O riso, muitas vezes visto apenas como uma reação a situações engraçadas, desempenha um papel essencial na saúde mental e no bem-estar. Pesquisas científicas mostram que sorrir com frequência desencadeia reações químicas no cérebro capazes de reduzir o estresse, melhorar o humor e fortalecer vínculos sociais.
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Segundo a professora de Psicologia da UniSociesc, Amanda Lang, o riso é uma das formas mais simples, naturais e acessíveis de cuidado com a saúde emocional. “Quando rimos, o nosso organismo libera substâncias como serotonina, dopamina, endorfina e ocitocina, que estão diretamente associadas à sensação de prazer, relaxamento e bem-estar. Ao mesmo tempo, há uma redução significativa do cortisol e da adrenalina, hormônios ligados ao estresse”, explica.
Essa resposta bioquímica ajuda a compreender por que o riso não é apenas uma sensação subjetiva, mas também um recurso real de equilíbrio emocional. “Mesmo depois que uma situação estressante passa, o cortisol pode permanecer circulando no corpo por até duas horas. O riso consegue reduzir mais da metade desse efeito, funcionando como uma espécie de regulador natural do organismo”, afirma a especialista.
Do ponto de vista neurológico, o riso envolve diferentes áreas do cérebro. A professora explica que o processo começa no lobo frontal, responsável por interpretar se uma informação é engraçada ou não. Em seguida, o sistema límbico (ligado às emoções) é ativado, desencadeando a resposta física do sorriso e a liberação dos neurotransmissores associados ao bem-estar.
“Quando percebemos que estamos rindo, todo esse processo já aconteceu automaticamente no cérebro. É algo que não controlamos racionalmente, mas que traz benefícios imediatos para a saúde mental e física”, destaca Amanda Lang.
Até mesmo lembrar de situações engraçadas pode reativar esse circuito. “Recordar uma memória positiva já é suficiente para estimular novamente a liberação desses hormônios e ajudar a interromper o ciclo do estresse”, completa a professora de Psicologia.

Além dos benefícios individuais, o riso também desempenha um papel fundamental nas relações sociais. Rir em grupo fortalece vínculos, gera empatia e aumenta a sensação de pertencimento. “O riso é uma linguagem universal. Ele quebra barreiras culturais e sociais, aproxima as pessoas e cria ambientes mais acolhedores”, explica a professora Amanda Lang.
Segundo ela, compartilhar momentos de humor facilita a resolução de conflitos e aumenta a confiança entre as pessoas. “Quando rimos juntos, nos sentimos parte daquele grupo. Isso fortalece relações no ambiente familiar, social e até no trabalho”, afirma.
Do ponto de vista fisiológico, tanto o riso espontâneo quanto o riso induzido ativam mecanismos semelhantes no cérebro. No entanto, há diferenças na intensidade dos efeitos. “O riso espontâneo é mais fluido e gera uma resposta mais intensa, inclusive no aspecto social e de pertencimento. Já o riso forçado também libera substâncias positivas, mas em menor quantidade”, explica Amanda Lang.
Em momentos de grande tensão emocional, algumas pessoas podem apresentar crises de riso aparentemente inadequadas ao contexto. Segundo a psicóloga, isso não deve ser visto como falta de respeito ou insensibilidade. “Em situações muito intensas, o riso pode surgir como um mecanismo de defesa do corpo, uma válvula de escape para aliviar a pressão emocional”, afirma.
Ela reforça que não há motivo para culpa nesses casos. “Rir não significa desvalorizar a gravidade da situação, mas sim uma forma inconsciente de o corpo tentar lidar com emoções muito difíceis”.
Por outro lado, reprimir constantemente o riso também pode trazer prejuízos. “Quando a pessoa se impede de rir por vergonha ou medo de julgamento, ela deixa de liberar esses hormônios benéficos e mantém níveis elevados de estresse. Guardar emoções, inclusive o riso, é muito mais prejudicial do que permitir essa expressão”, alerta.

Com o crescimento do consumo de conteúdos humorísticos nas redes sociais, a professora faz um alerta: o riso mediado por telas não substitui as interações presenciais. “O humor digital pode trazer um alívio momentâneo, mas é superficial e de curto prazo. Rir com outras pessoas, presencialmente, gera conexões mais profundas e benefícios duradouros”, explica.
Na infância, por exemplo, o riso também tem papel essencial no desenvolvimento psicológico. Ele estimula a criatividade, a aprendizagem, a empatia e ajuda a lidar melhor com frustrações, medos e ansiedades. “O sorriso constrói uma base emocional importante para que a criança desenvolva recursos internos para enfrentar desafios ao longo da vida”, afirma Amanda Lang.
Para quem sente dificuldade em se permitir rir mais, a professora sugere pequenas mudanças na rotina: buscar o convívio com amigos, assistir a filmes de comédia, compartilhar histórias engraçadas e valorizar encontros presenciais. “Não existe um jeito certo de rir. Rir alto, rir baixo, sozinho ou acompanhado: o importante é permitir esse espaço de leveza no dia a dia”, conclui.
Por Genara Rigotti
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