Alagoas

Jovem deixa família em Maceió para buscar emprego em GO e morre de Covid-19

Metrópoles | 05/06/21 - 17h20 - Atualizado em 05/06/21 - 17h28
Arquivo Pessoal

Sem trabalho em Maceió (AL) e com dois filhos pequenos para criar, Jamerson Lima da Silva, de 29 anos, deixou as crianças, a mãe e a esposa em casa, em dezembro, para buscar emprego em Porteirão (GO). Ele chegou sozinho à cidade, que fica na região forte do agronegócio goiano, e, assim que conseguiu trabalho fixo, quatro meses depois, pegou Covid-19, morreu e foi enterrado a 2,3 mil km de distância da família.

Porteirão, conforme levantamento feito pelo Metrópoles, é a cidade brasileira com a maior quantidade de casos de Covid, em relação ao total da população. Cerca de 40% dos moradores já foram diagnosticados com a doença, desde o início da pandemia. Jamerson é uma das 22 pessoas que morreram no município, e o caso dele comoveu a comunidade local, devido à distância dos familiares.

Sem dinheiro para viajar, a mãe do rapaz, Elenaide Lima da Silva, de 47 anos, ainda não conseguiu visitar o túmulo do filho. Ela conta que recebia notícias pelo celular e que só viu o enterro porque um pastor de Porteirão, uma das pessoas que ajudou Jamerson na cidade, filmou o sepultamento.

“Infelizmente, eu não pude ir ver o meu filho. Ele deixou dois filhos pequenos, um de 9 anos e outra de 4. Ou eu dava assistência (financeira) às crianças ou eu ia para Porteirão”, diz a mãe.

Jamerson faleceu no dia 21 de abril, após ser transferido a um hospital de Goiânia e intubado. A prefeitura pagou os custos funerários e ele foi enterrado no cemitério de Porteirão. No túmulo, alguém escreveu à mão, no cimento, o nome dele e as datas respectivas de nascimento e morte.

No dia do enterro, o cortejo fúnebre foi feito por profissionais da saúde local, que preservam na memória o caso do rapaz como um dos mais emblemáticos do enfrentamento da Covid, até então.

“Sonho dele durou poucos dias”

Jamerson decidiu ir para Porteirão ao ver que um tio havia conseguido trabalho na cidade. O município, apesar de pequeno, com menos de 4 mil habitantes, é rodeado por usinas de cana-de-açúcar e lavouras, que atraem pessoas de outros estados do Brasil em busca de emprego. É a chamada “população flutuante”, que se muda para a região conforme as safras das plantações.

O tio de Jamerson, José Luiz Lima Feitosa, de 42 anos, trabalha para a usina de uma empresa multinacional. Ele atua como motorista de rodotrem e fica entre Alagoas e Goiás, de acordo com as temporadas da safra da cana.

Quando o sobrinho se mudou para Porteirão, o tio não estava na cidade. Ele já havia retornado para Alagoas. Quando voltou para Goiás, o rapaz já estava com os sintomas da doença.

“Eu já vi ele estranho, quando ele chegou em casa e tossindo muito. Eu pedi para levá-lo para o hospital e ele dizia que não queria, que estava tudo bem. Acho que ele pegou no trabalho, porque ele estava bom, tudo certo. A gente conversava e ele contava sobre o sonho dele, que era trabalhar e mandar dinheiro para os filhinhos dele. O sonho dele se foi em poucos dias”, lamenta o tio.

Um dia depois de começar a trabalhar como auxiliar de produção numa usina de cana-de-açúcar, com carteira assinada, e viver a alegria de contar para a família a novidade, Jamerson começou a sentir os sintomas da Covid. “A ideia dele era levar todos nós para morar com ele”, conta a mãe, Elenaide, que espera um dia poder ir a Porteirão para visitar o túmulo do filho.

Sentimento

“Não é fácil você não participar, estar longe e sem poder se despedir do seu filho. Em momento nenhum está sendo fácil. Antes de ele ser intubado, eu fiz uma chamada de vídeo com ele e conseguimos nos falar. Eu disse ‘só escute’ para que ele não fizesse esforço, abençoei ele e pedi a Deus. Foi nosso último contato”, relata Elenaide.

O único da família que esteve presente no enterro foi o tio José Luiz. Ele ainda guarda em casa alguns pertences de Jamerson, até que seja possível enviar tudo para a família em Maceió. Entre os objetos, estão fotos que o rapaz carregou consigo ao se mudar. São imagens dele quando criança, da mãe, dos filhos e da companheira que ficaram para trás.

O Metrópoles falou com Elenaide, por telefone, na terça-feira (1º/6). Ela ainda não sabia se alguém havia identificado o túmulo do filho com o nome dele, pois a única imagem que viu foi a do vídeo feito pelo pastor no dia do enterro. A reportagem informou a ela como está o local.

“O coração não sossega”

A irmã de Elenaide, que é casada com José Luiz, deve ir para Porteirão nos próximos dias e é ela quem vai se responsabilizar por arrumar a sepultura do sobrinho. A mãe trabalha como marisqueira em Maceió e depende do pouco dinheiro que a pesca lhe fornece.

Hipertensa, ela ainda não conseguiu se vacinar no grupo de comorbidades, pois está com dificuldade de arrumar o atestado médico. Esse também foi um dos fatores que a fez refletir sobre viajar até Porteirão e se arriscar no longo trajeto entre Maceió e o sul de Goiás. “São três dias de viagem de ônibus”, diz José Luiz.

“A mãe não fica sossegada, não se conforma jamais, mas era o que eu tinha nas mãos e dava para fazer na hora. Ou eu ia ou dava assistência aos meus netos. Hoje, sosseguei um pouco, mas o meu coração não esquece, não sossega”, afirma Elenaide.