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O que faz Mato Grosso do Sul e Rio Grande do Sul liderarem o ranking da vacinação no país?

Metrópoles | 10/07/21 - 13h26
Agência Brasil

Para a retomada do cotidiano como antes da pandemia de Covid-19, doença causada pelo novo coronavírus, ou pelo menos a de um “outro normal”, não há alternativa: é preciso vacinar. No Brasil, a campanha completa seis meses no próximo dia 17.

Dois estados se destacam pela quantidade de pessoas que completaram o esquema vacinal, ou seja, a aplicação das duas doses ou a dose única da Janssen. Mato Grosso do Sul e Rio Grande do Sul são as unidades da Federação que mais vacinaram suas populações.

Segundo dados das secretarias de Saúde, 25% dos sul-mato-grossenses estão totalmente imunizados contra a Covid-19. Entre os gaúchos, esse índice é de 18,4%.

Há discrepâncias expressivas entre as unidades federativas. No outro extremo da velocidade na imunização, Amapá (8,8%) e Rondônia (9,9%) são os que menos vacinaram os habitantes. Vale ressaltar que o Ministério da Saúde distribui as doses aos estados de forma proporcional.

Mas o que fez com que essas campanhas se destacassem no cenário nacional? Estratégias criativas, como drive-thru de bicicleta e até de carroça, e integração entre secretarias e forças policiais para a distribuição das doses fizeram a diferença.

Até a última sexta-feira (9/7), data em que a reportagem contabilizou os dados da vacinação, Mato Grosso do Sul havia aplicado 1,9 milhão de doses. O Rio Grande do Sul registrava 7,2 milhões de imunizantes administrados.

Distribuição das doses

A distribuição das doses da vacina em Mato Grosso do Sul é facilitada por um aspecto geográfico. A capital, Campo Grande, está localizada no centro do estado, o que facilita a entrega para os 79 municípios. Lá, a cada três pessoas vacinadas, uma já recebeu a segunda dose.
Segundo o secretário de Saúde do estado, Geraldo Resende, quando um novo lote chega, ele é repassado para as prefeituras em até 12 horas.

“A posição de Campo Grande nos facilita. Mas, além disso, criamos um mantra: ‘Lugar de vacina não é na geladeira. É no braço’. As vacinas não têm feriado ou fim de semana. Criamos uma união de guerreiros para as vacinas não ficarem paradas”, explica.

Além disso, o governo estadual paga às prefeituras R$ 2,10 por cada dose aplicada, com o objetivo de custear o plantão dos profissionais de saúde na linha de frente. “É uma forma de reconhecer o empenho. É como se fosse uma premiação. Alivia a despesa do município”, salienta.

No Rio Grande do Sul, que tem 497 municípios, a entrega exige mais tempo, que varia de 12 a 36 horas. Os dois estados pactuaram com as forças de segurança estratégias para distribuir as doses.

A chegada da vacina é precedida de uma entrega muito veloz. Se vamos receber vacinas às 23h, elas já estão pactuadas com o conselho [de Saúde] e, no outro dia, já estão distribuídas em todas as 18 regionais. Usamos carro, avião e helicóptero”, conta a diretora do Departamento de Atenção Primária e Políticas de Saúde do Rio Grande do Sul, Ana Costa.

Credibilidade e adesão

Desde o início da campanha, a vacinação foi alvo de ataques, que partiram até mesmo do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), e de uma série de fake news. Com isso, os profissionais da saúde tiveram de desconstruir a narrativa e conquistar a população.

“A forma como agimos deu credibilidade, e a questão lúdica fez com que as pessoas ficassem mais leves. Tudo que traz alegria, a ideia da vacina como proteção, de cuidado, facilitou”, defende Ana Costa.
A campanha gaúcha não para nem mesmo à noite, nos feriados e aos fins de semana. “Fizemos um trabalho motivacional visando não parar. Não é saudável a vacina ficar parada. Isso foi muito discutido. Teve criatividade dos municípios. Fizemos arraial e vanerão [um estilo de dança gaúcha], drive-thu de carro, carroça e bicicleta para atrair as pessoas”, explica.

Na mesma tendência, a campanha sul-mato-grossenses teve de vencer a resistência de comunidades indígenas, setores religiosos e grupos conservadores.

“Enfrentamos dificuldades, sim. Mato Grosso do Sul é um estado conservador. Apesar disso, superamos as questões do negacionismo com campanhas constantes, claras e verdadeiras”, sustenta o secretário Geraldo Resende.

A importância da 2ª dose

Para estar totalmente imunizada, a pessoa precisa receber duas doses da vacina ou a dose única, no caso da Janssen. O coordenador do mestrado profissional em administração do Centro Universitário Iesb e pós-doutor em Ciência do Comportamento pela Universidade de Brasília (UnB), Breno Aidad, defende que a população não deixe de receber a segunda aplicação.

“Sem dúvida alguma, quanto mais gente com a primeira dose, e especialmente com a segunda, menores são as chances de contágio e maior o aumento do controle da doença”, explica.
Mesmo vacinado, ele alerta que os cuidados, como uso de máscara e distanciamento social, devem ser mantidos. “Mesmo com a primeira dose, as pessoas não podem descuidar. A pessoa tem uma pequena imunidade, abusa e dispara o contágio”, frisa.

Ele completa. “Existe muita evidência científica mostrando que a vacina funciona. Quanto mais gente vacinada, a imunidade geral na população sobe, o vírus tem menos oportunidade de encontrar gente passível de contaminação. Mesmo encontrando, pode sim contaminar gente já vacinada, mas a chance é bem menor” conclui.