Depois que alguns participantes de um ensaio clínico desistiram por receio de emagrecer demais, laboratórios reveem a dosagem desses medicamentos
Voluntários de um ensaio clínico para tratamento da obesidade abandonaram o estudo devido à perda excessiva de peso causada pela retatrutida, um novo medicamento da Eli Lilly, que demonstrou eficácia superior a outros tratamentos existentes.
Os participantes que receberam a maior dose do medicamento perderam em média 28,7% do peso corporal, levando especialistas a reavaliar os objetivos do tratamento da obesidade e os riscos associados ao emagrecimento excessivo.
Em resposta a esses desafios, a Novo Nordisk adotou uma abordagem de dosagem flexível em seus estudos, enquanto a Anvisa proibiu a retatrutida no Brasil devido à falta de aprovação regulatória, destacando preocupações com a saúde pública.
Em um cenário até hoje inédito na história da medicina, voluntários de um ensaio clínico para tratamento da obesidade começaram a abandonar o estudo um a um. O motivo não foram os efeitos colaterais nem a falta de resultado, mas justamente o contrário: o medicamento em questão — a retatrutida, desenvolvida pela Eli Lilly — estava fazendo os participantes emagrecerem demais.
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No que pode ser um novo teto de eficácia para medicamentos de emagrecimento, os dados preliminares do estudo — que envolveu pacientes com obesidade e osteoartrite do joelho — revelaram que os participantes que receberam a maior dose da retatrutida por quase 70 semanas perderam, em média, 28,7% do peso corporal, resultado 43,5% superior ao obtido com a semaglutida.
Enquanto o Ozempic age apenas no GLP-1 e o Mounjaro combina GLP-1 e GIP, a retatrutida é um triplo agonista hormonal, pois atua simultaneamente nos dois receptores citados e também no receptor do glucagon (GCGR). Isso significa que ela estimula a quebra de gordura armazenada e aumenta o gasto energético pelo metabolismo do fígado.
Dos 445 participantes do ensaio, entre 12% e 18% desistiram porque sentiam que estavam perdendo peso em excesso. É a primeira vez que registros formais de um ensaio clínico de grande porte documentam abandono motivado por eficácia excessiva do medicamento testado.
O paradoxo é tão inédito que levou especialistas a rever os próprios objetivos do tratamento da obesidade. O ensaio ainda não foi concluído, o que torna difícil prever a forma final que o medicamento assumirá antes de uma eventual aprovação regulatória.
Será que os medicamentos para perda de peso foram longe demais?
Será que um remédio para obesidade pode ser potente demais? O Dr. Andrew Kraftson, professor da Universidade de Michigan, acha que sim. Depois de retirar um de seus pacientes da medicação — porque ele queria continuar emagrecendo além de qualquer benefício médico justificável —, ele disse que o problema não é apenas clínico, mas também cultural.
Citando os padrões de beleza determinados pela sociedade, ele afirmou ao The New York Times: “só porque alguém consegue se matar de fome para atingir um peso menor, não significa que devamos facilitar isso administrando uma injeção para promover a anorexia”.
Também entrevistada pelo diário novaiorquino, a especialista em diabetes e educação, Maureen Chomko, explica que os pacientes que perdem peso em excesso devem receber alertas para se alimentar. Como esses medicamentos suprimem o apetite de forma tão intensa — provocando até mesmo náusea —, muitos pacientes acabam ingerindo só biscoitos, em vez de refeições nutritivas.
Para a nutricionista, a perda de peso excessiva é um sinal claro de que o medicamento foi longe demais. Mas o que mais a preocupa é o que o profissional de saúde não vê: a atitude do paciente em relação ao próprio emagrecimento, dificultando qualquer intervenção até que o dano já esteja feito.
“Precisamos usar a dose que o paciente precisa”, disse ao NYT a Dra. Ania Jastreboff, diretora do Centro de Pesquisa da Obesidade de Yale e pesquisadora líder do estudo sobre a retatrutida para a Eli Lilly, publicado no The New England Journal of Medicine. Para ela, a ideia é “tratar a obesidade como faríamos com qualquer outra doença crônica”.
Remédios para emagrecer buscam abordagens centradas no paciente
Diante desse cenário, a Novo Nordisk, fabricante do Ozempic e do Wegovy, já sinalizou uma mudança de abordagem. Em um estudo de fase final com o CagriSema — que combina semaglutida e cagrilintida em dose fixa —, a empresa adotou um esquema de dosagem flexível para melhorar a tolerância dos pacientes.
Nesse modelo, se um participante não suportar os efeitos colaterais ou responder bem a uma dose menor, ele pode continuar se tratando nesse nível personalizado, sem ser excluído do estudo. A farmacêutica dinamarquesa já solicitou a aprovação do CagriSema ao FDA em dezembro de 2025 e espera obtê-la ao longo de 2026.
Também dentro dessa tendência, Maureen Chomko está trabalhando com a empresa de biotecnologia Amgen em ensaios clínicos do MariTide, novo anticorpo biespecífico para perda de peso ainda em desenvolvimento cujo diferencial é a frequência de administração: uma injeção subcutânea mensal ou menos frequente.
Nos estudos, Chomko se dedica a garantir que os participantes consumam quantidades adequadas de vitamina D, cálcio, fibras e proteínas — nutrientes que ela frequentemente observa em déficit em pacientes em uso de medicamentos para perda de peso, devido à intensa supressão do apetite que esses compostos provocam.
No Brasil, após circular brevemente em perfis clandestinos do Instagram, a retatrutida foi proibida pela Anvisa em janeiro de 2026 por ainda estar em fase de testes clínicos sem aprovação regulatória. Para a agência, produtos sem controle de qualidade, procedência ou rastreabilidade representam risco grave à saúde pública.
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