O caso de Maria Daniela, uma jovem que ficou em coma após ser estuprada em dezembro de 2024 em Alagoas, foi destacado em uma reportagem do Domingo Espetacular, revelando as graves consequências do crime e a busca por justiça. O Ministério Público denunciou Victor Bruno da Silva Santos, o principal suspeito, que permanece foragido.
Maria Daniela, que vive com sequelas neurológicas e psicológicas, relatou que confiava no agressor, que era seu colega de escola, e descreveu o momento do ataque. A defesa de Victor Bruno alega que a relação foi consensual, enquanto a família da vítima e suas advogadas afirmam que houve tentativa de feminicídio e um possível estupro coletivo.
As advogadas de Maria Daniela estão trabalhando para garantir que a justiça seja feita, enquanto a Polícia Civil intensifica os esforços para localizar o suspeito. A situação atual destaca a necessidade de uma investigação minuciosa e a pressão social para que os responsáveis sejam responsabilizados.
O programa Domingo Espetacular, da RECORD, exibiu nesse domingo, 5, a reportagem especial sobre o caso da jovem Maria Daniela, que chegou a ficar em coma e vive com sequelas após ter sido vítima de estupro em dezembro de 2024, em Coité do Nóia, interior de Alagoas. O jornalista Roberto Cabrini viajou até o município alagoano para aprofundar a história. Assista abaixo na íntegra:
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O Ministério Público do Estado denunciou, em abril de 2025, Victor Bruno da Silva Santos, conhecido como Vitinho. O jovem de 19 anos, que era colega de escola e estudou com Maria Daniela por dois anos, é considerado foragido desde então.
Cabrini foi até a propriedade onde Maria Daniela vive com os pais na zona rural da cidade. A jovem contou o pouco que se recorda daquele dia 6 de dezembro de 2024.
"Não conhecia a chácara. Fui porque confiava nele. No começo, eu não queria ir, mas ele me tranquilizou e fui porque confiava muito nele. Ele fazia tudo que eu gostava, tipo tudo o que um homem podia dar a uma mulher. Eu não temia. Fui na expectativa de ser uma noite normal, como foi na primeira vez. Na segunda vez, ele me agrediu. Eu era apaixonada por ele. Eu achava que ele também, mas pelo visto não. Lembro que descemos do carro, ele abriu a porta da casa. Não vi outras pessoas. A gente foi para a sala, ele queria ter relação, e eu falei que não. Eu não queria. Me recordo dele forçar a ter relação. Me vem medo à mente".
Maria Daniela e a família estão sendo assistidas pelas advogadas Eurides Accioly e Júlia Nunes, que falaram sobre o caso. "O que se sabe sobre esse local é que os grandes poderosos, parte inclusive familiares de Vitinho, levava jovens para fazer orgias. Um ato premeditado", afirmou Eurides.
"Estou convencida de que se trata de um caso de tentativa de feminicídio e um estupro coletivo. (Cabrini: quem mais teria participado desse suposto estupro coletivo?) Quem está ajudando a escondê-lo. (Estamos falando de quantas pessoas?) De no mínimo três. Eu tenho certeza que Vitinho Bruno participou e que, ele estar foragido hoje, faz com que proteja outros indivíduos. Talvez, ele nem queira proteger, mas todo sistema está se envolvendo para fazer com que ele não seja pressionado a falar a verdade", disse Júlia.
Depoimento de Victor Bruno
Cabrini teve acesso ao conteúdo do depoimento de Victor Bruno no início das investigações. Ele disse que teve relação com Maria Daniela e que depois ela passou mal.
"Depois do nosso primeiro encontro, passei a trocar mensagens com Dani diariamente. Naquele dia, ela me chamou para sair. Eu a levei de carro até a fazenda de um primo meu, onde ficamos só nós dois. Começamos a nos beijar no sofá cama, tomamos banho e tivemos uma relação sexual. Não comemos nada. Ela só chegou a beber um pouco de suco depois do banho. Logo depois, Dani falou que estava passando mal. Ela começou a ficar mole e desmaiou. Coloquei a roupa nela, e a levei de carro para o posto de saúde. No caminho, busquei uma amiga dela, que nos acompanhou. Dani ficou desacordada durante todo o percurso. Eu fiquei no posto de saúde até a chegada dos pais. Só fui embora quando ela foi transferida para o hospital".
