'Qualquer hora me mata': PM morta com tiro na cabeça se queixou de ciúmes em mensagem

Publicado em 17/03/2026, às 08h12
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Por g1

A soldada Gisele Santana foi encontrada morta com um tiro na cabeça, e mensagens enviadas a uma amiga indicam que ela vivia sob ciúmes e controle excessivo do marido, o tenente-coronel da Polícia Militar Geraldo Neto, levantando suspeitas de um relacionamento abusivo.

A mãe de Gisele relatou que a filha era proibida de usar maquiagem e roupas específicas, e que o tenente-coronel tinha um histórico de ameaças e perseguições, incluindo registros de boletins de ocorrência de ex-companheiras que sofreram abusos e assédio.

Embora a defesa de Geraldo Neto sustente que a morte foi um suicídio, a investigação da Polícia Civil agora considera a possibilidade de feminicídio, aguardando laudos complementares para determinar as circunstâncias da morte de Gisele.

Resumo gerado por IA

A soldada Gisele Santana, encontrada morta com um tiro na cabeça no mês passado, enviou mensagens a uma amiga se queixando dos ciúmes do marido, o tenente-coronel da Polícia Militar Geraldo Neto, apontou a defesa da mulher.

"Tem que controlar os ciúmes dele. Qualquer hora me mata. Fica cego. Não tenho como controlar o que falam, muito menos o que acham [...]", teria dito a PM.

Em depoimento na delegacia, a mãe da vítima afirmou que Gisele vivia um relacionamento abusivo, extremamente conturbado e que o oficial seria abusivo e violento, impondo restrições ao comportamento da filha.

Ela relatou que Gisele era proibida de usar batom, salto alto e perfume, além de ser cobrada pelo cumprimento rigoroso de tarefas domésticas.

Disse ainda que, quando a policial mencionou a intenção de se separar, o tenente-coronel teria enviado pelo celular uma foto em que aparecia com uma arma apontada para a própria cabeça.

Advogado apresenta áudio de PM morta

O advogado da família de Gisele apresentou nesta segunda-feira (16) um áudio que, segundo ele, mostra que a policial planejava sair do apartamento onde morava com o marido.

De acordo com o advogado Miguel Silva, a gravação foi enviada por Gisele ao pai e mostra que ela pedia ajuda para encontrar uma nova casa, preferencialmente perto da residência dos pais.

Durante entrevista coletiva, o advogado afirmou que a mensagem reforça a versão da família de que a policial pretendia se afastar do marido.

“Recebi um áudio onde Gisele, no ano passado, pede para o pai arrumar uma casa para ela. O desespero era tanto.", afirmou Silva.

Áudio enviado ao pai

No áudio apresentado pelo advogado, Gisele fala sobre a busca por uma casa próxima da residência dos pais para facilitar a rotina de trabalho e os cuidados com a filha.

“Não, pai, pra mim é melhor aí, rua, entendeu? Quanto mais perto daí, melhor. De manhã eu vou sair muito cedo pra ir trabalhar e aí eu vou ter que deixar a [nome da criança] dormindo aí, entendeu?”, diz a policial na gravação.

Em outro trecho, ela explica que morar mais perto ajudaria a evitar deslocamentos longos antes do trabalho.

“Então, quanto mais perto, melhor. Porque eu já deixo ela aí e já pego o trem pra ir trabalhar, entendeu? Pra não ficar tendo essa viagem aí de manhã. Eu perco muito tempo. Eu entro cedo aqui no serviço”, afirma no áudio.

O advogado da família argumenta que a mensagem indicaria que Gisele planejava deixar o apartamento onde vivia com o marido e se mudar para mais perto dos pais.

Histórico de ameaças e perseguição

O advogado também disse que o tenente-coronel Neto tem um histórico de ameaças e perseguições contra mulheres.

Segundo o advogado Miguel Silva, há registros policiais e decisões judiciais que apontam episódios de ameaças contra ex-companheiras e também denúncias de assédio e perseguição contra policiais militares mulheres subordinadas ao oficial dentro da corporação.

