Alagoas

Pesquisadora da Ufal vence prêmio da Unesco com estudo sobre plantas alimentícias não convencionais

Folha | 09/03/20 - 11h06 - Atualizado em 09/03/20 - 11h15
Patrícia de Medeiros, etnobotânica professora da Universidade Federal de Alagoas | Foto: Divulgação

Araçá-do-mato, cambuí e jenipapo. Esses frutos podem ser estranhos para muita gente, mas fazem parte da dieta de comunidades tradicionais dos arredores de Maceió —e poderiam estar na mesa de todo mundo.

É para isso que trabalha a Patrícia de Medeiros, da UFAL (Universidade Federal de Alagoas). Coordenadora de um projeto de pesquisa para a popularização das Pancs (plantas alimentícias não convencionais), ela foi a única brasileira premiada na edição deste ano do prêmio For Women in Science, promovido pela empresa francesa L’Oréal em parceria com a Unesco.

Escolhida para a categoria International Rising Talents ao lado de 14 pesquisadoras, ela receberá uma bolsa-auxílio de R$ 75 mil, que se soma aos R$ 50 mil que ela já havia recebido em 2019 pela edição nacional do prêmio.

Ela conta que o dinheiro permitirá idas a campo e a compra de equipamentos. “Temos um desafio ainda maior porque estamos com pouca verba pelos órgãos públicos para pesquisa.”

Medeiros quer cobrir a lacuna entre o conhecimento ancestral sobre as Pancs na população. O araçá-do-mato, aliás, pode ser consumido in natura e em sucos e sobremesas. O cambuí também pode ser comido direto do pé, assim como o jenipapo, que ainda pode virar geleia.

Além de reconhecer talentos em ascensão, o prêmio homenageia cinco cientistas, uma de cada continente, por suas pesquisas e sua trajetória profissional. Elas recebem uma bolsa-auxílio que equivale a R$ 520 mil.

Em 2020, a representante da África e do Oriente Médio é a libanesa Abla Sibai, que estuda envelhecimento saudável em países de renda média a baixa. Ela atuava como farmacêutica, mas, durante a guerra civil do Líbano (1975-1990), decidiu dar uma guinada na carreira e se doutorar em saúde pública. “Era impossível ficar parada e ficar atrás do balcão da farmácia enquanto o conflito impactava a população.”

Ela fundou um centro para o desenvolvimento de políticas públicas voltadas ao envelhecimento e a University for Seniors, um projeto na Universidade Americana de Beirute, capital do Líbano, para que pessoas acima de 50 anos compartilhem conhecimento e aprendam novas habilidades.

Para ela, é importante que a premiação reconheça mulheres cientistas e os desafios que elas enfrentam. “Nós precisamos de mais financiamento de pesquisa, de políticas melhores e de mais equilíbrio entre a vida profissional e pessoal”, diz.

No Brasil, uma iniciativa que busca dar mais visibilidade ao trabalho de mulheres cientistas foi lançada neste ano. É o Open Box da Ciência, que elenca 250 pesquisadoras de destaque no país.

Para Giulliana Bianconi, diretora da Gênero e Número, que elaborou a plataforma, o cenário da ciência está longe de ser o ideal para as mulheres, mas há sinais positivos, como a maior presença de mulheres em áreas antes dominadas por homens, como as ciências exatas. “Já existe, entre essas protagonistas, um discurso sobre precisar ser referência [para outras mulheres] e querer trabalhar para isso.”