Leo, um bebê de 45 dias, foi diagnosticado com ALCAPA, uma malformação cardíaca que compromete a oxigenação do sangue, após apresentar sintomas como irritabilidade e perda de peso, levando sua família a buscar atendimento médico urgente.
A condição, que não foi detectada durante o pré-natal, é difícil de diagnosticar em gestantes, pois os bebês não mostram alterações circulatórias enquanto estão no útero, o que pode atrasar o tratamento necessário.
Após a cirurgia para corrigir a malformação, Leo enfrentou um complicado pós-operatório, mas se recuperou bem e, atualmente, aos 12 meses, está se desenvolvendo normalmente com o suporte de terapias de reabilitação.
A engenheira Mariana Vilela Valias Vilarinho Cardoso, de 45 anos, ficou um pouco apreensiva quando seu filho começou a perder peso. Com menos de dois meses, Leo ficava frequentemente irritado. “Já não queria mamar, só conseguia dormindo”.
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Os episódios de vômito deixaram a família ainda mais preocupada. “Eram sinais claros de que algo não estava bem”, disse a mãe, que mora no Rio de Janeiro, em entrevista à CRESCER.
A aflição de Mariana não era exagero! De fato, o pequeno estava lutando contra uma malformação que impactou seu sistema cardiovascular. Conhecida como ALCAPA, a condição pode levar à baixa oxigenação e até mesmo à redução ou interrupção do fluxo sanguíneo.
Mariana recebeu o diagnóstico com um sentimento de surpresa e incredulidade. Afinal, a condição não foi diagnosticada em seu pré-natal. A ALCAPA é caracterizada por ser uma cardiopatia de difícil diagnóstico na gestação, uma vez que o bebê — enquanto está no útero — não apresenta alterações no fluxo circulatório, devido ao suporte da placenta.
A surpresa do diagnóstico
Leo foi internado para investigar um possível problema gástrico. O pequeno já estava há cinco dias no hospital, quando fez um ecocardiograma que detectou uma alteração em seu coração. “O diagnóstico pegou todos de surpresa, inclusive os médicos que o acompanhavam até então”, a mãe revelou.
Ao ser diagnosticado com ALCAPA, o bebê foi encaminhado para uma cirurgia. O momento marcou uma fase bem difícil para a família.
“Foram longas horas de espera e muita fé em Deus. O Leo entrou no centro cirúrgico às 7 horas da manhã e só voltou para a UTI por volta das 19 horas. É um tempo que parece infinito para qualquer pai ou mãe.”
O pós-operatório também exigiu cuidados extremamente delicados. Mariana revela que os primeiros 15 dias foram muito intensos. “Ele precisou de ECMO, diálise, estabilização cuidadosa dos sinais vitais, muitos ajustes de medicação e bastante sedação. Aos poucos, começou o processo de desmame da sedação, a extubação e, finalmente, o retorno da alimentação com leite.”
Cerca de dois meses após a cirurgia, mais um susto! Os médicos identificaram um trombo na artéria coronária que havia sido reimplantada em Leo. “Felizmente, o problema foi resolvido com um cateterismo. A partir daí, a evolução dele foi impressionante. Em menos de 30 dias, tivemos alta e conseguimos voltar para casa.”
O que é a ALCAPA?
A ALCAPA é uma cardiopatia congênita rara em que a artéria coronária esquerda nasce da artéria pulmonar em vez da aorta. Esse assunto pode dar um nó na cabeça, por isso, é importante compreender como é o funcionamento habitual do sistema cardiovascular.
O sistema cardiovascular é formado por:
A principal função desse sistema é levar o sangue rico em nutrientes e oxigênio (sangue arterial) para todo o corpo e “coletar” o sangue pobre em oxigênio (sangue venoso). Para compreender o que seria a ALCAPA, é necessário conhecer a função de duas estruturas importantes:
O que acontece na ALCAPA?
Em um coração saudável, ambas as artérias coronárias — vasos sanguíneos que fornecem sangue rico em oxigênio e outros nutrientes ao músculo cardíaco — se ramificam da aorta. Pense na aorta como uma “tubulação de alta pressão” e nas artérias coronárias como “mangueiras”, que levam o sangue direto para o músculo cardíaco.
No caso da ALCAPA, a artéria coronária esquerda nasce no lugar errado. Em vez da aorta (essa “tubulação” com alta pressão), ela está ligada à artéria pulmonar (uma “tubulação” de baixa pressão que transporta sangue pobre em oxigênio para os pulmões). Dessa forma, parte do sangue que flui pela artéria coronária esquerda não chega ao coração. Há também a possibilidade do sangue chegar ao coração, mas com baixa oxigenação.
Como consequência, o bebê pode ter um quadro de isquemia — fluxo de sangue e oxigênio inadequado — ou mesmo uma arritmia, alteração no ritmo dos batimentos do coração.
O principal problema dessa condição é que o bebê pode demorar para ter os sintomas desse fluxo sanguíneo inadequado. “Na sala de parto, ele, às vezes, não demonstra alterações, porque ainda tem a persistência da circulação fetal. Então, nem todo bebê que tem cardiopatia complexa nasce mal”, explica Teresa Uras Belém, que é coordenadora da UTI Neonatal do Hospital Samaritano Higienópolis e acompanhou o caso do Leo.
O diagnóstico
O principal sinal de alerta para os médicos sobre uma cardiopatia é o resultado do teste do coraçãozinho. Feito entre 24 e 48 horas depois do nascimento, no teste de triagem obrigatório no Brasil, uma pulseira é colocada no pulso e no calcanhar da criança para medir a oxigenação no sangue. O intuito é confirmar se o coração está trabalhando normalmente. Em caso de suspeita, um ecocardiograma deve ser solicitado.
Nos casos de suspeita de cardiopatias complexas, o médico pode solicitar uma angiotomografia para avaliar os vasos sanguíneos.
Quais são os sintomas
Bebês com ALCAPA podem apresentar sintomas como:
Tratamento
As cardiopatias cianóticas — como a ALCAPA — precisam ser tratadas por meio da via cirúrgica. O objetivo da operação é corrigir o problema para o fluxo sanguíneo voltar ao normal. Segundo a médica, o bebê deve ser preparado considerando vários aspectos, inclusive a oxigenação cerebral tanto na cirurgia como também no intraoperatório e no pós-operatório.
“As convulsões neonatais, em grande maioria, são assintomáticas”, alerta a especialista. “Só conseguimos ver pelo traçado do eletro. No caso do Leo, deixamos esse monitoramento cerebral para ver se tinha alguma convulsão que precisássemos atuar.” Esse acompanhamento é realizado com auxílio de uma tecnologia baseada em inteligência artificial.
Hoje, a família do pequeno não poderia estar mais feliz! Afinal, ele já está com 1 ano e vem se desenvolvendo muito bem com o apoio das terapias de reabilitação motora e oral. “É um menino alegre, destemido, que engatinha, escala tudo o que vê pela frente e já ensaia os primeiros passos. Ele é o nosso 'coração coragem'”, disse a mãe orgulhosa.
Fontes: Teresa Uras Belém, que é coordenadora da UTI Neonatal do Hospital Samaritano Higienópolis; Cartilha vinculada ao grupo de estudos e pesquisa em saúde da pessoa em condições críticas; Cleveland Clinic e Children's Hospital of Philadelphia.
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