Identificar os padrões precocemente é essencial para evitar impactos duradouros na saúde mental e na autoestima
Os relacionamentos na adolescência costumam ser marcados por descobertas, intensidade emocional e construção da identidade. No entanto, é justamente nesse período que muitos jovens podem vivenciar dinâmicas abusivas sem perceber, já que ainda estão aprendendo a reconhecer limites, respeito e autonomia dentro de uma relação.
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A falta de informação e a romantização de comportamentos tóxicos contribuem para que sinais de abuso psicológico passem despercebidos. Especialistas alertam que identificar esses padrões precocemente é essencial para evitar impactos duradouros na autoestima, na saúde mental e na forma como esses jovens se relacionarão no futuro.
Abaixo, confira sinais de alerta para relacionamentos abusivos na adolescência!
No início, atitudes de controle podem ser interpretadas como demonstração de carinho ou preocupação. No entanto, quando o parceiro tenta interferir constantemente nas escolhas, amizades ou rotina, isso pode indicar um comportamento abusivo. Esse tipo de controle tende a aumentar com o tempo e limitar a liberdade do adolescente.
A dificuldade em reconhecer esse padrão está no fato de que ele muitas vezes vem disfarçado de atenção ou zelo. Com o passar do tempo, a pessoa pode começar a se afastar de amigos e atividades para evitar conflitos dentro da relação.
“O abuso psicológico envolve atitudes que desestabilizam, controlam e diminuem a outra pessoa. Isso pode acontecer de forma repetitiva e, muitas vezes, de maneira sutil, o que dificulta a identificação no início. Na adolescência, isso pode ser ainda mais confuso, porque muitos jovens ainda estão aprendendo o que é um relacionamento saudável”, afirma a psiquiatra Jessica Martani.
Comentários negativos frequentes sobre aparência, comportamento ou decisões podem parecer “brincadeiras”, mas têm impacto direto na autoestima. Com o tempo, a vítima pode internalizar essas críticas e passar a duvidar de si mesma, acreditando que precisa mudar para ser aceita. Isso cria um ciclo de dependência emocional dentro da relação.
“É quando uma pessoa usa palavras, atitudes e comportamentos para controlar, diminuir ou confundir a outra. Não deixa marcas físicas, mas afeta profundamente a autoestima e a forma como a pessoa se percebe. Em adolescentes, isso pode impactar diretamente na construção da identidade”, afirma a psicóloga Anastacia Cristina Macuco Brum Barbosa.
Um dos sinais mais comuns em relações abusivas é o sentimento constante de culpa. A pessoa passa a acreditar que é responsável pelos conflitos e tenta, a todo custo, evitar desentendimentos, mesmo que isso signifique abrir mão de si mesma.
Esse padrão faz com que o adolescente permaneça na relação, acreditando que precisa “fazer melhor” ou “se esforçar mais”, sem perceber que está sendo manipulado emocionalmente. “É comum a pessoa passar a duvidar de si mesma, sentir culpa constante e perder a confiança nas próprias decisões. Também pode surgir um estado de alerta permanente dentro da relação, o que gera ansiedade e desgaste emocional significativo”, explica Jessica Martani.
O medo constante da reação do outro é um sinal claro de que algo não vai bem. Quando o adolescente começa a medir palavras, atitudes e até sentimentos para evitar conflitos, a relação deixa de ser saudável e passa a ser um espaço de tensão.
Esse comportamento pode levar à perda de espontaneidade e à dificuldade de se expressar, comprometendo o desenvolvimento emocional e social do jovem.
“Críticas constantes, desvalorização, manipulação e a sensação de estar sempre ‘pisando em ovos’ são indícios importantes. Muitas vezes, a pessoa deixa de ser quem é para evitar conflitos, o que gera um impacto profundo na saúde emocional”, afirma Anastacia Cristina Macuco Brum Barbosa.

Relacionamentos abusivos podem gerar confusão mental, fazendo com que o adolescente questione suas próprias percepções. Isso acontece porque o agressor frequentemente invalida sentimentos e distorce situações.
“Abuso psicológico é uma forma de violência não física, mas profundamente destrutiva. Ele acontece de forma gradual, minando a autoestima e a sensação de segurança interna. A pessoa começa a se perder de si, entrando em um estado de confusão emocional e insegurança constante”, explica a terapeuta Gláucia Santana.
Afastar-se de amigos e familiares é um comportamento comum em relações abusivas. Muitas vezes, o parceiro incentiva esse distanciamento de forma direta ou indireta, dificultando que a vítima perceba a situação ou busque ajuda.
Na adolescência, esse isolamento pode ser ainda mais prejudicial, já que as relações sociais são fundamentais para o desenvolvimento emocional. “Muitas pessoas passam a viver com medo da reação do outro, perdem a espontaneidade e entram em isolamento. Pode haver controle sobre a rotina e uma sensação constante de não ser suficiente. Isso enfraquece a rede de apoio e aumenta a dependência emocional”, diz Gláucia Santana.
Reconhecer que está em uma relação abusiva pode ser difícil, especialmente na adolescência. Por isso, o apoio de amigos, familiares e profissionais é fundamental para interromper o ciclo e reconstruir a autoestima.
Buscar ajuda não é sinal de fraqueza, mas de consciência e cuidado com a própria saúde mental. Quanto antes isso acontecer, menores serão os impactos emocionais a longo prazo. “Reconhecer que isso não é normal é o primeiro passo. Depois, é importante buscar apoio de pessoas de confiança, procurar acompanhamento psicológico e se informar. A responsabilidade nunca é da vítima, e existe saída quando há suporte adequado”, orienta Anastacia Cristina Macuco Brum Barbosa.
Discutir relacionamentos abusivos na adolescência é fundamental para prevenir ciclos de violência emocional que podem se repetir na vida adulta. Informação, acolhimento e diálogo são ferramentas essenciais para que jovens aprendam a construir relações mais saudáveis, baseadas em respeito e autonomia.
Por Sarah Carvalho
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