A cidade de Narva, na Estônia, se tornou um ponto de tensão entre a Estônia e a Rússia após a invasão da Ucrânia, com uma população majoritariamente de língua russa que se sente dividida entre duas identidades. O governo estoniano respondeu restringindo direitos políticos e implementando reformas educacionais para fortalecer a identidade nacional.
A população de Narva, que vive um alto desemprego e aumento das contas de energia, expressa preocupações sobre discriminação e identidade, refletindo um clima de insegurança e nostalgia pelo passado soviético. A presença militar russa e as críticas do Kremlin ao governo estoniano intensificam as tensões na região.
Em resposta à situação, a Estônia tem reforçado suas defesas, mobilizando suas forças armadas e contando com o apoio de soldados da OTAN. A travessia entre os dois lados do rio Narva, antes um símbolo de amizade, agora é marcada por barreiras físicas e um clima de desconfiança crescente.
Separados pelo Rio Narva, dois castelos medievais transformados em fortalezas militares se encaram.
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O rio separa a Estônia da Rússia e passou a ser uma das fronteiras mais tensas do mundo após a invasão da Ucrânia pelas forças russas em 2022.
Narva, na Estônia, pode ser vista como um símbolo de tudo o que Vladimir Putin almeja. Boa parte da população da cidade com 50 mil moradores só fala russo e tem cidadania do país vizinho. Elas assistem à televisão russa e são nostálgicos em relação ao passado soviético. Para completar o cenário de tensões, a Rússia critica regularmente o governo estoniano.
Em nome da segurança nacional, o governo estoniano resolveu se antecipar e retirou o direito de voto de russos e residentes apátridas nas eleições locais e estão implementando o ensino em estoniano em dezenas de escolas de Narva. Essas reformas, combinadas com o alto desemprego, o aumento das contas de energia, o colapso das relações com a Rússia e o medo de conflitos, intensificaram as tensões na fronteira.
"Nós, falantes de russo, estamos sendo discriminados", disse uma mulher de cerca de 55 anos em Narva, sob condição de anonimato por medo de represálias.
Aleksandr Gruljov, um operário da construção civil de 59 anos, disse estar até considerando renunciar à cidadania russa.
"Ninguém está oprimindo ninguém aqui", acrescentou ele.
Vladimir Aret, gerente de hotel de 32 anos e membro do conselho municipal, disse que muitos em Narva se sentem presos entre dois mundos.
"Sou europeu, mas às vezes brincamos que não entendemos o que é nossa pátria", disse ele, que se considera um patriota estoniano.
A maior parte da Cidade Velha, com estilo barroco, foi destruída durante a Segunda Guerra Mundial. A área deu lugar aos tradicionais blocos de prédios residenciais ao estilo soviético Após o fim do conflito, a região, sob o domínio de Moscou, tornou-se predominantemente de língua russa. Trinta e cinco anos após a Estônia conquistar a independência, Narva ainda debate a sua identidade. Essa questão pode ser um combustível para Putin, que tenta liderar a Mãe Rússia para as fronteiras delineadas pelo Império Soviético, um dos vitoriosos contra o nazismo. Onde há forte presença russa é lá onde Moscou tem que estar, defende o Kremlin.
Outrora um símbolo de cooperação, a "Ponte da Amizade", que liga as duas margens foi reforçada com fileiras de arame farpado e obstáculos antitanque em forma de "dentes de dragão" no lado estoniano.
"O nome (da ponte) é meio irônico", disse Eerik Purgel, chefe da fronteira regional estoniana, à agência France Presse. "Talvez não devesse haver ponte nenhuma", emendou ele.
Antigamente, as pessoas faziam fila em carros para atravessar o rio Narva a fim de fazer compras e visitar parentes na Rússia. Mas hoje a travessia está fechada ao tráfego e os viajantes carregam suas bagagens a pé.
Desde a invasão russa da Ucrânia em 2022, a Estônia — juntamente com as nações bálticas Letônia e Lituânia — reforçou suas defesas.
O exército da ex-república soviética é pequeno. O Ministério da Defesa afirma que uma força de pouco menos de 44 mil combatentes pode ser mobilizada para defender o país, se necessário, juntamente com cerca de 2.000 soldados de países aliados da Otan presentes no país.
"Aqui, na periferia da Europa, a guerra parece diferente. Vemos a Rússia do outro lado da fronteira todos os dias", disse a prefeita de Narva, Katri Raik.
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