O uso de doxiciclina é feito como profilaxia pós-exposição para prevenir infecções sexualmente transmissíveis bacterianas
O Brasil passou a adotar uma nova estratégia para tentar conter o avanço das infecções sexualmente transmissíveis (ISTs). O Sistema Único de Saúde (SUS) começou a oferecer a profilaxia pós-exposição com o antibiótico doxiciclina, conhecida internacionalmente como DoxyPEP, para reduzir o risco de infecções como sífilis e clamídia após situações consideradas de risco.
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A estratégia já vinha sendo estudada e utilizada em alguns países e agora passa a integrar as ferramentas de prevenção disponíveis no sistema público brasileiro. Ao mesmo tempo em que a iniciativa é vista como um avanço por parte da comunidade científica, ela também levanta dúvidas entre a população. Por isso, o infectologista Daniel Paffili Prestes explica os principais pontos da nova estratégia e os cuidados necessários para que ela seja utilizada de forma segura. Confira!
A profilaxia pós-exposição é uma estratégia médica utilizada após uma situação de risco, com o objetivo de reduzir a chance de uma infecção se estabelecer no organismo. No caso das ISTs bacterianas, a pessoa utiliza uma dose de 200 mg de doxiciclina até 72 horas após a exposição sexual.
Segundo o infectologista Daniel Paffili Prestes, a lógica é semelhante a outras estratégias preventivas já utilizadas na medicina. “A profilaxia pós-exposição consiste em usar o medicamento logo após uma situação de risco, antes que a bactéria consiga se estabelecer no organismo. A doxiciclina impede a multiplicação de alguns microrganismos responsáveis por infecções sexualmente transmissíveis. A ideia não é substituir o preservativo, mas adicionar mais uma ferramenta dentro de um conjunto de estratégias de prevenção”, explica.
A estratégia é direcionada principalmente a infecções bacterianas específicas. “A doxiciclina tem ação contra algumas bactérias associadas às ISTs. Por isso, o foco dessa estratégia está principalmente na prevenção da sífilis e da clamídia”, explica o infectologista.
Estudos clínicos internacionais demonstram que a DoxyPEP pode reduzir mais de 70% dos casos de sífilis e clamídia, além de diminuir cerca de 50% das infecções por gonorreia em populações de maior risco. No entanto, o antibiótico não protege contra infecções virais, como HIV, HPV ou herpes.
Uma das dúvidas mais comuns diz respeito ao acesso ao medicamento dentro da rede pública de saúde. Segundo o especialista, a estratégia não deve ser utilizada de forma indiscriminada. “O uso da profilaxia com doxiciclina segue critérios médicos bem definidos. Ela é indicada em situações específicas de maior risco e precisa ser avaliada por um profissional de saúde. Não é um medicamento para uso rotineiro ou sem orientação”, alerta.
Na prática, a recomendação costuma ser direcionada a populações com maior exposição a ISTs, sempre dentro de acompanhamento médico.

Nos últimos anos, vários países registraram aumento significativo nos casos de sífilis e outras ISTs bacterianas, o que tem preocupado autoridades sanitárias. Para Daniel Paffili Prestes, ampliar as ferramentas de prevenção pode ajudar a reduzir esse cenário.
“Em saúde pública, normalmente não existe uma única solução. O controle das ISTs depende de múltiplas estratégias: testagem regular, tratamento rápido, vacinação quando disponível, educação em saúde e métodos de prevenção. A profilaxia pós-exposição surge como mais uma ferramenta que pode ajudar a reduzir a transmissão em determinados contextos”, afirma.
Com a divulgação da estratégia, especialistas também alertam para o risco da automedicação. “O uso de antibióticos sem orientação médica é sempre preocupante. Isso pode causar efeitos adversos, mascarar sintomas e favorecer o uso inadequado do medicamento”, afirma o infectologista. Além disso, o uso incorreto pode comprometer a eficácia da estratégia.
A resistência antimicrobiana é considerada hoje uma das principais ameaças à saúde global. Por isso, o uso da DoxyPEP precisa ser acompanhado com cautela. “O uso de antibióticos sempre exige equilíbrio entre benefício e risco. Estratégias como essa precisam ser monitoradas de perto para evitar o aumento da resistência bacteriana. Por isso, a indicação deve ser criteriosa e acompanhada por profissionais de saúde”, esclarece o profissional.
Mesmo com o novo protocolo, os métodos tradicionais de prevenção continuam sendo essenciais. “O preservativo ainda é uma das formas mais eficazes de reduzir a transmissão de ISTs. A profilaxia com doxiciclina deve ser entendida como uma camada adicional de proteção, e não como substituta das medidas de prevenção já conhecidas”, afirma o médico.
Por fim, segundo Daniel Paffili Prestes, a prevenção ideal envolve informação, testagem regular, vacinação e acompanhamento médico.
Por Sarah Carvalho
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