Joice Melo, que enfrentou desafios significativos na maternidade e foi diagnosticada com autismo, fundou o instituto Mães que Escrevem para ajudar mulheres a compartilhar suas experiências por meio da escrita, transformando um encontro casual em um coletivo de apoio e empoderamento.
O grupo, que começou com encontros mensais, evoluiu para um projeto digital que inclui uma revista e diversas iniciativas, como cursos e oficinas, visando fortalecer a rede de apoio entre mães e promover a reflexão sobre maternidade e saúde mental.
Apesar de enfrentar desafios, como a censura de alguns relatos, o instituto continua a expandir sua atuação em eventos culturais e concursos literários, buscando dar visibilidade às vozes maternas e abordar as dificuldades enfrentadas pelas mulheres na sociedade.
Ter se tornado órfã ou se descobrir uma mulher autista não passou nem perto do sofrimento que Joice Melo enfrentou com a maternidade. A paulistana buscou na escrita uma maneira de aliviar a solidão e ressignificar as mudanças que vieram com seu primeiro filho.
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De um encontro improvisado e organizado pelo Facebook, há dez anos, nasceu o Mães que Escrevem, instituto criado para incentivar mulheres a registrarem suas vivências da maternidade por meio da escrita.
Nascida na favela das Três Marias, na zona leste de São Paulo, Joice ficou órfã aos seis anos e foi criada pela tia até os 19.
Com dificuldade para se expressar verbalmente, ela encontrou na escrita uma forma de se comunicar. Começou a escrever aos 11 anos em diários pessoais, hábito que permaneceu ao longo da vida e influenciou sua escolha pela graduação em letras e o jornalismo como profissão.
"A escrita também é minha rede de apoio, então é difícil parar", afirma ela, que teve diagnóstico do autismo no final de 2023.
Logo depois de terminar a faculdade, aos 21, Joice engravidou. Ela relata que o relacionamento com o pai do seu filho foi marcado pela falta de apoio.
"Era baseado no eu fazer tudo. Foi uma relação ruim, sem apoio dele nem para o mínimo. Eu era casada, mas era como se não fosse, me sentia muito sozinha."
Na gestação, trabalhou até os oito meses como recepcionista em uma clínica de oftalmologia para garantir o sustento da família. Sem espaço para compartilhar as mudanças físicas e emocionais que chegaram com a maternidade, ela buscou na internet por outras mulheres que viviam experiências semelhantes.
O convite feito no Facebook marcava um encontro no Parque da Água Branca, em São Paulo. Para a sua surpresa, mais de 20 pessoas apareceram.
"Eu não tinha preparado nada. Imaginei que apareceriam duas pessoas, a gente só iria conversar e fazer amizade, porque eu era muito solitária. Sentamos em roda, falamos sobre o dia a dia e, no fim, me perguntaram quando seriam os próximos encontros."
Assim, o que começou como uma reunião casual entre mães se transformou em compromisso mensal até com especialistas. "Eu convidava advogadas, assistentes sociais e psicólogas para falar sobre diferentes temas."
O grupo se transformou em um coletivo de mães feministas que, aos poucos, ampliou sua atuação. "A gente chegou a fazer 'aulões' de redação para mães que iam prestar o Enem e a arrecadar roupas e alimentos para mulheres em situação de vulnerabilidade."
Durante um ano, o coletivo continuou com encontros e mobilizações, mas o desejo de alcançar outras mães, além das que viviam em São Paulo, levou Joice a migrar para o digital. Em 2017, nasceu o blog Mães que Escrevem.
Em dezembro do ano passado, a revista Mães que Escrevem, que reúne textos autorais, ensaios, entrevistas e produções literárias alcançou a 17ª edição.
A carioca Márcia do Valle, 48, é colunista da revista, que é um dos projetos tocados pelo instituto criado em 2025. Ela conheceu o projeto em 2019, no Instagram, e publicou seu primeiro texto em agosto do mesmo ano.
A motivação, segundo ela, foi pelo momento que vivia com a filha mais velha, Júlia, na época com 11 anos e na pré-adolescência. Ela relata que, com o crescimento dos filhos, o contato entre as mães tende a diminuir, já que os adolescentes passam a buscar mais autonomia.
"É como se ser mãe tivesse uma data de validade e depois [da infância] você não fosse mais. Vai ficando mais solitário. Você vai se afastando das mães dos amigos dos seus filhos, porque eles não querem mais você ali."
Além de um espaço para se expressar, Márcia diz que a organização também a colocou em contato com outras mães e ajudou a construir uma rede de apoio alternativa.
Hoje, o instituto Mães que Escrevem faz publicações no impresso e no digital, promove cursos e oficinas de formação voltados à escrita, leitura e reflexão crítica sobre maternidade, saúde mental e produção cultural. Os textos podem ser assinados ou enviados anonimamente.
Apesar disso, alguns relatos enviados pelas integrantes precisaram ser retirados do ar. "Já apaguei textos porque o marido da mulher que estava desabafando se sentiu ofendido ao ler."
A organização participa de feiras, eventos culturais e ações públicas, ampliando a presença das escritoras em espaços de leitura, debate, comercialização e reconhecimento da produção literária materna.
E também produz o concurso Escrevivências Maternas, que traz visibilidade literária, circulação de textos e publicação de mães e gestantes. A iniciativa é inspirada no conceito de 'escrevivência', criado pela escritora Conceição Evaristo, que associa as experiências de vida à produção literária aqui o termo é aplicado às vivências com a maternidade.
"Além dos textos que as mães enviam, a gente também tem mães autoras, muitas delas independentes, em busca de um espaço que na maioria das vezes não encontram. Então, as acolhemos."
A escrita, para Joice, é um processo de cura diante das violências que atravessam o processo de ser mãe, como o julgamento constante e a falta de apoio às mulheres problemas que, segundo ela, revelam a ausência de políticas públicas e redes de acolhimento.
"Eu preciso de ajuda e de escuta. Mas me colocar como alguém que proporciona isso para outras mulheres acabou me ajudando também. Mães que Escrevem foi um pontapé para eu não ter medo de escrever o que eu quero."
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