O Domingo Espetacular reproduziu o vídeo em que Vitinho e o pai, José Vieira dos Santos, conhecido como Dedé, aparecem para falar sobre o caso. Na ocasião, apenas o pai fez declaração e negou que o filho tivesse cometido estupro.
"Meu filho não tinha a intenção de fazer mal nenhum a ela. Outra coisa, foi ela quem convidou meu filho para ficar com ele. Eles já tinham saído no dia 27 de novembro de 2024. No dia 6 de dezembro, aconteceu esse fato. E ante o ato, a menina passou mal. Mas o meu filho foi um grande homem. A todo momento, ele deu assistência, ele socorreu. Se ele fosse um covarde, teria deixado ela lá. Mas ele a socorreu, deu todo suporte. Uma triste sorte foi a do meu filho de pegar uma situação dessa. Ela não foi estuprada em momento nenhum", negou Dedé, que é dono de uma concessionária de carros e motos.
Forte depoimento da mãe
Em diversos momentos da entrevista com Cabrini, dona Sandra, mãe de Maria Daniela, foi às lágrimas.
"Ele acabou com a vida da minha filha. Mudou tudo, né... A gente vivia feliz. Minha filha era uma pessoa feliz, maravilhosa, sonhadora. E de repente, vai fazer 1 ano e 4 meses que a vida dela acabou. Muito triste a vida dela. Tem dia que ela não tem vontade de viver. Minha filha era normal, era perfeita. E hoje ela se encontra nessa situação que fizeram com ela".
Pai da vítima diz que recebeu proposta de "casamento"
A família de Maria Daniela sobrevive da agricultura. O pai, José Domingos, comentou que cria nove animais para manter o sustento dele e dos entes queridos.
"A nossa vida aqui é de agricultura. É dar de comer aos bichinhos. Crio uns carneirinhos para o abate. Hoje, tenho cinco bodes aqui e quatro do lado de lá, são nove no total. A gente parou de viver aqui desde o acontecido. Estamos vegetando. Se ele (Victor Bruno) fosse inocente, ele já tinha se apresentado. Como é que ele é inocente e o pai escondeu ele? A gente tem medo da influência do pai do rapaz, porque já vai fazer um ano e quatro meses, e o rapaz nunca foi preso".
"(Dedé) Ele ofereceu um casamento e disse que tinha condições de fazer uma casa. Perguntou quanto nós estávamos precisando. Em nenhum momento aceitei o dinheiro dele. Quer dizer, ele quis me comprar desde o início. Ele não teve a intenção de ajudar Maria Daniela ou a família dela. A intenção do Dedé Moto era se livrar da culpa", denunciou José.
O que diz o pai de Victor Bruno
Em entrevista por telefone, Dedé aceitou conversar com Cabrini e negou que o filho tenha cometido os crimes.
"De forma alguma, seu Cabrini. Isso aí eu assino um documento para o senhor se o meu filho agrediu ela. E se ele tiver essa capacidade de ter feito o que foi falado, era um monstro que eu estava criando. (Cabrini: e como o senhor explica os ferimentos dela?) Seu Cabrini, aqueles ferimentos da menina foram feitos no hospital. A menina chegou no posto sem nenhum tipo de ferimento daquele. (Se o seu filho é inocente, por que ele está foragido?) Se o meu filho fosse pego na rua, ele tinha sido morto. (É verdade que o senhor chegou a sugerir que seu filho se casasse com a Daniela?) Aí foi quando eu falei: não Beto, não, se ela estiver grávida e eles se gostarem, eu faço uma casa e eles vão morar juntos. Se eles não se gostarem, ele vai assumir a criança, que é obrigação dele. Ele tem que ter responsabilidade. Aí foi quando ele inventou um vídeo falando que eu ofereci uma casa para acabar com isso. Mentira".
Relatos da equipe médica
Maria Daniela deu entrada no Hospital de Emergência de Arapiraca às 03h25 da sexta-feira, 7 de dezembro de 2024. Ela chegou em estado grave e permaneceu internada durante 19 dias. Desses, seis foram internada na Unidade de Terapia Intensiva (UTI).
O Domingo Espetacular detalhou o relato da equipe médica, que a jovem estava sem roupas íntimas e com sangramento, além de apresentar mal estar, sonolência, rebaixamento no nível de consciência e contraturas musculares.
