"Não morri porque ele me salvou": mulher que sobreviveu a incêndio em kitnet fala pra primeira vez após morte de namorado

Publicado em 11/04/2026, às 11h43
Ana Beatriz está internada no Hospital Geral do Estado - Reprodução / Tribuna Hoje
Ana Beatriz está internada no Hospital Geral do Estado - Reprodução / Tribuna Hoje

Por TNH1

Um incêndio em uma kitnet no bairro do Farol resultou na morte de Luiz Gustavo Nascimento Lins, de 29 anos, enquanto sua namorada, Ana Beatriz dos Santos, de 28 anos, sobreviveu e está internada com queimaduras graves. Ana afirmou que o incêndio foi causado pelo armazenamento de gasolina no apartamento e que seu namorado a salvou antes de sucumbir aos ferimentos.

Ana Beatriz, em um relato emocional, descreveu os momentos caóticos do incêndio e fez um apelo para que as pessoas não armazenem gasolina em casa, destacando o perigo que isso representa. A advogada de Ana refutou as alegações de que o incêndio foi criminoso, classificando-o como um acidente doméstico e ressaltando que a situação está sendo documentada para possíveis ações judiciais.

A Polícia Civil abriu um inquérito para investigar as circunstâncias do incêndio, com testemunhas alegando que o fogo pode ter sido criminoso. A perícia está em andamento para determinar a causa exata do incêndio, enquanto Ana Beatriz continua em tratamento no hospital com estado de saúde estável.

Resumo gerado por IA

A mulher que sobreviveu ao incêndio em uma kitnet na avenida Moreira e Silva, no bairro do Farol, na madrugada do dia 1º de abril, falou pela primeira vez sobre o ocorrido, que terminou com a morte de Luiz Gustavo Nascimento Lins, de 29 anos. Ana Beatriz dos Santos, de 28 anos, que está internada no Hospital Geral do Estado (HGE) desde aquele dia, afirmou que havia armazenamento de gasolina no apartamento e que o namorado a salvou.

O vídeo em que ela se defende das acusações de que o incêndio teria sido criminoso foi publicado pelo Tribuna Hoje. Em mais de seis minutos, a mulher, que se emocionou durante toda a fala, deu a versão dela do que ocorreu naquela madrugada.

Veja abaixo a transcrição do relato de Ana Beatriz:

"Meu relacionamento com o Gustavo era muito bom, de muito companheirismo, amizade. Sendo que existia muito ciúme de minha parte e da parte dele. Mas a gente se amava do nosso jeito, da nossa forma. Independente de qualquer coisa, a gente se amava muito. Eu tinha um amigo do meu lado, e ele tinha uma amiga do lado dele, que era eu. A gente sempre estava perto um do outro.

É muito difícil para mim. Está sendo muito difícil o que está acontecendo. Parece que a ficha não cai, e cai, e não cai. No dia do ocorrido, eu fiquei completamente em choque. Tenho 28 anos e nunca tinha passado por isso na minha vida. Eram 04h da manhã, por aí, no momento que terminamos de conversar e eu falei: 'Amor, vou deitar, vamos deitar'. Ele disse: 'Amor, vou terminar aqui e vou deitar também'. Eu disse: tá certo. Como era uma kitnet, só tinha a sala, a cozinha era junto da sala, tinha o banheiro e o quarto.

Quando estou deitada assistindo, escuto o primeiro estalo, o primeiro barulho. Quando escutei o segundo barulho, foi aí que olhei. Ele estava com um negócio de água na mão e jogou. Quando jogou, só vi fogo. Muito fogo, muito fogo. Tudo que tinha lá, era a mesa, aqueles panos de mesa, no lugar das portas eram lençóis, também tinha lençol no sofá para cobrir.

Quando fui correr para ajudar, porque foi realmente muito rápido. Quando fui correr para ajudar, a minha calça começou a pegar fogo assim que botei o pé para fora do quarto. Voltei correndo para o quarto, tirei a calça e fiquei em cima da cama. Nesse momento que fiquei em cima da cama, eu já não tive mais reação nenhuma. Vi minha pele toda derreter. Eu não tive mais reação.

Ele veio correndo na minha direção e falou: 'Amor, amor, a gente vai morrer'. Eu disse: 'Amor, a gente tem que abrir essa porta'. Ele correu e conseguiu abrir. Lá de baixo ele gritava: 'Amor, amor'. E eu não conseguia me mover. Não conseguia de jeito nenhum, fiquei paralisada com toda aquela situação. Por conta acho que do choque em si e do fogo.

Ele veio até mim e conseguiu me tirar do quarto. Quando ele me tirou do quarto, tinha o primeiro andar que tinha uma caixa d'água. Eu disse: 'Amor, vamos subir e esperar os bombeiros lá em cima'. Ele subiu comigo, a gente entrou na caixa d'água.

Eu pedi para a vizinha uma roupa emprestada, porque eu estava sem nada na parte de baixo, só a parte de cima. Ele disse que me amava muito. Eu disse a ele que também o amava. Com isso, ele pegou na minha mão, eu peguei na mão dele. A ambulância chegou.