"Quando eu disse que o tenente-coronel é um violador, um assediador, já há muito tempo, eu fiz uma crítica ao comando da Polícia Militar e ao secretário da Segurança. Eu mantenho essa crítica, haja vista que ele deveria ter sido afastado já há muito tempo das suas funções" — afirmou o advogado.

Segundo a defesa da família, os episódios indicam um padrão de comportamento do policial. “É um histórico ameaçador, um histórico perseguidor”, disse o advogado.

BOs por ameaça

De acordo com Miguel Silva, uma ex-companheira do tenente-coronel registrou boletins de ocorrência contra ele entre 2009 e 2010. Segundo o advogado, em um dos registros a mulher relatou que sofria perseguições e perturbações constantes.

“Tem um boletim de ocorrência de 2010 em que uma vítima, sua ex-mulher, diz que vem sofrendo vários problemas de perturbação de sua tranquilidade.A ex-mulher se socorre de medida protetiva e diz o seguinte: 'o autor mantém vigilância sobre a vítima, impedindo que ela se relacione com outras pessoas, ameaçando inclusive de morte'”.

Em outra BO de 2022, aponta Silva, a vítima relata que estava sendo ameaçada dentro do próprio apartamento. “Foi lavrado um BOPM em 22 de janeiro de 2022 em que outra vítima se queixa. O assunto é ameaça. ‘Está entrando dentro do meu apartamento o senhor major’”, disse.

Perseguição contra PMs mulheres

O advogado também citou um processo judicial relacionado a um episódio ocorrido em 2022, quando o oficial ainda era major. Segundo ele, a Justiça reconheceu que houve assédio moral contra uma policial militar subordinada em um caso envolvendo transferência de agentes mulheres.

“Em 8 de julho de 2022, o servidor major Neto decidiu movimentar quatro policiais femininas para outro local de trabalho como forma de punição, sem apresentar motivos legais para a transferência. Passando a perseguir o efeito feminino, incluindo a requerente".
De acordo com o advogado, a policial que levou o caso à Justiça afirmou ter passado a sofrer perseguições após questionar as decisões do superior.

“A requerente passou a ser totalmente hostilizada pelo servidor major Neto”, disse. Segundo Silva, outras policiais também teriam relatado problemas semelhantes à Corregedoria da PM.

Defesa de coronel sustenta suicídio

Quase um mês após a morte de Gisele Santana, a defesa do tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto ainda sustenta a versão de que a soldado se suicidou com um tiro na cabeça no apartamento do casal em São Paulo. O caso ocorreu em 18 de fevereiro.

“A defesa do tenente-coronel aguarda serenamente o desenrolar da apuração da Polícia Civil com a juntada de todos os laudos e externa a confiança na palavra do coronel: de que trata-se de suicídio", disse neste sábado (14) ao g1 o advogado Eugênio Malavasi, que defende o coronel Geraldo, da Polícia Militar (PM). "E isso será comprovado de foram cristalina ao final da investigação”.

Já o advogado que defende os interesses da família de Gisele subiu o tom ao alegar que a morte da soldado foi consequência de um crime, o feminicídio — cometido, segundo ele, pelo próprio marido dela, o coronel Geraldo.

"Eu não tenho dúvidas que ele [coronel Geraldo] matou ela [Gisele]. Mas cabe a polícia provar", disse o advogado José Miguel da Silva Júnior também neste sábado à equipe de reportagem.

O caso, registrado inicialmente como suicídio, passou a ser investigado como morte suspeita pela Polícia Civil. A hipótese de que a agente da PM se matou não foi descartada totalmente, mas também está sendo apurada a possibilidade de que a mulher possa ter sido vítima de feminicídio

A delegacia que apura a morte de Gisele ainda aguarda os resultados de laudos complementares da Polícia Técnico-Científica para concluir inquérito e sabe se houve suicídio ou crime.

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