Operação Soldi Sporchi (dinheiro sujo, em italiano) no ano passado, Gordão já estava foragido, com uma condenação a cumprir por tráfico de drogas. Agentes suspeitam de que ele esteja escondido na Bolívia com outros criminosos da cúpula do Primeiro Comando da Capital (PCC). O bandido não é filiado à facção, segundo a polícia, mas um fiel colaborador.

Em Arujá, de onde fugiu, ele construiu uma espécie de feudo, com dezenas de imóveis e uma mansão em condomínio de luxo – havia outra em construção, com um bunker de fuga. Em troca de pagamentos que teria feito ao vice-prefeito da cidade, cobrou a obtenção de contratos para a gestão da coleta de lixo e do único hospital da cidade. Em dois anos, faturou pelo menos R$ 77 milhões da Prefeitura de Arujá.

“Ele se aproveitou do hospital para desviar medicamentos e misturar a cocaína que vendia no Brasil”, explica o delegado Fernando Santiago, do Departamento Estadual de Prevenção e Repressão ao Narcotráfico (Denarc), que investigou a quadrilha de Gordão na Operação Soldi Sporchi.

As atividades criminosas na área da saúde foram o ápice de uma sequência de negócios relacionados a clínicas médicas e odontológicas. Segundo investigações, nos últimos 10 anos, Gordão criou e controlou pelo menos 60 clínicas em nome de laranjas, com unidades em diferentes cidades de São Paulo e mesmo em Recife.

O uso de clínicas odontológicas não era à toa. Filho de um protético, o criminoso também exerceu a profissão e passou a aproveitar o acesso à lidocaína para revender a substância a outros traficantes que a misturavam na cocaína.

Os endereços também serviam para atender a emergências médicas de traficantes. A prontidão para socorrer criminosos se estendia a operações de lavagem de dinheiro, e Gordão conquistou proximidade com a cúpula do PCC. Hoje, aproveita essa aliança para continuar fora do radar da polícia.