Sonda da Nasa flagra “teias de aranha” em Marte; veja imagens

Publicado em 24/02/2026, às 21h48
Foto: NASA/JPL-Caltech/MSSS
Foto: NASA/JPL-Caltech/MSSS

Por Revista Galileu

O rover Curiosity da Nasa explorou formações rochosas em Marte, conhecidas como 'boxwork', que podem indicar a presença prolongada de água subterrânea no passado do planeta, com implicações para a história climática marciana.

Essas estruturas, que se assemelham a teias de aranha e se estendem por quilômetros ao redor do Monte Sharp, sugerem que um lençol freático elevado poderia ter sustentado água por períodos mais longos do que se pensava, aumentando o potencial de habitabilidade.

O Curiosity continuará sua exploração em março, avançando para áreas ricas em sulfatos, enquanto a equipe analisa amostras coletadas para entender melhor a transição de Marte de um ambiente úmido para um deserto frio.

Resumo gerado por IA

Durante cerca de seis meses, o rover Curiosity, da Nasa, explorou uma paisagem incomum em Marte que, vista do espaço, lembra uma imensa rede de “teias de aranha” espalhada pela superfície. As formações rochosas, chamadas "boxwork", distribuem-se por quilômetros ao redor do Monte Sharp e podem oferecer pistas decisivas sobre a presença prolongada de água subterrânea no passado do planeta.


Segundo comunicado compartilhado pela Nasa na última segunda-feira (23), as estruturas consistem em cristas baixas, com aproximadamente 1 a 2 metros de altura, entrecortadas por depressões arenosas. Embora existam formações semelhantes na Terra, elas raramente ultrapassam alguns centímetros e costumam aparecer em cavernas ou ambientes áridos.

A hipótese mais aceita pelos investigadores da agência espacial é de que água subterrânea tenha circulado por fraturas nas rochas, depositando minerais ao longo das fissuras. Esses minerais teriam “cimentado” determinadas áreas, tornando-as mais resistentes à erosão. Com o tempo, o vento teria desgastado o material ao redor, preservando apenas as cristas mineralizadas.

Indícios de um lençol freático elevado

A descoberta tem implicações diretas para a história climática marciana. À medida que o Curiosity sobe o Monte Sharp, uma montanha de cerca de 5 km de altura, cada camada revela registros de diferentes eras ambientais do planeta.


“Observar estruturas em forma de caixa tão acima na montanha sugere que o lençol freático devia estar bem alto”, explica Tina Seeger, da Universidade Rice, no comunicado. Segundo ela, isso indica que a água capaz de sustentar possíveis formas de vida microbiana pode ter persistido por mais tempo do que se supunha com base apenas em dados orbitais.


Embora a presença prolongada de água aumente o potencial de habitabilidade, os cientistas ressaltam que isso não significa que houve vida em Marte. Ainda assim, um ambiente que permaneceu úmido por períodos extensos seria, em tese, mais favorável ao surgimento ou manutenção de microrganismos do que um cenário de secagem rápida.

Nódulos misteriosos

Imagens orbitais anteriores já haviam identificado linhas escuras cruzando as cristas. Em 2014, pesquisadores propuseram que essas marcas seriam fraturas centrais — canais por onde a água subterrânea teria circulado. Agora, ao investigar de perto as formações, o rover Curiosity confirmou que se tratam efetivamente de fraturas, fortalecendo a hipótese original.

O rover também detectou nódulos irregulares do tamanho de ervilhas, formados por minerais deixados após a evaporação da água subterrânea bilhões de anos atrás. Essas estruturas já haviam sido registradas em outras regiões marcianas, mas sua distribuição atual surpreendeu os cientistas.


“Ainda não conseguimos explicar exatamente por que os nódulos aparecem onde aparecem”, aponta Seeger. Em vez de se concentrarem nas fraturas centrais, eles foram encontrados ao longo das paredes das cristas e nas depressões entre elas. Uma possibilidade é que as cristas tenham sido mineralizadas primeiro, e episódios posteriores de circulação de água tenham depositado os nódulos ao redor.

Busca por compostos orgânicos

Explorar a área não foi trivial. Do tamanho aproximado de um SUV e com cerca de 900 kg, o Curiosity precisou atravessar cristas pouco mais largas que o próprio veículo, além de depressões arenosas capazes de comprometer a tração.


“É quase como uma estrada que podemos percorrer de carro. Mas depois temos que descer para os vales, onde precisamos ficar atentos para que as rodas não derrapem”, explica Ashley Stroupe, engenheira do Laboratório de Propulsão a Jato da Nasa, no comunicado. “Sempre há uma solução. Só precisamos tentar caminhos diferentes.”

Como laboratório móvel, o Curiosity coletou amostras de diferentes pontos da formação: do topo de uma crista, do leito rochoso em uma depressão e de uma zona de transição antes da área principal. As análises por difração de raios X identificaram minerais de argila nas cristas e carbonatos nas depressões, fornecendo novas pistas sobre os processos geoquímicos envolvidos.


Uma quarta amostra passou por um procedimento mais complexo, conhecido como “química úmida”, no qual reagentes são adicionados após aquecimento em forno de alta temperatura. A técnica facilita a detecção de compostos orgânicos — moléculas à base de carbono essenciais para a vida como a conhecemos.

Próximos passos

Em março, o Curiosity deve deixar para trás a região de boxwork e avançar para outra área do Monte Sharp rica em sulfatos — minerais que se formam à medida que a água evapora. Segundo a Nasa, a equipe planeja continuar investigando essa camada por vários quilômetros ao longo do próximo ano, aprofundando a compreensão sobre como o antigo Marte passou de um mundo potencialmente úmido para o deserto frio que conhecemos hoje.

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