O Senado aprovou a substituição da lista tríplice pela eleição direta para reitores de universidades federais, reduzindo o poder do presidente na escolha dos dirigentes, que agora deve ser feita pela comunidade acadêmica.
A mudança foi impulsionada por reitores que se opuseram à prática do governo anterior, que frequentemente ignorava o nome mais votado nas indicações, e foi comemorada pela Andifes como um fortalecimento da autonomia universitária.
O projeto, que também inclui reajustes para servidores e reestruturação de carreiras, prevê um impacto orçamentário de até R$ 5,3 bilhões e foi aprovado após um acordo entre o governo e o Congresso para acelerar sua tramitação.
O Senado aprovou na terça-feira (10) o fim da lista tríplice para a escolha de reitores de universidades federais e estabeleceu que os dirigentes dessas instituições deverão ser escolhidos em eleição direta pela comunidade acadêmica. O texto vai à sanção do presidente Lula (PT).
LEIA TAMBÉM
Na prática, o projeto de lei reduz o poder do presidente da República, que atualmente pode escolher um dos três nomes sem ser obrigado a selecionar o mais votado pela universidade.
A mudança passou a ser reivindicada por reitores após o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) adotar uma política aberta de nomear pessoas alinhadas ideologicamente.
A proposta, relatada pelo líder do governo no Congresso, Randolfe Rodrigues (PT-AP), foi aprovada em votação simbólica, em que não há contabilização individual dos votos.
Pelo texto, os reitores e os vice-reitores eleitos por chapas de forma direta pela comunidade da universidade (professores, estudantes e servidores técnico-administrativos) deverão ser nomeados pelo presidente para um mandato de quatro anos. Eles poderão ser reconduzidos ao cargo.
O projeto define que o processo de eleição e a definição do peso do voto de cada segmento da comunidade acadêmica e, se for o caso, de representantes da sociedade civil, devem ser regulamentados por um colegiado criado para isso.
"Caberá ao colegiado homologar a eleição realizada, atestando sua regularidade, e encaminhar ao Presidente da República os nomes dos integrantes da chapa escolhida", diz o texto.
Desde 1968, a legislação determina que reitores de universidades federais sejam escolhidos pelo chefe do Executivo dentre nomes indicados pelas próprias instituições. A partir de 1995, em lei sancionada por Fernando Henrique Cardoso (PSDB), definiu-se que esses nomes constariam de uma lista tríplice.
Pela lei, o presidente tem a prerrogativa de escolher qualquer um dos nomes da lista. Em 2021, o STF (Supremo Tribunal Federal) fixou o entendimento de que não há obrigação de indicar o nome mais votado pelos colegiados das universidades.
Como mostrou reportagem da Folha, no entanto, Bolsonaro quebrou em sua gestão a tradição de escolher o indicado pela comunidade acadêmica. O ex-presidente desconsiderou o mais votado em ao menos 40% das nomeações para reitor, segundo balanço feito até 2021.
Em julho de 2023, os reitores das universidades federais apresentaram uma proposta para acabar com o fim da lista tríplice a Lula. Poucos dias após ter tomado posse, o presidente afirmou que não será ele quem vai escolher os reitores. "É a comunidade universitária que tem de saber quem pode administrar a universidade", disse na ocasião.
A Andifes (Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior), que participou da elaboração do texto levado a Lula, comemorou a aprovação do projeto no Senado.
O presidente da entidade e reitor da UFRR (Universidade Federal de Roraima), José Geraldo Ticianeli, afirmou em vídeo publicado nas redes sociais que a mudança na lei "fortalece a soberania, autonomia e democracia universitária, respeitando a escolha das nossas comunidades acadêmicas".
"Quero publicamente, em nome da Andifes, agradecer ao ministro [da Educação] Camilo Santana e toda a equipe do Ministério da Educação, ao senador Randolfo Rodrigues pela relatoria no Senado e todos os parlamentares da Câmara e Senado pela tramitação do projeto. É um momento histórico", disse.
REESTRUTURAÇÃO DE CARREIRAS
A mudança na escolha dos reitores foi aprovada no pacote com reajuste para servidores do Executivo, reestruturação de carreiras do governo federal e a criação de um instituto em Patos (PB), reduto eleitoral do presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB).
O impacto orçamentário previsto é de até R$ 5,3 bilhões para este ano.
Foram quatro projetos de lei apensados em um, todos de autoria do Executivo. Os textos haviam sido aprovados na Câmara no início de fevereiro, logo no começo das atividades legislativas, após acordo entre Casa e o governo para acelerar a aprovação.
O reajuste é concedido em um momento em que se discute o fim dos penduricalhos, tema alvo de discussão em grupo de trabalho que reúne governo, Congresso e STF. Para o líder do governo no Congresso, essa proposta não tem relação com os supersalários.
LEIA MAIS
+Lidas