Mãe relata luto 9 anos após filho ser morto com arma achada em gaveta na casa da avó

Publicado em 31/03/2026, às 14h16
Lorenzo morreu aos 3 anos após encontrar uma arma na gaveta da casa da avó, em Santos (SP) - Foto: Arquivo pessoal
Lorenzo morreu aos 3 anos após encontrar uma arma na gaveta da casa da avó, em Santos (SP) - Foto: Arquivo pessoal

Por Revista Crescer

Em 2017, Lorenzo, um menino de 3 anos, sofreu um disparo acidental de uma arma encontrada em casa e não sobreviveu, levando sua mãe, Sabrina, a mudar-se para Portugal em busca de recomeço.

Após nove anos, Sabrina revisita a tragédia, destacando a negligência dos responsáveis pela arma e sua luta diária com o luto, enquanto busca preservar a memória do filho em sua nova vida.

Sabrina compartilha sua história para alertar sobre os perigos de armas em casa, enfatizando a importância de discussões sobre segurança e prevenção para evitar que outras famílias enfrentem tragédias semelhantes.

Resumo gerado por IA

Lorenzo tinha apenas 3 anos quando encontrou uma arma em uma gaveta, dentro do apartamento da avó materna, em Santos (SP). O menino fez um disparo acidental contra si mesmo e não resistiu. A tragédia aconteceu em 2017 e, de lá para cá, tudo mudou, conta a mãe, Sabrina Pinheiro Lopes.

Após a tragédia, ela e o marido, Fernando Piccirilo, que também eram pais de Luca, na época com apenas um mês, decidiram mudar para Portugal. Por lá, tiveram mais um filho, Martim, hoje com 6 anos. “Nos separamos em 2022, mas temos uma relação espetacular. Ele tem uma namorada incrível e eu estou noiva de outra pessoa”, conta.

Passados nove anos da morte de Lorenzo, Sabrina revisitou a própria história em entrevista à CRESCER. Ela enfatizou que, apesar da tragédia, conseguiu preservar algo que considera essencial: a capacidade de perdoar a mãe e o companheiro dela – responsáveis, segundo ela, pela negligência que resultou na perda de seu filho.

O dia da tragédia

Em 2017, Sabrina e Fernando se mudaram de Santos para Ribeirão Preto, com o objetivo de ficar mais próximos da família dele. No entanto, por conta de consultas médicas e compromissos profissionais, precisaram retornar temporariamente ao apartamento da avó materna das crianças. Sabrina não se sentia totalmente confortável na casa da própria mãe, mas a decisão também foi influenciada por um pedido de Lorenzo, que queria ficar com a “avó Lu”.

Na manhã em que tudo aconteceu, Sabrina tinha reuniões de trabalho e a família dispunha de apenas um carro. Diante disso, sua mãe sugeriu que a pessoa que ajudava com as crianças fosse até sua casa para dar apoio a Luca, enquanto ela própria ficaria responsável por cuidar de Lorenzo.

Sabrina saiu de carro para cumprir seus compromissos. Fernando, por sua vez, se arrumou e pediu um carro de aplicativo para ir aos dele. Pouco depois, já na rua e aguardando o veículo, foi avisado pelo porteiro do prédio de que havia uma gritaria no apartamento e que seria melhor subir.

Ao voltar ao apartamento, Fernando encontrou Lorenzo caído no chão, com a arma ao lado. A mãe de Sabrina e o marido dela estavam em desespero. “Minha mãe e o marido dela estavam gritando muito. Eles chamaram a ambulância, mas, como estava demorando, um vizinho os levou até o hospital”, relembrou Sabrina.

Em uma única conversa que teve com a esposa sobre o ocorrido, Fernando contou que Lorenzo foi perdendo a respiração enquanto ainda estava em seu colo, dentro do carro, e que já chegou ao hospital sem vida. “Nesse momento, Fernando ligou para uma amiga que estava comigo e pediu que ela me levasse ao hospital, porque havia acontecido uma tragédia”, contou Sabrina.

Ao chegar, ela se deparou com o filho já sem vida. “Vi meu amor ali, numa maca, tão fria quanto aquela mãozinha linda que tanto me fazia bem e tanto amor me trazia.”

O padrasto de Sabrina – que era policial – havia deixado a arma na mesa de cabeceira, ao lado da cama. Ele foi tomar banho, a avó foi fazer café e Lorenzo, que assistia televisão na sala, foi até o quarto, mexeu na gaveta e a arma disparou.

Luto interrompido e o caminho para o perdão

Sabrina conta que não pôde viver o luto logo após a morte de Lorenzo. “Eu tinha um bebê de 1 mês, então, não houve tempo para isso, na época. Era uma dor profunda todos os dias, mas eu precisava cuidar do Luca, do Fernando e do que nos restava”, relembrou. “No fundo, acho que ainda vivo o luto dessa perda todos os dias.”

O trabalho foi o que trouxe apoio e motivação para sua vida diante de um momento tão difícil. Dentista por formação e cabeleireira por paixão, Sabrina afirma que atender clientes com histórias difíceis a ajudou de alguma forma.

Sua fé, porém, foi profundamente abalada. “Naquela altura, eu não conseguia entender e crer em um Deus que havia tirado meu filho de mim.” Com o tempo, contudo, a mãe começou a perceber que a história de Lorenzo acabava acolhendo e iluminando a trajetória de outras mulheres.

Hoje, Sabrina afirma que perdoou a mãe e o companheiro dela – mas isso não apaga a realidade do que ocorreu. “Quero deixar claro que o que aconteceu com o Lorenzo não foi um acidente. O que houve foi uma negligência. Uma criança dentro de um apartamento precisa de cuidado e 100% de supervisão”, desabafou. E completou: “Eu acredito que eles não queriam que isso tivesse acontecido, mas foram negligentes”.

Ela reforça que não sente raiva nem rancor, mas afirma que a tragédia poderia ter sido evitada. “Minha mãe sempre vem aqui em Portugal para visitar os outros netos, mas claro que a relação nunca mais foi a mesma.”

História que precisa ser compartilhada

Mesmo com todas as mudanças enfrentadas desde 2017, a família de Lorenzo faz questão de se reunir todos os anos em seu aniversário como uma forma de homenageá-lo e manter sua memória viva. Hoje, o menino estaria com 12 anos.

Para os irmãos mais novos, Luca e Martin, as lembranças seguem presentes em fotos e vídeos guardados pela mãe. “Penso nele todos os dias”, diz Sabrina.

Apesar da dor de revisitar a tragédia, ela afirma que compartilhar sua história foi a maneira que ela encontrou de levantar a discussão sobre a presença – e os perigos – de armas dentro de casa.

“Eu quis contar nossa história porque acho importante falar sobre esse assunto. É importante falarmos sobre a questão de ter armas em casa, para que isso seja levado realmente a sério e nenhuma outra família passe mais por isso”, concluiu.

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