Estudo aponta que a atividade aquática supera a corrida no fortalecimento do coração
A natação pode ter um impacto ainda mais significativo na saúde cardiovascular do que a corrida. É o que sugere o estudo brasileiro “Swimming is superior to running in inducing physiological cardiac hypertrophy and enhancing myocardial performance” publicado na revista científica Scientific Reports, que identificou que o exercício na água promove adaptações mais completas no coração. Os pesquisadores observaram que a prática induz um crescimento saudável do músculo cardíaco, aumentando sua capacidade de contração e tornando-o mais eficiente.
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De acordo com a pesquisa, embora tanto a natação quanto a corrida melhorem a capacidade respiratória, a atividade aquática se destaca por combinar adaptações funcionais e moleculares. Um dos principais mecanismos envolvidos é a modulação dos microRNAs, moléculas responsáveis por regular a expressão dos RNAs mensageiros, fundamentais para a produção de proteínas essenciais ao organismo. Além disso, foi identificado um aumento do ventrículo esquerdo, uma adaptação típica de esportes de resistência, associada a um coração mais forte e eficiente no bombeamento do sangue.
Para a Dra. Rosangeles Konrad, médica e professora da pós-graduação em Cardiologia da Afya Brasília, estudos experimentais como esse ajudam a compreender os mecanismos por trás dos benefícios cardiovasculares. “Eles apontam melhora da função miocárdica, redução de processos inflamatórios e maior eficiência metabólica, o que reforça a plausibilidade biológica da natação, embora ainda não sejam evidência direta em humanos”, explica.
A Dra. Rosangeles Konrad ressalta que o diferencial da natação está na forma como o organismo responde ao exercício em meio aquático. “A prática exige uma integração contínua entre respiração, circulação e musculatura. A água aumenta o retorno venoso e modifica a dinâmica cardiovascular, fazendo o coração trabalhar de maneira diferente em comparação aos exercícios em terra. Isso favorece adaptações mais consistentes ao longo do tempo”, afirma.
Segundo a médica, o baixo impacto também permite sustentar o esforço por períodos mais prolongados, potencializando os ganhos cardiovasculares. Na prática clínica, a natação é frequentemente recomendada como estratégia de prevenção e reabilitação, especialmente para idosos e pessoas com limitações articulares.
“Mas é importante destacar que, em pacientes com doenças cardiovasculares, a atividade deve ser orientada, com avaliação prévia e definição adequada de intensidade. Sem esse acompanhamento, deixa de ser uma intervenção estruturada”, pondera a especialista.
A Dra. Rosangeles Konrad reforça ainda que o principal fator para os benefícios da natação é a regularidade. “O coração responde à repetição de estímulos ao longo do tempo. A natação facilita essa constância por ser uma atividade confortável e sustentável, mas o ganho está na continuidade, não apenas no tipo de exercício”, completa.

Embora os impactos cardiovasculares chamem atenção, os benefícios da natação vão muito além. Por envolver praticamente todos os grupos musculares e ocorrer em um ambiente de baixo impacto, a modalidade é considerada uma das mais completas para o corpo. Veja outros benefícios:
Segundo Hendrio Ritchele Silva, professor de Fisioterapia da Afya Centro Universitário Itaperuna, a água oferece uma combinação única de resistência e proteção. “A natação tem a capacidade de fortalecer a musculatura global, trabalhando membros superiores, inferiores, o tronco e até a musculatura respiratória. O grande diferencial está no empuxo, que reduz o impacto e a sobrecarga nas articulações, sendo excelente para pessoas com dores crônicas ou sobrepeso”, afirma.
O especialista destaca que, além do fortalecimento, há efeitos importantes no funcionamento do organismo como um todo. “A natação atua diretamente na regulação do metabolismo e do sistema neuroendócrino. Ela estimula a liberação de neurotransmissores como a endorfina, essencial para o bem-estar físico e mental, além de ajudar a regular o sono e o humor”, explica.
Outro ponto relevante está na melhora da respiração. “A pressão da água favorece o trabalho da musculatura inspiratória, promovendo um ganho mais profundo da capacidade respiratória quando comparado a outras atividades”, acrescenta o especialista.
Na prática, esses efeitos se traduzem em ganhos expressivos para a saúde. “Além do aumento de força e resistência, há melhora do condicionamento cardiovascular, com impacto direto no débito cardíaco e no VO₂ máximo”, pontua.
Hendrio Ritchele Silva também ressalta o papel da natação como aliada em processos de recuperação, sendo uma excelente ferramenta coadjuvante na reabilitação. De acordo com o professor, após as fases iniciais de uma lesão, quando o paciente precisa recuperar coordenação, força e condicionamento, a natação funciona como uma ponte importante, especialmente em reabilitações cardiorrespiratórias, por permitir ganho aeróbico com baixo estresse articular.
Apesar dos benefícios, ele alerta que, “como qualquer modalidade, a natação deve ser orientada por um profissional, já que a execução inadequada da técnica pode gerar riscos”, conclui.
Por Beatriz Felicio
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