Ejacular com frequência pode aumentar fertilidade em homens? Estudo diz que sim

Publicado em 26/03/2026, às 15h16
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Por Galileu

Pesquisadores da Universidade de Oxford contestam as diretrizes da OMS sobre a abstinência antes da coleta de sêmen, sugerindo que a ejaculação mais frequente pode melhorar a qualidade do esperma e aumentar as chances de fertilização.

O estudo analisou dados de 115 pesquisas com quase 55 mil homens, revelando que o esperma armazenado por longos períodos se deteriora, afetando negativamente a motilidade e a integridade do DNA dos espermatozoides.

Embora não proponham mudanças imediatas nas diretrizes, os especialistas recomendam uma reavaliação da abstinência prolongada, enfatizando a importância de equilibrar quantidade e qualidade do esperma, especialmente em tratamentos de reprodução assistida.

Resumo gerado por IA

Um estudo liderado por pesquisadores da Universidade de Oxford, no Reino Unido, questiona as orientações tradicionais da Organização Mundial da Saúde (OMS) ao indicar que a ejaculação mais frequente pode melhorar a qualidade do esperma e, potencialmente, aumentar as chances de fertilização. As conclusões foram descritas em um artigo publicado nesta quarta-feira (25) na revista Proceedings of the Royal Society B: Biological Sciences.

Atualmente, a OMS recomenda entre dois e sete dias de abstinência antes da coleta de sêmen para exames ou procedimentos de reprodução assistida. Segundo a autoridade de saúde, esse intervalo maximizaria a contagem de espermatozoides. No entanto, a nova pesquisa sugere que tal janela pode ser excessiva quando o objetivo é priorizar a qualidade do esperma, e não apenas a sua quantidade.

Para chegar aos seus resultados, o grupo analisou dados de 115 estudos com 54.889 homens, além de 56 pesquisas envolvendo 30 espécies animais. Assim, verificou-se um padrão consistente: o esperma armazenado no organismo tende a se deteriorar com o tempo, em um fenômeno conhecido como senescência espermática pós-meiótica. Isso está associado a danos ao DNA, aumento do estresse oxidativo e redução da motilidade e viabilidade dos espermatozoides.

"Como os espermatozoides são altamente móveis e possuem pouco citoplasma, eles esgotam rapidamente suas reservas de energia e têm capacidade limitada de reparo”, explica Rebecca Dean, pesquisadora da Universidade de Oxford e coautora do artigo, em comunicado à imprensa. “Nosso estudo destaca como a ejaculação regular pode proporcionar um pequeno, porém significativo, aumento na fertilidade masculina.”

Os dados analisados reforçam que períodos prolongados sem ejaculação tendem a agravar esses efeitos. “Nos homens, os efeitos negativos que encontramos sobre os danos ao DNA dos espermatozoides e os danos oxidativos foram consideráveis. Então, estamos confiantes de que este é um efeito biologicamente significativo e importante”, destaca Krish Sanghvi, principal autor do estudo, em entrevista ao jornal The Guardian.

Qualidade versus quantidade

Historicamente, as diretrizes médicas priorizaram a concentração de espermatozoides nas amostras, o que favorece períodos mais longos de abstinência. No entanto, essa lógica pode não refletir o cenário mais relevante para a fertilização.

“Se a quantidade de espermatozoides for o único fator relevante, então a abstinência sexual não é necessariamente algo ruim”, afirma Sanghvi. “Mas, geralmente, o sucesso da fertilização é determinado não apenas pela quantidade, mas também pela qualidade deles.”

Essa distinção ganha importância especialmente em técnicas como a fertilização in vitro (FIV), nas quais a integridade genética e a motilidade dos espermatozoides desempenham papel central. Evidências recentes indicam que a coleta de sêmen após menos de 48 horas de abstinência pode melhorar significativamente os resultados desses procedimentos.

Um ensaio clínico, cujos resultados foram antecipados em um pré-print publicado em dezembro de 2025 na revista The Lancet, reforça essa hipótese ao indicar que, entre 453 casais submetidos à FIV, a taxa de gravidez foi de 46% quando os homens se abstiveram por menos de dois dias, contra 36% entre aqueles que seguiram o intervalo tradicional de dois a sete dias.

Implicações evolutivas

O estudo também amplia a compreensão sobre como o armazenamento de espermatozoides varia entre os sexos. Em diversas espécies, as fêmeas apresentam maior capacidade de preservar a viabilidade espermática ao longo do tempo, graças a adaptações evolutivas específicas.

“Isso provavelmente reflete a evolução de adaptações específicas do sexo feminino, como órgãos de armazenamento especializados que fornecem antioxidantes”, aponta a pesquisadora Irem Sepil, também no comunicado. Esses mecanismos podem, inclusive, inspirar avanços tecnológicos no armazenamento artificial de sêmen.

Já nos machos, o acúmulo prolongado de espermatozoides tende a resultar em uma população celular mais envelhecida e suscetível a danos. “Os ejaculados devem ser vistos como populações de espermatozoides individuais que passam por nascimento, morte, envelhecimento e mortalidade seletiva”, avalia Sanghvi.

Impacto clínico

Embora o estudo não proponha uma mudança imediata e universal nas diretrizes, ele levanta questionamentos relevantes para a prática médica. Os especialistas sugerem que médicos e pacientes reconsiderem a ideia de que a abstinência prolongada é sempre benéfica.

Para casais tentando engravidar naturalmente, um equilíbrio continua sendo necessário: intervalos muito curtos podem reduzir a contagem espermática, enquanto períodos longos podem comprometer a qualidade. Já em contextos clínicos, especialmente na reprodução assistida, a tendência é valorizar cada vez mais amostras de esperma coletadas mais recentemente.

Como resume Sanghvi: “A abstinência prolongada nem sempre é benéfica e é preciso encontrar um equilíbrio entre quantidade e qualidade”. As descobertas também podem influenciar não apenas a medicina reprodutiva humana, mas programas de conservação de espécies ameaçadas, ao oferecer novas estratégias para otimizar o uso de material genético.

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