O uso de implantes hormonais subcutâneos, conhecidos como 'chip da beleza', tem se popularizado, mas pode causar mudanças permanentes na voz feminina, como o engrossamento vocal e instabilidade. Essas alterações ocorrem devido à ação dos andrógenos nas pregas vocais, afetando a qualidade e o timbre da voz.
As alterações vocais incluem não apenas um tom mais grave, mas também rouquidão persistente e perda de extensão vocal, impactando negativamente profissionais que dependem da voz. A mudança na voz pode gerar estranhamento e afetar a autoestima, uma vez que a voz é um importante marcador de identidade.
Embora algumas alterações possam ser permanentes, existem opções de tratamento, como fonoterapia e procedimentos cirúrgicos, que podem ajudar na readequação vocal. Especialistas alertam para a importância da informação e acompanhamento antes do uso de hormônios, destacando os riscos associados a essas intervenções.
O uso do chamado “chip da beleza”, implantes hormonais subcutâneos frequentemente associados à testosterona, tem se popularizado com promessas estéticas e de melhora de desempenho físico. No entanto, um dos efeitos menos discutidos envolve mudanças significativas na voz feminina, que podem ser permanentes.
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Segundo o otorrinolaringologista Guilherme Catani, os andrógenos atuam diretamente na laringe e promovem alterações estruturais nas pregas vocais. "Qualquer hormônio exógeno com ação androgênica pode provocar alterações estruturais nas pregas vocais, levando a mudanças definitivas na voz, como agravamento do timbre e instabilidade vocal", diz.
“A testosterona estimula o espessamento das pregas vocais e o aumento da massa muscular da laringe. Isso reduz a frequência fundamental da voz, tornando-a mais grave. Em muitos casos, essa mudança não regride completamente, mesmo após a suspensão do hormônio”, explica o médico.
O primeiro efeito percebido costuma ser o engrossamento vocal, também chamado de virilização da voz. A mudança pode ocorrer de forma progressiva, tornando o timbre mais grave e, em algumas situações, com características masculinizadas.
Além da alteração de tom, pode surgir rouquidão persistente. O uso hormonal pode provocar edema e alterar o padrão de vibração das pregas vocais, resultando em voz áspera, instável ou com falhas.
“Não é apenas uma voz mais grave. Muitas pacientes relatam perda de qualidade vocal, cansaço ao falar e dificuldade para sustentar a emissão”, afirma Guilherme.
Outro impacto importante é a perda de extensão vocal, especialmente nos tons mais agudos. Profissionais que utilizam a voz intensamente costumam perceber redução do alcance e menor flexibilidade.
“A paciente pode perder o controle fino da emissão e a capacidade de atingir frequências mais altas, o que afeta diretamente quem depende da voz no trabalho”, pontua.
Além das alterações físicas, há repercussão emocional significativa. A voz é um dos principais marcadores de identidade e reconhecimento social. “A voz é parte de quem somos. Uma mudança inesperada pode gerar estranhamento, sofrimento e impacto na autoestima”, ressalta.
Há possibilidade de reversão?
Embora parte das alterações possa ser definitiva, existem opções terapêuticas para readequação vocal. Nesses casos, o tratamento pode envolver fonoterapia e, quando indicado, procedimentos cirúrgicos como a vaporização da musculatura das pregas vocais com laser de CO2 (gás carbônico) e a glotoplastia, técnicas voltadas à readequação vocal.
“Hoje dispomos de técnicas cirúrgicas de readequação vocal que permitem aumentar a frequência da voz e ajustar parâmetros vocais. Cada caso precisa ser avaliado individualmente, mas é importante que a paciente saiba que há possibilidades de tratamento”, conta o otorrinolaringologista.
O especialista reforça que a melhor estratégia ainda é a informação e o acompanhamento adequado antes do uso de hormônios. “Hormônio não é recurso estético isento de risco. Quando falamos de voz, estamos falando de estrutura anatômica. E qualquer intervenção deve ser feita com consciência dos possíveis impactos”, afirma Guilherme.
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