"Ela chegou com marca de mordida nos seios. Chegou com as pernas machucadas, arranhadas", afirmou a advogada Eurides.
"Ela estava de vestido, nua da cintura pra baixo e sangrando. Eu olhei para o Vitinho e disse: quem é você? Ele disse: eu socorri a sua filha. Eu falei: você estuprou minha filha? Ele respondeu: não, dona, não estuprei sua filha, eu vim fazer socorro", relatou dona Sandra.
Cabrini citou que o exame toxicológico realizado pela Polícia Científica encontrou cinco substâncias no sangue e urina de Maria Daniela: diazepam, fenitoína, haloperidol, nordazepam e prometazina.
(Cabrini: Você confirma que foi dopada?)"Sim, tenho certeza, porque nunca tomei nenhum tipo de medicamento. (Você acha que essas substâncias te deixaram com memória afetada?) Sim, e no hospital eu não enxergava direito", disse Maria Daniela.
A defesa de Victor Bruno aponta que essas substâncias podem ter sido administradas no hospital. "Conversando com os médicos que a atenderam, por mais que várias substâncias apareçam também no tratamento ministrado em diferentes estágios, todos contam que o estado de Daniela era condizente ao de uma pessoa que usou, de forma voluntária ou não, substâncias psicoativas, capazes de tirarem a consciência", diz Cabrini na reportagem.
Sequelas neurológicas
Maria Daniela está sendo acompanhada pelo neurologista Leandro Barreto Izidoro, que falou sobre as sequelas da jovem.
"Ela tinha medo de tudo, medo das pessoas. Ela ficou realmente muito abalada psicologicamente, além do quadro neurológico dela. Ela tem uma certa dificuldade em relacionamento, dificuldade para falar e se movimentar. Pode até melhorar alguma coisa com a reabilitação, mas voltar ao normal, não, é um quadro irreversível".
Ele disse ainda que as lesões que a jovem apresenta no cérebro são compatíveis com tentativa de asfixia. O neurocirurgião também notou a grande possibilidade dela ter sido dopada, informou Cabrini. A jovem chorou durante vários momentos da entrevista e falou como tem sido a vida desde então.
"Foi ver que eu não podia fazer as mesmas coisas que eu fazia. Não podia trabalhar, nem podia estudar, nem dirigir carro ou moto. [...] Eu era vaidosa. São minhas maquiagens aqui, não me maquio mais, porque não tenho vontade de me arrumar mais. Fico me comparando com antes quando vejo, porque eu era saudável e perdi minha vida".
"(Cabrini: Você tem evoluído?) Na fisioterapia, sim, mas mentalmente, não. (Qual seu sonho hoje?) Ter uma vida normal. (Você ainda pretende ser fisioterapeuta?) Talvez um dia. (Está disposta a lutar?) Sim, mas é muito difícil. (O que seria justiça neste caso?) Ele ser preso e pagar pelo que fez comigo. E quem estava com ele também", respondeu Maria Daniela.
O que diz a defesa de Maria Daniela
A advogada Júlia Nunes acredita que Maria Daniela foi dopada. "Não há dúvidas. Daniela já chegou ao hospital sem sinais, desacordada, tendo alucinações no hospital. (Cabrini: Quando Daniela foi dopada?) Durante o encontro com Vitinho".
"Qual é o ato sexual que faz com que você tenha danos neurológicos? Qual é o ato sexual que faça com que você fique com privação de oxigênio? Que sexo é este? Qual ato sexual, Cabrini, que faz com que um cabelo não possa ser desembaraçado e tenha que ser cortado? Isso não é ato sexual, é estupro", complementou a advogada.
O que diz a defesa de Victor Bruno
Em nota, a defesa de Victor Bruno afirmou que as circunstâncias do caso demandam apuração técnica criteriosa e contextualizada, sem antecipação de conclusões, e que elementos fundamentais para esclarecer os fatos precisam ser expostos. Os advogados de Victor Bruno sustentam que a relação sexual foi consentida.
O que diz a Polícia Civil
A Polícia Civil de Alagoas declarou que todas as providências foram tomadas para apuração dos fatos com a realização de perícias técnicas, e que atualmente há um grande esforço para localizar e prender o suspeito.