A escalada de tensão após o ataque dos Estados Unidos à Venezuela levantou questionamentos sobre o real poder bélico norte-americano e se alguma potência consegue fazer frente aos EUA.
EUA x China x Rússia
- Os Estados Unidos são a maior potência militar do mundo, mas, em aspectos específicos, chineses e russos fazem frente aos norte-americanos. De acordo com dados do site Global Fire Power, que faz um ranking anual da capacidade militar de todos os países do globo, em 2025, os EUA ocupam o primeiro lugar da lista com um "índice de potência" de 0,074. A Venezuela ocupa o 50º lugar, com um índice de potência de 0,8882 —quanto mais próximo de zero é o índice, mais poderoso o país;
- Rússia, China e Índia ocupam respectivamente o segundo, terceiro e quarto lugar da lista. Os dois primeiros países com 0,0788 e a Índia com 0,1184. "Se pensarmos no poder bélico convencional [armas, aeronaves, navios, veículos blindados], sem considerar a capacidade nuclear, esses países teriam condições de fazer frente ao poderio bélico dos EUA, com exceção da Índia", afirma José Augusto Zague, pesquisador do Instituto de Políticas Públicas e Relações Internacionais e do Grupo Estudos de Defesa e Segurança Internacional (Gedes) da Unesp;
- Países como Rússia e China fazem um planejamento estratégico para desenvolver armamentos, explica Zague. "Nos EUA, o complexo industrial militar capturou a demanda, hoje o setor tem gastos elevados, mas não uma produção considerada necessariamente eficiente", diz ele;
- EUA têm maior capacidade de deslocamento aeronaval, afirma ele. Já a China e a Rússia, afirmam Zague, concentram suas frotas nas chamadas "esferas" ou "zonas de influência" —regiões em que determinados países querem ampliar sua intervenção;
- China já faz frente aos EUA na produção e nos testes de protótipos de aeronaves de 6ª geração. Os EUA têm aeronaves de 5ª geração como o F35, usados na operação que prendeu e capturou Maduro. "Essas aeronaves conseguem ficar invisíveis para os radares de monitoramento, utilizam materiais espaciais, pintura e sistemas eletrônicos para 'cegar' os radares", explica o pesquisador. "A China desenvolveu um modelo ainda mais inovador.";
- China tem avançado rapidamente em "tecnologias críticas" — aquelas que impactam na soberania e na segurança nacional. Segundo Zague, a China tem sistemas de câmeras e monitoramento muito avançados. "Um dos objetivos da guerra cibernética é cegar os sistemas do país adversário seja o sistema de defesa aérea, sejam os centros de comunicação e a infraestrutura militar.";
- China e Rússia já têm uma produção de armamentos mais autônoma, diz Zague. "A Rússia utiliza tecnologia sem sofisticação e um desenho industrial mais eficiente, no sentido de que os armamentos são desenvolvidos para o combate", explica. "Já o país chinês tem um desenho industrial híbrido, que utiliza tecnologias de influência ocidental e outras que buscam eficiência para combate."
Dá para saber com certeza o poder de cada país?
- EUA e Rússia divulgam arsenal bélico, diferentemente da China. Segundo a professora de Defesa e Gestão Estratégica Internacional da UFRJ Adriana Marques, os índices globais são referências para entender o poder bélico de cada país, mas não refletem exatamente o poderio de cada um. "Nenhum país diz exatamente o que tem, não se sabe o real poder da indústria bélica chinesa. Ao contrário dos EUA e da Rússia, a China não costuma exibir sua capacidade", afirma.
- Em uma guerra cibernética, armas não são apresentadas aos opositores diferentemente dos armamentos convencionais, ressalta o pesquisador. Em uma guerra convencional, armas de destruição são apresentadas aos opositores. Já em relação ao poder cibernético, as armas só passam a ser conhecidas nos momentos em que se ataca.
- Países mantêm sigilo sobre algumas de suas capacidades durante guerras cibernéticas, ressalta o pesquisador. No ataque dos EUA à Venezuela, por exemplo, as ações foram precedidas do desligamento do sistema de energia elétrica. "O sistema de internet é utilizado para desligar os sistemas, ou seja, uma guerra travada no campo comunicacional". Já os novos armamentos convencionais, como aviões de combate, recebem grande divulgação como forma de dissuadir os adversários.
Como as indústrias bélicas avançam?
- Há diferenças no desenho industrial militar dos EUA, Rússia e China, aponta o pesquisador da Unesp. Na Rússia e na China, explica Zague, a demanda por armamento atende às necessidades identificadas a partir de um planejamento estratégico. Nos EUA, as armas são pensadas para a exportação. "Com isso, os EUA ficaram para trás da China e da Rússia em alguns setores específicos, como a tecnologia de mísseis hipersônicos", ressalta;
- Nos EUA, o chamado "complexo industrial militar" atende mais aos interesses do mercado e determinados setores, diz o professor. "Durante muitos anos, o setor foi administrado pelo governo, mas agora é administrado por empresas", diz Zague. Alguns setores, como o espacial, aponta ele, que produz a tecnologia de mísseis, tinha maior participação do Estado e hoje, maior participação privada. Já a indústria da Rússia e da China desenvolve armamentos pensando nas vulnerabilidades próprias;
Mas há risco de ofensiva militar?
- Apesar de China e Rússia terem condições de fazer frente aos EUA, especialistas não veem risco de ofensiva militar entre potências. Zaque, da Unesp, afirma que a probabilidade de que haja um enfrentamento militar entre potências é baixa. Adriana, da UFRJ, também não acredita em uma escalada bélica desses países contra os EUA.
- Países vão manter e intensificar intervenções sobre outras nações. "Os EUA vão aumentar a presença militar, influência e intervenção na América Latina sob o pretexto do combate ao narcotráfico", diz ele. "China e Rússia vão manter suas respectivas áreas de influência, não é uma preocupação deles fazem um enfrentamento deles nesse momento."
Ranking de países com maior poderio militar
- De acordo com o site Global Fire Power, os EUA são o país com a maior capacidade militar, seguidos pela Rússia e China. O Brasil aparece na 11ª posição. No ranking, quanto mais próximo de zero é o índice, mais poderoso o país:
Estados Unidos (0,0744)
Rússia (0,0788)
China (0,0788)
Índia (0,1184)
Coreia do Sul (0,1656)
Reino Unido (0,1785)
França (0,1878)
Japão (0,1839)
Turquia (0,1902)
Itália (0,2164)
Brasil (0,2415)
Paquistão (0,2513)
Indonésia (0,2557)
Alemanha (0,2601)
Israel (0,2661)