Um homem em Eldorado, São Paulo, ficou internado por um mês após ser picado por uma cobra jararacuçu e receber o soro antiofídico errado, quase perdendo a vida. A situação foi corrigida após a identificação correta do animal com a ajuda de inteligência artificial e do Instituto Butantan.
Leandro Marques do Nascimento foi picado enquanto pescava e, após receber tratamento inadequado, apresentou sintomas graves, como urina preta e inchaço na perna. A confusão na identificação da cobra levou a um tratamento inicial com soro para cascavel, o que agravou sua condição.
Após a intervenção da Polícia Militar, Leandro conseguiu o encaminhamento para cirurgia e recebeu alta, mas ficou com sequelas permanentes. O Hospital Regional Dr. Leopoldo Bevilacqua defendeu que segue rigorosamente os protocolos assistenciais, enquanto a Santa Casa de Eldorado não foi localizada para comentar o caso.
Um homem ficou internado por um mês após ser picado por uma cobra jararacuçu (Bothrops jararacussu) em Eldorado, no interior de São Paulo. Leandro Marques do Nascimento contou que ficou "entre a vida e a morte" após receber 20 doses de soro para neutralizar o veneno da espécie errada.
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"Uma picada de cobra e um soro errado que quase custou a minha vida", destacou o servidor público, de 46 anos, que descobriu a verdadeira espécie com auxílio de inteligência artificial e do Instituto Butantan".
Segundo o relato, a picada ocorreu enquanto Leandro pescava com a esposa no Parque Salto da Usina, no dia 7 de março. O servidor disse ter sentido uma queimação na perna e, quando olhou para baixo, havia sangue e uma marca que aparentava ser uma picada de cobra.
O servidor encontrou o animal nas proximidades e tirou duas fotos dele. Em seguida, foi levado pela esposa ao pronto-socorro da Santa Casa de Eldorado.
"O doutor fez algumas perguntas: 'Ela tinha chocalho no rabo?'. Falei: 'Sei que o rabo dela parecia um parafuso. Só que quando ela foi embora, ela saiu balançando o rabo. Mas eu não sei, né? Nunca vi uma cascavel'", explicou Leandro.
De acordo com ele, o médico entendeu se tratar de uma cascavel e aplicou dez soros antiofídicos para neutralizar o veneno desta espécie. Oito horas depois, os sintomas continuavam piorando, então ele foi transferido para o Hospital Regional Dr. Leopoldo Bevilacqua, em Pariquera-Açu (SP).
O homem explicou que chegou à segunda unidade de saúde com a urina preta, pressão arterial alta e o inchaço se estendendo por toda a perna. "Já estava entre a vida e a morte", lamentou ele.
Mais doses
Leandro afirmou que a equipe médica ligou no primeiro hospital e uma funcionária informou erroneamente que ele havia tomado soro para o veneno da jararacuçu. "Ela salvou a minha vida. Baseado no que essa enfermeira falou, eles me deram dois soros para jararacuçu, o que reduziu um pouco dos efeitos", disse.
Segundo o relato, o servidor começou a se sentir melhor, mas no dia seguinte o médico de plantão viu o prontuário com as dez doses para o veneno de cascavel e receitou mais dez soros antiofídicos para neutralizar o veneno da espécie errada.
Descoberta
Com os sintomas piorando novamente, Leandro pediu para a irmã enviar as duas fotos da cobra para o Instituto Butantan, no dia 9 de março. Veja a resposta abaixo:
"É urgente informar à equipe hospitalar que houve uma divergência na identificação do animal: ele recebeu o soro anticrotálico (cascavel), mas o acidente foi causado por uma jararacuçu. Recomendamos o contato imediato com o Hospital Vital Brasil para que a equipe médica receba as orientações sobre a revisão do protocolo e a conduta terapêutica a ser seguida".
O paciente acrescentou que também colocou as imagens em duas inteligências artificiais (ChatGPT e Gemini) que afirmaram se tratar de uma jararacuçu. "Penso eu que está evidente que o médico que me atendeu no momento não estava preparado para esse tipo de ocorrência", destacou.
Polícia acionada
Leandro contou que avisou o médico sobre o retorno do Instituto Butantan, mas o profissional se recusou a seguir as orientações. Ele acrescentou que só conseguiu o encaminhamento para uma cirurgia para aliviar a pressão na perna após a esposa acionar a Polícia Militar, no dia 14 de março.
O servidor recebeu alta hospitalar na segunda-feira (6), e destacou ter vivido um caso de negligência médica. "Fiquei com sequelas. Não estou conseguindo mexer a perna, estou com a perna toda dolorida ainda, não sei se eu consigo voltar a andar", finalizou ele.
Hospitais
Por meio de nota, o Hospital Regional Dr. Leopoldo Bevilacqua informou que, em razão do sigilo médico e do respeito à privacidade dos pacientes, não fornece informações sobre casos concretos.
"Reforçamos, contudo, que todos os pacientes que chegam a este hospital são prontamente atendidos conforme protocolos assistenciais, rigorosamente seguidos nesta unidade de saúde, que é referência no Vale do Ribeira e Litoral Sul", destacou a unidade de saúde.
O g1 não localizou a Santa Casa de Eldorado até a última atualização desta reportagem.
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