Paciente que recebeu polilaminina por ordem judicial cita emoção ao mexer o pé e a perna

Publicado em 08/01/2026, às 13h13
Diogo Barros Brollo e sua irmã Marcelle Barros Brollo, antes do acidente que provocou nele uma lesão medular - Arquivo pessoal
Diogo Barros Brollo e sua irmã Marcelle Barros Brollo, antes do acidente que provocou nele uma lesão medular - Arquivo pessoal

Por Jairo Marques / Folhapress

Diogo Barros Brollo, que ficou paraplégico após uma queda, começou a recuperar movimentos nas pernas após receber a polilaminina, uma substância em fase de testes que pode regenerar lesões na medula espinhal, gerando esperança para pacientes com lesões similares.

A polilaminina foi aplicada em seis voluntários e, além de Diogo, outros pacientes, como Luiz Fernando Mozer, também apresentaram melhorias significativas em suas condições, com registros de contrações musculares voluntárias.

Dez liminares judiciais já foram emitidas para a aplicação da polilaminina em pacientes com lesões medulares, com cirurgias programadas em várias cidades brasileiras, enquanto o laboratório Cristália se compromete a cumprir as ordens e discutir a possível inclusão do tratamento no SUS após aprovação da Anvisa.

Resumo gerado por IA

"Acordei de madrugada com o pensamento de que conseguiria mexer meu pé. Minha esposa dormia ao lado da minha maca, aqui no hospital. Pensei, vou mandar um estímulo para baixo, vou mexer meu pé. E não foi um movimentinho, não. Eu mexi o meu pé direito por inteiro. Eu fiz a contração."

O relato é de Diogo Barros Brollo, 35, que sofreu lesão medular total, de acordo com a equipe médica que o atendeu, após uma queda de um prédio durante o trabalho, em Friburgo (RJ). Ele ficou paraplégico, sem movimentos e sensibilidade da cintura para baixo.

Há um mês, por ordem judicial, ele recebeu aplicação da polilaminina, substância ainda em fase de testes clínicos na Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), que pode ser capaz de regenerar lesões na medula espinhal, de acordo com um grupo de pesquisadores da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), liderado pela bióloga Tatiana Coelho de Sampaio.

Duas semanas após a aplicação, ele começou a retomar sensibilidades em partes das pernas e a conseguir mexer o pé, contrair a coxa e também a musculatura do esfincter. A constatação é narrada por ele mesmo e foi documentada pela equipe científica da bióloga Tatiana.

"Não se trata de impulso involuntário. Eu mexo o meu pé quando quero. Consigo segurar minha perna dobrada, o que era impossível até dias atrás. Estou tendo contração muscular voluntária", afirma Diogo.

Durante a pesquisa científica, com autorização da Conep (Comissão Nacional de Ética em Pesquisa), a polilaminina foi injetada em animais e em seis voluntários. Um deles, Bruno Drummond de Freitas, 31, diagnosticado com tetraplegia, voltou a andar.

São raros os casos de pessoas com lesões medulares completas que conseguiram retomar mobilidade e sensação tátil. Médicos fisiatras afirmam que, em alguns casos, após o chamado trauma medular, quando a região desincha, é possível haver alguma melhora, a depender do dano.

Diogo, que é vidraceiro e pai de três meninas, diz estar muito grato. "Dou graças a Deus de ter tido acesso à aplicação. Tive uma grande chance, uma grande oportunidade. É muito bom ver que o estudo da doutora Tatiana está dando certo, está caminhando para ser liberado para outras pessoas."

De acordo com a equipe de fisioterapia do HECI (Hospital Evangélico de Cachoeiro do Itapemirim), onde está internado para reabilitação Luiz Fernando Mozer, 37, que também recebeu a aplicação há pouco mais de duas semanas, também por ordem judicial, após ter uma lesão completa em um acidente de moto, a recuperação tem sido "significativa".

"Mesmo diante de um quadro complexo, o paciente apresenta evolução gradativa, com registro recente de contração voluntária em membro inferior, considerado um ganho funcional significativo para o estágio atual da recuperação", informa a equipe do hospital, por nota.

Ainda segundo os especialistas, "a reabilitação segue com foco no controle de tronco, fortalecimento muscular, melhora da sensibilidade e progressão da independência funcional".

"O caso representa uma experiência inovadora e desafiadora, que reforça o compromisso da instituição com a ciência, a reabilitação baseada em evidências e a crença no potencial de recuperação dos pacientes, destacando a importância do trabalho em equipe e da atuação precoce no cuidado às lesões medulares", diz o texto.

Uma mulher de 35 anos que teve lesão gravíssima após acidente de carro, que recebeu a substância por ordem judicial, em Governador Valadares (MG), também está registrando melhoras, segundo a família e pesquisadores da equipe de Tatiana. Ela tem sensações de toque nas pernas e consegue contrair a coxa.

Os testes oficiais da polilaminina, que verificam a segurança do fármaco, só poderão ser realizados com voluntários com lesões medulares completas e agudas -ocorridas em no máximo 72 horas, que têm maior chance de recuperação.

LIMINARES NA JUSTIÇA PARA A APLICAÇÃO JÁ SÃO DEZ

Mais seis decisões judiciais mandam o laboratório Cristália, o grupo de pesquisadores da UFRJ e o poder público viabilizarem a aplicação da polilaminina em pessoas que tiveram lesões medulares após traumas. Até agora, ao todo, são dez, sendo cinco já cumpridas.

Quatro das liminares foram ou devem ainda ser cumpridas nesta semana. As cirurgias já ocorreram em Caraguatatuba (SP) e Vitória (ES), e devem acontecer em Maringá (PR) e em Salvador (BA) nos próximos dias.

O laboratório Cristália, apoiador financeiro da pesquisa e quem vai produzir o fármaco, caso ele seja futuramente aprovado pela Anvisa, informou que vai seguir cumprindo as ordens judiciais, que passam por aval da agência.

Até agora, a empresa tem absorvido os custos das aplicações. A substância, caso se torne um medicamento aprovado, poderá ser fornecida pelo SUS (Sistema Único de Saúde), de acordo com conversas já abertas entre a Cristália e o Ministério da Saúde.

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