Dia da Saudade: maceioenses atingidos pelo afundamento do solo podem contribuir com acervo de museu digital

Publicado em 30/01/2026, às 12h23
Qualquer pessoa pode contar sua própria história e integrar o acervo da exposição - Foto: Divulgação
Qualquer pessoa pode contar sua própria história e integrar o acervo da exposição - Foto: Divulgação

Por Assessoria

O projeto 'Memórias que Não Afundam' busca preservar as histórias de vida de pessoas afetadas pelo desastre socioambiental da mineração em Maceió, promovendo a reparação de danos extrapatrimoniais e fortalecendo a relação das comunidades com o meio ambiente.

A iniciativa, que utiliza a Tecnologia Social da Memória, formou 12 agentes para registrar narrativas pessoais, destacando a importância do compartilhamento de experiências para lidar com a saudade e a perda de referências afetivas, como exemplificado pela história de Samara Borges.

O Programa Nosso Chão, Nossa História, que surgiu após ação civil pública contra a Braskem, destinará R$150 milhões em quatro anos para projetos de reparação, com a participação ativa da comunidade na construção de sua memória e na busca por justiça social.

Resumo gerado por IA

A conversa com a família sentada à porta de casa, os sorrisos trocados com vizinhos após o trabalho, as festas de carnaval na praça compõem algumas das lembranças que hoje se transformaram em saudade para as pessoas atingidas pelo desastre socioambiental da mineração em Maceió.

Parte dessas memórias integra o projeto de reparação aos danos extrapatrimoniais Memórias que Não Afundam, desenvolvido pelo Programa Nosso Chão, Nossa História, no âmbito do edital Educação Ambiental e Bem-Estar Animal com idealização e execução do Museu da Pessoa.

Realizado a partir da Tecnologia Social da Memória, método que forma pessoas para registrar histórias de outras pessoas, o projeto Memórias que Não Afundam tem como objetivo preservar as histórias de vida, as lembranças dos bairros e a relação das comunidades com o meio ambiente, por meio do registro de narrativas pessoais. Ao promover protagonismo e pertencimento, 12 pessoas atingidas pelo desastre foram formadas para serem agentes de preservação da memória pelo método e registrar 15 histórias de vida de outros moradores.


Uma dessas histórias contadas no projeto é a da jovem Samara Borges, de 21 anos. Criada no bairro do Pinheiro, ela teve a infância marcada pela convivência familiar, especialmente com os avós e com a sua comunidade. Em 2019, com o processo de evacuação do bairro, Samara viveu a ruptura causada pela perda do território e de suas referências afetivas. 

“O que mais me marcava era a ida até a escola. Eu parava nas amendoeiras para descansar e aproveitava para olhar ao redor. Quando saí do meu bairro, não tinha noção desse sentimento de saudade. Lembro como se fosse hoje: o caminhão de mudança chegando, os vizinhos indo embora e se despedindo. Agora, a gente segue tentando continuar a viver”, conta a estudante do curso de História.

Para conhecer a história de Samara e de outras pessoas que integram a coleção Memórias que Não Afundam, basta acessar o link: https://memo.museudapessoa.org/memorias-que-nao-afundam/.

A iniciativa também é colaborativa: qualquer pessoa pode contar sua própria história e integrar o acervo da exposição. Para isso, é necessário acessar o site da exposição e realizar um cadastro gratuito: https://memo.museudapessoa.org/memorias-que-nao-afundam/conte-sua-historia/

A presidente do Comitê Gestor de Danos Extrapatrimoniais (CGDE), Dilma de Carvalho, diz que contar a própria história contribui para acolher a saudade e ampliar a visibilidade aos danos invisíveis vividos pelos ex-moradores.

“Neste 30 de janeiro, quando falamos em saudade, falamos em memória. É um sentimento difícil de lidar, mas que pode ser acolhido pela reparação, por meio do relato do que foi vivido, da homenagem ao que não existe mais e, principalmente, do entendimento que falar e registrar o que aconteceu contribui para a justiça social e é também estratégia de resiliência”, afirma Dilma de Carvalho.

O coordenador de pesquisa do Museu da Pessoa, Lucas Torigoe, ressalta o papel da construção da memória como instrumento para a reparação dos danos extrapatrimoniais.  
“Uma forma de diminuir a saudade é compartilhar sobre ela. Juntos, contando um para o outro, essa saudade vai se tornar memória, essa memória vai nos levar a reparação e a reparação vai nos levar a ação. Faço o convite para que todos que viveram nos bairros: contem suas histórias, para diminuir a saudade de um tempo, dos bons lugares e sentimentos sobre essa região de Maceió”, pontua Torigoe.

O que são danos morais coletivos

Danos morais coletivos, também chamados de danos extrapatrimoniais, são as consequências causadas à coletividade em razão da violação de direitos ligados ao território, à memória e à identidade comunitária. Esses danos se manifestam na ruptura dos vínculos sociais, culturais e afetivos construídos ao longo do tempo. 

Conheça outros projetos de reparação

O Programa Nosso Chão, Nossa História atua por meio de projetos de reparação de danos extrapatrimoniais para reparar os impactos sofridos pelas comunidades atingidas em decorrência de desastre socioambiental em Maceió.

Esses projetos são concebidos por meio de linhas temáticas. Confira o conceito de cada linha temática e os detalhes dos editais e projetos já contemplados abaixo e/ou na aba de projetos do Programa (https://nossochaomaceio.org/projetos-de-reparacao/:)

Saúde Mental Comunitária;
Geração de renda e empreendedorismo;
Fomento e Fortalecimento de Organizações;
Educação Ambiental e Bem-Estar Animal;

Sobre o Programa

O Programa Nosso Chão, Nossa História é resultado de uma ação civil pública movida pelo Ministério Público Federal em Alagoas (MPF/AL), que responsabilizou a Braskem pela reparação dos danos morais coletivos causados pelo desastre socioambiental da mineração em Maceió.

As atividades e os projetos do Programa são definidos pelo Comitê Gestor dos Danos Extrapatrimoniais (CGDE), grupo voluntário formado por pessoas atingidas e representantes de instituições públicas. A operacionalização das ações é realizada pelo Escritório das Nações Unidas de Serviços para Projetos (UNOPS). Está prevista a aplicação de R$150 milhões ao longo de quatro anos, por meio da implementação de projetos executados por organizações da sociedade civil, voltados à reparação dos danos morais coletivos.

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