Eu sou uma vítima dessa situação também. Não é porque eu não morri que deixei de ser vítima. Eu não morri porque ele me salvou, ele me ajudou a sair, ele me ajudou. E eu digo de coração, porque eu tinha paralisado, eu não ia conseguir sair de lá. Ele me ajudou.

Eu tenho que agradecer a Deus e muito a ele por ter me tirado do quarto, porque eu ia morrer ali, eu já estava perdendo o ar. Eu não sabia no momento do que se tratava aquele fogo. Os vizinhos ficavam perguntando se foi o botijão ou a fiação, eu não sabia do que tinha se tratado. Eu não cheguei para conversar com ele e falar.

Eu estava muito em choque. Eu cheguei no hospital em choque, eu fui com os bombeiros em choque. Eu só sabia dizer que amava ele e que iria ficar tudo bem. Depois eu lembrei do combustível que estava embaixo, quando falaram que o botijão estava intacto. Ocorreram dois disparos: pá, pá.

E eu não tinha como saber do que se tratava, nunca escutei na minha vida disparo de alguma coisa explodindo. Era uma kitnet. Peço de coração a vocês: nunca armazenem gasolina em casa. Nunca armazenem gasolina em casa.

A gente iria na praia no outro dia de manhã. Às 11h, ele iria me levar em casa para ficar com minha filha e minha família. Tudo foi desmoronado. Não armazenem gasolina em casa, é muito perigoso. Agradeço a todos que estão me ajudando nessa recuperação e muito a ele também por ter me salvado".

O Hospital Geral do Estado informou, neste sábado, 11, que a paciente A. B. S. F. A., de 28 anos, continua internada no Centro de Tratamento de Queimados (CTQ) e o seu quadro de saúde é estável. Ela foi admitida no último dia 1° de abril após sofrer queimaduras de 2° grau no braço direito, pé esquerdo e ambas as pernas, representando 21,5% da superfície corpórea.


O que diz a advogada de Ana Beatriz

Ainda em publicação do Tribuna Hoje, a advogada Isadora Gomes, que representa Ana Beatriz, refutou a tese de incêndio criminoso, afirmou que o caso se trata de um acidente doméstico e que todas as publicações que estão sendo disseminadas nas redes sociais acusando Ana Beatriz de provocar o incêndio estão sendo documentadas para responsabilização judicial.

Veja abaixo o pronunciamento da advogada:

"Em primeiro lugar, a gente lamenta muito essa tragédia. A Bia e a família lamentam muito. Foi uma tragédia, isso não podemos deixar de falar. Foi um incêndio, uma tragédia. Entendemos muito a dor da família, a dor da perda de alguém. Quem já perdeu alguém muito próximo sabe como a dor do luto mexe com a gente, faz com que sentimentos ruins tomem conta da gente.

Só que é importante frizar que nenhuma dor, nenhum luto, pode abrir precedente para fazer o que estão fazendo com ela. Estão usando a imagem dela e da filha, uma criança de menos de dois anos. Isso, além de cruel, é criminoso, estar expondo a criança. Estão a acusando de um homicídio que nunca aconteceu, pois foi acidental, isso é uma calúnia.

É bom frizar isso, pois tudo está sendo documentado. Tudo que as redes sociais, as pessoas e a mídia em geral estão falando sobre ela estão sendo documentados. Todas as medidas judiciais estão sendo tomadas para acionar isso. A gente quer que fique bastante claro que a nossa única preocupação é com a integridade física e psicológica dela. E também que as pessoas entendam que justiça se faz com provas no tribunal e não com disseminação de ódio na internet.

Ele (Gustavo) armazenava (gasolina), isso era de conhecimento não só da Beatriz como dos vizinhos também e das pessoas que conviviam, todos sabiam que ele armazenava essa gasolina. A gente não sabe como essa gasolina chegou lá, a gente só sabe que ele usava para abastecer a moto.

A gente não pode afirmar como o fogo começou, porque não temos ainda o resultado da perícia e também o inquérito segue sob segredo de justiça. Mas fato é que tinha elemento altamente inflamável lá, inclusive, é até comovente de ver no vídeo da Beatriz que, apesar de tudo que ela está passando, ela faz esse apelo que as pessoas não armazenem gasolina em casa, porque é realmente muito perigoso. E qualquer faísca pode provocar um grande incêndio".


Caso está em investigação

A Polícia Civil, por meio da Delegacia de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), abriu inquérito para investigar o caso. O delegado Daniel Scaramello é quem está à frente da apuração. Ele confirmou que testemunhas procuraram a delegacia para denunciar o incêndio como criminoso.

É a investigação, com o auxílio da perícia da Polícia Científica e do Corpo de Bombeiros, que vai determinar o que de fato provocou o incêndio.

Polícia Civil e Polícia Científica estiveram no local para aprofundar a investigação e realizar a perícia no apartamento (Foto: TNH1)


Quem era a vítima

Luiz Gustavo Nascimento Lins tinha 29 anos e era um dos fundadores da torcida organizada Movimento Resistência Azul (MRA), do Centro Sportivo Alagoano (CSA). Ele sofreu queimaduras em cerca de 80% do corpo, chegou a ser socorrido com vida, inclusive, estando consciente no momento em que foi atendido, mas morreu no hospital devido à gravidade dos ferimentos.

Luiz Gustavo (Foto: Reprodução / Arquivo pessoal)

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