O mês de nascimento influencia a inteligência? Veja o que diz a ciência

Publicado em 20/03/2026, às 18h49
Foto: Freepik
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Por Revista Crescer

Um estudo do National Bureau of Economic Research revela que o mês de nascimento pode influenciar o desempenho escolar e o desenvolvimento cognitivo das crianças, com aquelas nascidas em setembro apresentando vantagens em relação aos colegas mais novos.

A pesquisa destaca que a idade relativa na escola, onde crianças de idades diferentes são avaliadas juntas, pode impactar a percepção de maturidade e desempenho, especialmente nos primeiros anos escolares.

Embora a diferença de idade possa oferecer vantagens iniciais, os pesquisadores enfatizam que fatores como estímulo familiar e qualidade da educação têm um papel mais significativo no desenvolvimento intelectual, tornando o mês de nascimento apenas um dos muitos fatores a considerar.

Resumo gerado por IA

Antes mesmo do primeiro dia de aula, algumas crianças já podem sair na frente. O motivo? A data de nascimento. Pelo menos é o que indica um estudo divulgado pelo National Bureau of Economic Research (NBER).


Os pesquisadores descobriram que o mês em que a criança nasce pode estar associado ao desempenho escolar e ao seu desenvolvimento cognitivo.

Para chegar a essa conclusão, foram analisados dados educacionais de longo prazo, que revelaram diferenças médias de rendimento ligadas à idade de ingresso na escola — com vantagem inicial para os alunos mais velhos dentro da mesma turma.


Segundo os resultados, crianças nascidas em setembro tendem a apresentar melhor desempenho escolar em comparação aos colegas mais novos da mesma turma. Alunos que fazem aniversário em outubro e novembro também estão entre os que apresentaram as médias mais altas nos indicadores educacionais.

Impacto da idade relativa

A principal explicação está ligada a chamada idade relativa na escola. "O efeito da idade relativa acontece quando crianças de idades cronológicas diferentes são colocadas na mesma turma e avaliadas pelo mesmo padrão, como se fossem iguais ou estivessem no mesmo estágio de desenvolvimento", explica Mariana Ruske, pedagoga fundadora da Senses Montessori School, de São Paulo.


Em diversos países do Hemisfério Norte, o ano letivo começa em setembro, o que faz com que os nascidos nesse mês sejam, em geral, os mais velhos da turma.


No Brasil, crianças nascidas no segundo semestre podem acabar sendo tanto as mais velhas quanto as mais novas da turma. "O corte é dia 31 de março. Uma criança nascida em abril e outra nascida em março do ano seguinte podem estar na mesma sala, por exemplo, com quase um ano de diferença. Para um adulto, um ano é pouco. Para uma criança de cinco anos, representa até 20% de toda a sua vida", diz a pedagoga.


Essa diferença pode pesar bastante, especialmente nos primeiros anos escolares. As mais velhas tendem a ter maior maturidade cognitiva, emocional e motora — o que pode facilitar o processo de aprendizagem, como o desenvolvimento da leitura, da escrita e da matemática.

"A criança mais velha dentro da turma tende, em média, a apresentar desempenho inicial melhor e mais segurança. Isso pode influenciar a forma como professores e familiares percebem essa criança. Expectativas moldam oportunidades. Por outro lado, a criança mais nova pode ser vista como menos madura quando, na verdade, está apenas em uma fase diferente do desenvolvimento", afirma Fernando Gomes, neurocirurgião, neurocientista e professor livre-docente da Universidade de São Paulo (USP).


O estudo também apontou que crianças nascidas pouco antes da data de corte escolar costumam ser as mais novas da turma. Essa diferença de idade e maturidade pode trazer uma desvantagem inicial. "Com o passar do tempo, essa diferença tende a diminuir. Mas, nos primeiros anos escolares, ela pode sim impactar desempenho, autoestima e até decisões futuras", destaca Fernando Gomes.

