Luas distantes podem abrigar condições propícias à vida, conclui estudo

Publicado em 16/03/2026, às 23h02
Dahlbüdding/DALL-E
Dahlbüdding/DALL-E

Por Revista Galileu

Um novo estudo revela que luas de planetas errantes, que não orbitam estrelas, podem manter oceanos de água líquida por até 4,3 bilhões de anos, sugerindo que ambientes habitáveis podem existir em regiões do espaço sem luz estelar.

Essas luas, formadas em sistemas planetários instáveis, podem gerar calor interno por meio de forças de maré, permitindo a retenção de água mesmo em condições extremas de frio, especialmente se possuírem atmosferas ricas em hidrogênio.

As descobertas ampliam a compreensão sobre a origem da vida, indicando que ambientes sem sol podem ser propícios para o surgimento de formas de vida, aumentando significativamente o número de locais potencialmente habitáveis no universo.

Resumo gerado por IA

Para conseguimos estabelecer vida fora da Terra precisamos de algo simples: água. Por décadas, cientistas concentraram suas investigações em planetas localizados na chamada “zona habitável” de estrelas, regiões onde a temperatura permite a existência de água líquida na superfície. Mas um novo estudo sugere que ambientes potencialmente habitáveis podem existir muito além da luz de qualquer estrela.

Divulgada no último dia 11 de março, a pesquisa foi publicada no periódico Monthly Notices of The Royal Astronomical Society por pesquisadores do Cluster de Excelência ORIGINS da Universidade Ludwig Maximilian de Munique (LMU) e do Instituto Max Planck de Física Extraterrestre (MPE), na Alemanha.

Os cientistas mostraram que luas orbitando planetas errantes (corpos celestes que vagam sem uma estrela) podem manter oceanos de água líquida por até 4,3 bilhões de anos. Esse período é comparável à idade da Terra e, teoricamente, suficiente para que formas complexas de vida se desenvolvam.

O que são planetas errantes?

Planetas errantes surgem em sistemas planetários jovens e instáveis. Durante a formação desses sistemas, interações gravitacionais entre planetas podem expulsar alguns deles de suas órbitas, lançando-os no espaço interestelar. Apesar desse processo violento, pesquisas anteriores indicam que gigantes gasosos ejetados podem manter parte de suas luas.

Quando isso acontece, as órbitas dessas luas tendem a se tornar altamente elípticas, ou seja, sua órbita não é circular, mas ovalada (em forma de elipse). Isso significa que a distância entre a lua e o planeta varia continuamente, gerando fortes forças de maré. Esse efeito provoca deformações periódicas no corpo da lua, comprimindo seu interior e produzindo calor por atrito, um fenômeno conhecido como aquecimento de maré.

Segundo os pesquisadores, essa fonte interna de calor pode ser suficiente para manter oceanos líquidos mesmo no frio extremo do espaço interestelar, onde não há luz estelar para aquecer a superfície.

Atmosfera rica em hidrogênio

A atmosfera das luas desempenha um papel crucial nessa dinâmica. Na Terra, o dióxido de carbono (CO₂) atua como um importante gás de efeito estufa, retendo calor na atmosfera. Em ambientes extremamente frios, porém, o CO₂ tende a se condensar, perdendo sua capacidade de manter temperaturas adequadas.

Por isso, os cientistas investigaram um cenário alternativo: atmosferas ricas em hidrogênio. Embora o hidrogênio molecular seja normalmente transparente à radiação infravermelha, ele pode reter calor em condições de alta pressão por meio de um fenômeno chamado absorção induzida por colisão.

Nesse processo, moléculas de hidrogênio que colidem momentaneamente formam complexos capazes de absorver radiação térmica, aprisionando calor na atmosfera. O resultado é um efeito estufa estável, capaz de manter temperaturas superficiais compatíveis com a presença de água líquida por bilhões de anos.

As descobertas também fornecem novas pistas sobre a origem da vida. "Nossa colaboração com a equipe do Professor Dieter Braun nos ajudou a perceber que o berço da vida não necessariamente requer um sol", afirma David Dahlbüdding, pesquisador de doutorado na LMU e principal autor do estudo, em comunicado.

"Descobrimos uma clara conexão entre essas luas distantes e a Terra primitiva, onde altas concentrações de hidrogênio provenientes de impactos de asteroides podem ter criado as condições para o surgimento da vida", acrescenta.

Os cientistas notaram também que as forças de maré nessas luas podem gerar ciclos naturais de umidade e seca. A deformação periódica do terreno pode levar à evaporação da água e à sua posterior condensação — processos fundamentais para a formação de moléculas orgânicas complexas, um passo essencial no surgimento da vida.

Como planetas errantes podem ser tão numerosos quanto as estrelas da Via Láctea, o estudo amplia significativamente o número de possíveis ambientes habitáveis no universo. Isso demostra que o surgimento da vida pode não depender necessariamente da presença de um sol. Mesmo nas regiões mais escuras da galáxia, luas distantes podem esconder oceanos líquidos e, quem sabe, formas de vida ainda desconhecidas.

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