Brasil

Pastora que coordena a Campanha da Fraternidade teme “cruzada santa”

Metrópoles | 16/02/21 - 11h38 - Atualizado em 16/02/21 - 14h57
Conic/Divulgação

Um dos principais alvos de ataques que fundamentalistas cristãos estão promovendo contra a Campanha da Fraternidade de 2021, cujo tema é “Fraternidade e Diálogo: compromisso de amor”, a pastora luterana Romi Bencke conta que mudou sua rotina por temer que o extremismo das redes possa resultar em consequências físicas. “Não tenho vocação para mártir”, diz a religiosa em entrevista ao Metrópoles. 

“Levo muito a sério, e não estou me expondo, estou evitando sair de casa”, destaca Romi Bencke, que, como secretária-executiva do Conselho Nacional das Igrejas Cristãs, o Conic, é uma das coordenadoras da Campanha da Fraternidade, que este ano é ecumênica graças a um convite da Igreja Católica a outras congregações.

Com lançamento oficial previsto para esta Quarta-feira de Cinzas (17/2), a Campanha da Fraternidade deste ano está gerando desconforto entre os católicos mais conservadores, que veem nos materiais de divulgação produzidos pelo conselho ecumênico, com a anuência da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), muita militância e pouca religiosidade.

O ponto do texto que mais revolta os conservadores é o protesto da campanha contra a violência sofrida por minorias, incluindo a população LGBTQI+. A citação do assassinato da vereadora carioca Marielle Franco também ajuda a acirrar os ânimos.

“Um dos objetivos da campanha é a denúncia da utilização do nome de Jesus para fundamentar uma cultura de ódio”, afirma a pastora.

“E a gente sabe que boa parte da discriminação contra pessoas LGBTQI+ e também contra as mulheres se vale do discurso religioso cristão para se legitimar. Então, numa campanha sobre diálogo, seria, sim, praticamente impossível não tocar nesses temas que são tabu”, frisa Romi Bencke.

Estímulo ao ódio

A pastora também diz na entrevista que está aberta a dialogar com fiéis que se sentiram ofendidos em sua fé por pontos da campanha. No entanto, pontua que não se pode aceitar os ataques feitos por extremistas que promovem discursos de estímulo ao ódio em canais na internet. 

“Ninguém precisa concordar com a forma como o texto está escrito. Ter pensamentos diferentes faz parte da liberdade de expressão, e não impede que a gente converse sobre esses temas. Divergências de opinião tá tudo bem, o que eu não aceito é o ataque de ódio”, salienta, citando extremistas que usam a internet para atingir milhares de pessoas em uma campanha de difamação contra ela e contra a Campanha da Fraternidade.

“A gente precisa refletir sobre a responsabilidade de quem propaga esses discursos. Os vídeos desse Centro Dom Bosco [canal ultraconservador no YouTube] têm sido muito assistidos. E eles fomentam a violência. Então, a partir do momento em que fazem o discurso que eles estão divulgando, numa cruzada santa em que o mal tem de ser eliminado, é claro que alguém que realmente acredita que está numa cruzada santa vai achar que fará uma grande contribuição para a obra de Deus se eliminar o mal”, avalia Romi Bencke.

Mulheres em posição de liderança na religião

“Uma mulher na minha posição desacomoda, gera desconforto. Sempre que mulheres do campo religioso cristão ganham autonomia, há o pensamento crítico. Quando falam pastora entre aspas, estão deslegitimando a ordenação de mulheres.

Só que no Brasil, embora não seja conhecido, nós temos várias igrejas que ordenam mulheres. Mas quando a gente vai cobrar um processo com maior participação política de mulheres dentro das instituições, a gente ainda bate no modelo patriarcal.

Não se gosta muito que mulheres tenham autonomia de pensamento e que façam a sua elaboração teológica, porque a gente sabe que o cristianismo tem um histórico muito complicado em relação às mulheres, mas a gente precisa falar sim.”

Fundamentalismo religioso na América Latina

“Participo de um fórum ecumênico que reúne países como Peru, Argentina, Colômbia e Brasil, e a gente tem uma pesquisa sobre fundamentalismos e ameaças aos direitos humanos na América do Sul. Analisamos que o atual fundamentalismo sul-americano, na verdade, não tem muita relação com aquele fundamentalismo antigo dos Estados Unidos, que brigava pela validade dos fundamentos.

O fundamentalismo na América Latina está relacionado com movimentos de deslegitimação dos processos democráticos participativos. E tem agendas em comum: no topo, estão os direitos sexuais reprodutivos. Depois vem todo o debate relacionado à família, o que eles chamam de ideologia de gênero e a questão educação domiciliar.

Há sim grupos fundamentalistas organizados na América do Sul, e eles têm como alvo preferencial as juventudes. Então, eles têm alto investimento para atrair jovens para esses movimentos conservadores.”

Aumento das ameaças

“Eu acho que esses ataques que tenho sofrido têm relação com o pedido de impeachment [contra o presidente Jair Bolsonaro], não são por causa da Campanha da Fraternidade. Em 2016, também coordenei a campanha, e não teve isso, só os debates religiosos. Esses ataques começaram a vir exatamente uma semana depois que protocolamos o impeachment. A gente estava trabalhando essa campanha publicamente desde o mês de outubro do ano passado, já está há alguns meses na rua. Eu acho que tem uma base coesa, coordenada [nos ataques].

Mas o que nós fizemos foi mostrar que existe um outro campo, um outro grupo de pessoas cristãs que não estão de acordo com isso [o governo Bolsonaro].”

Construção da Campanha da Fraternidade 2021

“A CNBB definiu que a campanha de 2021 seria ecumênica, como tem sido de cinco em cinco anos desde 2000, apesar de não haver uma regra, e convidou o Conic, que criou uma comissão ecumênica sem hierarquia, para formular a campanha. O primeiro passo é uma consulta às comunidades, e os temas que mais apareceram quando a gente fez esse processo foram os das polarizações, do ódio e da necessidade do diálogo. Então, a gente tentou juntar todos esses temas e sintetizou no tema da campanha deste ano, que é ‘Fraternidade e diálogo: compromisso de amor’.

Para preparar o texto-base, a gente busca pessoas conhecedoras do tema para nos subsidiar. Buscamos pessoas da área, das ciências humanas. Tem uma pessoa na área da sociologia, que está fazendo doutorado em economia, tem uma que contribuiu muito com a gente, que é da área da semiótica e da filosofia. E a parte bíblica, a gente pegou pessoas que estudam a Bíblia na sua área de conhecimento. Cada uma dessas pessoas fez a sua contribuição. Depois, a comissão da campanha, considerando cada uma das confessionalidades, das doutrinas, das diferentes tradições, fechou o texto.

Depois, passamos o texto para uma comissão teológica do Conic, que verificou se havia alguma coisa que pudesse ferir a doutrina de alguma das igrejas participantes da organização da campanha. No olhar da comissão, não havia nada. Eles fizeram pequenas sugestões, a gente fez essas alterações, mas o texto saiu no formato que hoje é público. Então, é um processo longo, que durou mais de um ano.”