Nuvem de prejuízos: conflito no Irã já provoca primeiros impactos nos preços globais

Publicado em 06/03/2026, às 10h43
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Por Veja

Inferior militarmente, o Irã tem uma poderosa arma nessa guerra: a capacidade de impor um alto custo para a economia global. O regime dos aiatolás faz isso explorando a dependência de petróleo e gás, fontes que suprem mais da metade da energia consumida no mundo. As consequências vão além da oferta de combustíveis fósseis, fazendo-se sentir também na logística do comércio em geral. Nos dias que se seguiram aos bombardeios que sofreu dos Estados Unidos e de Israel, o Irã atacou instalações petrolíferas dos países árabes no seu entorno, levando à interrupção parcial na produção do Iraque, da Arábia Saudita e do Catar.

Além disso, as forças do regime dos aiatolás atingiram quatro navios-tanque que faziam a rota do Golfo Pérsico e anunciaram o fechamento do Estreito de Ormuz, uma artéria por onde trafegam as exportações de vários grandes produtores e responsável pela passagem de 20% das exportações de petróleo e gás do mundo.

Na prática, o Irã não tem como fechar Ormuz totalmente, mas a travessia por ali se tornou tão perigosa que empresas de seguros anularam contratos ou começaram a cobrar prêmios bem mais altos. O frete marítimo quintuplicou, afetando principalmente a China, o maior cliente da região. As alternativas à rota pelo Golfo Pérsico existem, mas não são suficientes para escoar toda a produção. É o caso do oleoduto Leste-Oeste, na Arábia Saudita, e do gasoduto que conecta o Catar a Omã, para desviar de Ormuz. Mesmo o percurso pelo Mar Vermelho é considerado arriscado, devido à vulnerabilidade a ataques cometidos pelas milícias hutis, do Iêmen, aliadas do Irã. Isso tem levado diversas companhias marítimas a evitar a travessia pelo Canal de Suez, que desemboca no Mar Vermelho, preferindo desviar seus navios para o sul da África, pelo Cabo da Boa Esperança, um caminho muito mais longo e mais caro.

Donald Trump prometeu tomar providências para restabelecer o trânsito de navios pelo Estreito de Ormuz, dando garantias financeiras e escolta militar aos navios. Ainda não está claro se isso vai ser suficiente para dirimir as preocupações de investidores e importadores. A perspectiva de queda no fornecimento de petróleo fez o preço do barril Brent, principal referência da commodity, alcançar 85 dólares na última terça-feira, 3, o valor mais alto desde julho de 2024 — mas ainda distante dos 133 dólares registrados em março de 2022, após a invasão da Ucrânia pela Rússia. Eis o ponto crucial para o impacto da guerra no Irã na economia, incluindo a brasileira: por quanto tempo o conflito vai se estender?

Segundo cálculo da Warren, uma corretora de investimentos, se o barril de petróleo se estabilizar em 90 dólares, isso adicionaria 0,5 ponto percentual à inflação anual brasileira. A valorização do dólar, outra consequência do conflito, de 5,20 reais para algo próximo de 6 reais, acrescentaria mais 0,5 ponto percentual na inflação. “Nesse cenário, com petróleo mais caro e o real desvalorizado, pode-se ter um acréscimo de 1 ponto percentual à inflação, reduzindo bastante as expectativas de corte de juros por parte do Banco Central”, diz Luis Felipe Vidal, chefe de estratégia macroeconômica da Warren. Esse é o dilema que autoridades monetárias ao redor do mundo terão de enfrentar, inclusive nos Estados Unidos. O problema é que juro alto é um instrumento útil para combater a inflação por meio da contenção da demanda, mas que não funciona tão bem quando a elevação nos preços é causada por uma queda na oferta (no caso, de petróleo e gás).

O setor no Brasil que mais deve sofrer com os efeitos de uma guerra prolongada é o agro. Os custos e os riscos de transporte tendem a prejudicar as exportações brasileiras para o Oriente Médio. “Isso pode reduzir as vendas de carnes, milho e soja, ao mesmo tempo que encarece fertilizantes importados do Irã, como ureia e amônia”, diz o economista Maurício Nakahodo, especialista em commodities. Além disso, o preço do diesel tende a aumentar, encarecendo o transporte dentro do país. O combustível já estava com valor defasado em comparação com os preços internacionais. A disparada do petróleo por consequência da guerra cria mais pressão para um eventual reajuste. “Historicamente, a Petrobras tem demorado para repassar altas nos preços, por isso acredito que a empresa vai esperar para ver se os preços estabilizam”, diz Pedro Rodrigues, sócio-diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura.

Como toda petrolífera, a Petrobras tende a faturar com a alta no petróleo, em parte porque o Brasil se tornou um exportador importante. Dificilmente, porém, a empresa teria condições de ampliar sua produção no curto prazo para exportar com o objetivo de atender à demanda estrangulada pela dificuldade de escoamento da produção do Oriente Médio. Seria necessário tempo e investimento. Em qualquer cenário, uma guerra prolongada no Irã tende a alastrar suas chamas para o comércio e a economia globais.

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