Mais de um terço dos meninos de 11 a 17 anos está se envolvendo em jogos de apostas, aponta estudo

Levantamento mostra como games, anúncios e grupos de amigos impulsionam o contato precoce com apostas; e acende alerta para famílias e autoridades

Publicado em 26/02/2026, às 15h21
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Por Revista Crescer

Um estudo da Common Sense Media revela que 36% dos adolescentes americanos entre 11 e 17 anos jogaram em cassinos no último ano, com quase 25% participando de jogos que simulam apostas, refletindo uma crescente normalização do jogo entre os jovens.

Os dados indicam que 60% dos adolescentes já viram anúncios de jogos de azar nas redes sociais, e 80% dos meninos com amigos que jogam também se envolvem em apostas, sugerindo que a influência social e a exposição constante são fatores significativos nesse comportamento.

Especialistas recomendam que os pais dialoguem sobre os riscos do jogo e monitorem os gastos dos filhos, além de defenderem mudanças estruturais, como a verificação de idade em plataformas sociais e restrições à publicidade de apostas, para proteger os jovens de práticas potencialmente prejudiciais.

Resumo gerado por IA

Com o avanço da tecnologia e o fácil acesso para qualquer jovem, jogar deixou de ser uma prática restrita aos adultos e passou a integrar o cotidiano digital de muitos adolescentes. Um estudo recente conduzido pela Common Sense Media ouviu mais de 1.000 meninos de 11 a 17 anos nos Estados Unidos e revelou que até 36% deles jogaram em cassinos no último ano. Quase um em cada quatro participa de atividades baseadas em jogos que simulam apostas.

“Jogar é algo cada vez mais presente nos espaços digitais em que os meninos já passam tempo”, afirma Michael Robb, PhD, chefe de pesquisa da organização. Segundo ele, a exposição inicial muitas vezes não acontece por meio das apostas tradicionais que os pais imaginam, mas sim por sistemas que se parecem com jogos de azar e que nem sempre são facilmente reconhecidos como tal.

Esses mecanismos incluem recompensas aleatórias e pagamentos com dinheiro real dentro de jogos online. “Para muitos pais, pode parecer inofensivo que seus filhos gastem dinheiro aqui e ali em caixas de itens em um jogo online”, diz Robb.

“Mas eles podem gastar US$ 5 tentando conseguir um item muito bom no jogo e, quando não conseguem, tentam novamente. E isso não é muito diferente de puxar a alavanca da máquina caça-níqueis repetidamente", revela o pesquisador.

Além dos ambientes virtuais, quase um em cada oito meninos aposta em esportes, enquanto cerca de 12,5% participam de modalidades tradicionais, como pôquer e outros jogos de cartas, chegando a gastar US$ 54 (aproximadamente R$ 277, em conversão atual) ou mais por ano. Em alguns casos, segundo Robb, os adolescentes utilizam cartões de crédito dos pais sem permissão.

Exposição constante e influência dos amigos

A pesquisa também mostra que 60% dos adolescentes relatam ter visto anúncios de jogos de azar nas redes sociais. Muitas dessas publicidades aparecem automaticamente nos feeds, sem que o jovem esteja buscando esse tipo de conteúdo.

“Eles também são expostos a jogos de azar assistindo à TV ao vivo ou a transmissões online de eventos esportivos”, explica Robb. Entre os adolescentes que jogam, 45% afirmam ver conteúdos relacionados às apostas online, principalmente porque o material é exibido para eles de forma algorítmica.

Outro fator determinante são os grupos de amigos. O estudo indica que 80% dos meninos que têm amigos que jogam também apostam de alguma forma. “Se você tem amigos que jogam, isso aumenta muito a probabilidade de você também jogar”, afirma Robb.

Riscos e caminhos possíveis

De acordo com Robb, nem todos os casos evoluem para um problema, mas o contato precoce pode estabelecer padrões difíceis de romper. O cérebro adolescente ainda está em desenvolvimento, especialmente nas áreas relacionadas à impulsividade e à tomada de decisões, o que favorece a formação rápida de hábitos.

O comportamento pode interferir no desempenho escolar e nos relacionamentos, além de aumentar o risco de ansiedade, depressão e outras formas de dependência, como o uso de substâncias. Entre os fatores que tornam o jogo atraente estão a tentativa de escapar do estresse, a ilusão de controle e a emoção provocada pela aleatoriedade das recompensas — dinâmica semelhante à das máquinas caça-níqueis.

Diante desse cenário, especialistas defendem diálogo e monitoramento. A orientação é conversar com os filhos sobre consequências e estabelecer expectativas claras sobre gastos dentro dos jogos, além de revisar compras feitas com cartão de crédito.

“Isso não é para envergonhar a criança, mas apenas para conscientizá-la de quanto dinheiro ela está gastando. As crianças geralmente não associam esses pequenos gastos repetidos a custos do mundo real”, explica Robb.

Ele também recomenda que os pais observem o tipo de conteúdo consumido pelos filhos e priorizem conversas contínuas, focando mais na frequência do comportamento do que em episódios isolados.

Jim Steyer, fundador da Common Sense Media, defende ainda mudanças estruturais. “É preciso haver verificação de idade em todas as plataformas de mídia social”, afirmou. “Em segundo lugar, é necessário haver restrições claras à publicidade.”

Para ele, famílias que assistem a eventos esportivos não deveriam ser bombardeadas com comerciais de aplicativos de apostas. “Existem soluções claras aqui, mas a indústria precisa assumir a responsabilidade, e os legisladores em todo o país precisam implementar leis simples que punam as empresas que se aproveitam desses meninos vulneráveis”, concluiu.

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