Um encalhe de 54 baleias-piloto na Baía de Tolsta, Escócia, em julho de 2023, pode ter sido causado por um gesto coletivo de proteção, onde o grupo seguiu uma fêmea em dificuldades durante o parto, resultando na morte da maioria dos animais.
A investigação do governo escocês revelou que a forte ligação social entre as baleias, combinada com fatores ambientais adversos, como ventos e correntes, contribuiu para que o grupo ficasse preso em águas rasas.
Os pesquisadores destacam que encalhes em massa são complexos e resultam da interação entre fisiologia, comportamento social e condições ambientais, sugerindo que a proteção coletiva pode, em certas situações, levar a consequências trágicas.
Um dos maiores encalhes de baleias-piloto registrados recentemente na Europa pode ter sido causado por um gesto coletivo de proteção. Uma nova investigação divulgada pelo governo escocês sugere que o forte vínculo social entre os animais levou um grupo inteiro para águas rasas enquanto tentavam ajudar uma fêmea que enfrentava um parto difícil.
LEIA TAMBÉM
O episódio ocorreu em 16 de julho de 2023, na Baía de Tolsta, na Ilha de Lewis, na Escócia. Na ocasião, 54 baleias-piloto, uma espécie de golfinho altamente social, ficaram presas perto da costa. Apenas uma conseguiu retornar ao mar aberto; as demais morreram afogadas ou precisaram ser submetidas à eutanásia para evitar sofrimento.
Quase três anos depois, uma investigação conduzida pela Direção Marinha do governo escocês analisou o caso e outro encalhe ocorrido em 2024 nas Ilhas Orkney. Os resultados foram divulgados em 5 de março de 2026 e apontam para uma combinação de fatores biológicos, sociais e ambientais.
Um parto difícil pode ter desencadeado o encalhe
Segundo o relatório, o grupo estava relativamente saudável antes do incidente. No entanto, os pesquisadores identificaram que uma fêmea adulta estava enfrentando um parto complicado, situação que normalmente ocorre quando o filhote é muito grande ou está mal posicionado.
Nas baleias-piloto, o comportamento social é extremamente forte. Os animais vivem em grupos estáveis e costumam acompanhar indivíduos feridos ou em dificuldade. A hipótese dos cientistas é que o sofrimento da fêmea tenha provocado uma resposta coletiva. Ao segui-la enquanto ela nadava em direção à costa, o restante do grupo acabou entrando em águas rasas, onde as condições do ambiente tornaram impossível retornar ao mar profundo.
O papel do ambiente marinho
Depois que as baleias chegaram à região costeira, fatores ambientais agravaram a situação. Ventos, correntes e o relevo submarino da área contribuíram para prender os animais próximos da praia.
O cientista Andrew Brownlow, do Scottish Marine Animal Stranding Scheme, explicou que encalhes em massa raramente têm apenas uma causa, em entrevista ao The Guardian. "É um lembrete de que encalhes em massa raramente são resultado de uma única causa. Em vez disso, surgem da interseção da fisiologia individual, do comportamento social do grupo e das condições ambientais marinhas externas."
Segundo ele, em mar aberto, o comportamento de se aproximar de um indivíduo em perigo normalmente oferece proteção contra predadores. No entanto, perto da costa esse instinto pode ter consequências inesperadas.
"Neste caso, esse comportamento parece ter atraído o grupo para a batimetria rasa e arenosa de Tràgh Mhòr, onde o fundo do mar com declive suave e os sedimentos finos em suspensão podem ter criado uma 'armadilha acústica', atenuando os sinais de ecolocalização e diminuindo a capacidade do grupo de navegar em segurança de volta para águas mais profundas."
A hipótese reforça algo que pesquisadores já observam há décadas, de que as baleias-piloto possuem laços sociais extremamente fortes, comparáveis aos de algumas espécies de primatas. Esses vínculos ajudam na proteção do grupo e no cuidado com filhotes e indivíduos vulneráveis. Porém, em situações extremas, a mesma característica pode levar a decisões coletivas que acabam colocando todos em risco.
+Lidas