Nem sempre é um problema

Por outro lado, segundo Mariana Ruske, existem algumas abordagens pedagógicas que utilizam essas diferenças ao seu favor. "A pedagogia Montessori, por exemplo, trabalha com salas mistas, onde a diferença de idade, de idade relativa e de momento de desenvolvimento não é um problema, mas um recurso extremamente valioso", diz.


"O efeito da idade relativa e as individualidades de cada criança são acolhidos e potencializados para o bem do grupo todo. A criança mais experiente aprende ensinando. A mais nova aprende observando quem está um passo à frente. A individualidade enriquece ao invés de atrapalhar. É o que eu vejo como o caminho mais saudável para a educação infantil", adiciona.

Fatores sazonais

Além disso, o estudo também leva em conta fatores ambientais durante a gestação e os primeiros meses de vida. Aspectos como a exposição à luz solar, os níveis de vitamina D e as variações sazonais na alimentação da mãe podem influenciar o desenvolvimento do cérebro.

"A gestação é um período extremamente delicado do ponto de vista neurológico. O cérebro do feto está em intensa multiplicação celular, organização de circuitos e formação de conexões. A exposição ao sol, por exemplo, interfere diretamente nos níveis de vitamina D", afirma Fernando Gomes.


Segundo ele, a vitamina D participa de mecanismos importantes no sistema nervoso central, incluindo diferenciação neuronal e regulação imunológica. "Estudos observacionais associam deficiência materna de vitamina D a maior risco de dificuldades no neurodesenvolvimento, embora esses efeitos não sejam determinísticos", diz.


Além disso, nos primeiros meses de vida, a exposição adequada à luz natural ajuda na organização do ritmo circadiano, que influencia sono, consolidação de memória e regulação emocional. "Ainda assim, gosto de enfatizar que esses fatores costumam ter efeito discreto quando comparados a elementos como nutrição, estímulo cognitivo, vínculo afetivo e qualidade do ambiente familiar", destaca.


Outro fator é a sazonalidade das infecções. "Certas infecções virais mais comuns no inverno podem gerar respostas inflamatórias maternas que, dependendo da intensidade e do momento da gestação, podem interferir no desenvolvimento cerebral. Temperaturas extremas, estresse fisiológico e até mudanças nos padrões de sono também podem desempenhar algum papel", diz.

Não é definitivo

Os pesquisadores destacam que o mês de nascimento, por si só, não determina o QI nem o sucesso escolar. Fatores como o estímulo familiar, a qualidade da educação, o contexto socioeconômico e as oportunidades de aprendizado têm um peso muito maior no desenvolvimento da inteligência. Ou seja, o estudo aponta apenas uma correlação estatística - não significa que uma criança necessariamente será mais inteligente por ter nascido em determinado mês.


Mesmo que os alunos mais velhos da turma possam apresentar melhor desempenho nos primeiros anos escolares, essa diferença tende a diminuir com o tempo. Ela não define o potencial intelectual da criança - é, na maioria dos casos, apenas uma vantagem passageira.

"O que observamos são pequenas associações estatísticas, geralmente explicadas por fatores como idade relativa na escola ou condições ambientais específicas durante a gestação. Inteligência é resultado de uma interação complexa entre genética e ambiente ao longo de toda a vida", diz o neurocientista Fernando Gomes.


Segundo ele, estímulo intelectual, leitura, qualidade das relações familiares, nutrição adequada, saúde física e emocional e acesso à educação têm impacto muito maior. "O mês de nascimento pode influenciar circunstâncias. Mas quem molda o desenvolvimento intelectual de forma profunda e duradoura é o conjunto de experiências, oportunidades e cuidados ao longo da infância e da vida", afirma.


Mariana concorda que os pais não devem se apegar ao mês de nascimento do filho. "O que pode fazer diferença não é o mês em si, mas o percurso da gestação. Se essa mãe teve boa exposição à luz solar e se alimentou bem. Se ficou doente com viroses e infecções durante a gravidez. Se estava emocionalmente tranquila ou sobrecarregada. Se tinha rede de apoio ou estava sozinha. Esses fatores têm impacto real no desenvolvimento do bebê", finaliza.

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