Vagas de babás de luxo, como a de Virginia, exigem graduação e disponibilidade para viajar

Publicado em 10/04/2026, às 15h14
Reprodução/Redes sociais
Reprodução/Redes sociais

Por Redação

A oferta de R$ 18,5 mil para uma babá pela influenciadora Virginia Fonseca destaca o crescimento do mercado de babás de luxo, que exige formação técnica e disponibilidade para viagens internacionais, refletindo uma nova abordagem das famílias ricas em relação à criação dos filhos.

O setor de cuidados cresceu significativamente após a pandemia, com um aumento de 48% no número de vínculos de babás entre 2015 e 2024, enquanto o total de trabalhadores domésticos caiu, indicando uma mudança nas dinâmicas de trabalho nesse segmento.

Apesar da valorização em nichos de alto padrão, a remuneração média das babás ainda é baixa e não acompanha o crescimento do mercado, levando profissionais a buscar apoio e informações sobre seus direitos trabalhistas, evidenciando a necessidade de melhorias nas condições de trabalho.

Resumo gerado por IA

A oferta de um salário de R$ 18,5 mil para uma babá pela influenciadora Virginia Fonseca chamou atenção nas redes em março e evidenciou um mercado de babás de luxo, com exigências que envolvem graduação em enfermagem e disponibilidade para viagens internacionais.

A nova funcionária substituiria a anterior, conhecida como Tia Vil, que deixou o posto recentemente para tratar de questões pessoais. Em entrevista por meio de sua assessoria, ela afirma que a atuação nesse segmento exige preparo técnico e equilíbrio emocional.

"As famílias buscam alguém em quem possam confiar de forma integral", disse ela, que também é mãe de dois filhos. Procurada, a assessoria de Virginia não respondeu.

Algumas empresas especializadas já miram o setor há algum tempo. Dona de casa e mãe de três filhos, a empresária Bia Greco, 45, resolveu criar, há 15 anos, uma plataforma para capacitar e selecionar babás para famílias de alto padrão.

"Nosso nicho é o mercado de luxo. São profissionais com formação e preparo técnico, muitas vezes com formação em enfermagem, pedagogia ou outras áreas", disse. A empresa cobra das famílias, como taxa de intermediação, o equivalente a um mês de salário da profissional selecionada.

"É uma casa de alta exposição. É um momento de vida em que a profissional abre mão de muita coisa, com retorno financeiro maior", afirma Greco, que se refere às babás como gestoras infantis.

Para especialistas, salários cada vez mais altos estão ligados a uma mudança na forma como pais de alta renda encaram a criação dos filhos.

"As famílias passaram a tratar os filhos como extensão do próprio lifestyle [estilo de vida] e, principalmente, do seu projeto de futuro", afirma a consultora em luxo Gabriela Otto, CEO da GO Consultoria e presidente da HSMAI Latam, associação do setor de hotelaria.

Segundo ela, há um investimento crescente também em educação internacional, experiências culturais, esportes profissionais e viagens com propósito, o que amplia as exigências sobre essas profissionais.

Esse movimento ocorre em paralelo à expansão do próprio setor de cuidados. Jefferson Mariano, analista socioeconômico do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), aponta que o mercado de cuidadoras cresceu muito no pós-pandemia, acompanhando a alta dos serviços pessoais ligados à saúde. "A perspectiva de crescimento é bastante significativa", disse.

Dados do MTE (Ministério do Trabalho e Emprego) mostram que, de 2015 a 2024, a quantidade de vínculos de babás aumentou de 82,5 mil para 122,8 mil (48%), enquanto o total de vínculos para trabalhadores domésticos (faxineiros, cozinheiros, cuidadores, motoristas etc.) diminuiu de 1,64 milhão para 1,34 milhão (20%).

VALORIZAÇÃO NÃO É PARA TODOS

Apesar da expansão, os salários médios da categoria não acompanham o padrão observado no segmento de luxo. Entre 2020 e 2024, a remuneração média das babás subiu de R$ 1.607,67 para R$ 1.732,15 (7%). O aumento é inferior ao registrado no conjunto do trabalho doméstico (8,6%, de R$ 1.676,64 a R$ 1.821,14) e, muitas vezes, ainda ocorre em condições de informalidade.

Relatos de profissionais do mercado tradicional mostram que o trabalho frequentemente extrapola as funções previstas. Foi o caso de Mariana Senna, 32, que começou sua carreira como babá há quatro anos em uma residência de alto padrão na região de Alphaville, na Grande São Paulo.

Era sua primeira experiência na área. Contratada para cuidar de três crianças, Mariana acabou sendo chamada para cobrir a ausência de outra funcionária em um fim de semana, mesmo estando doente.

"Eu falei para ela que não consigo ficar, porque estava com gripe. E ela disse: 'Você pode ficar aí, que eu compro o remédio para você'. Eu, boba, besta, fiquei, porque eu tava precisando do dinheiro. Mas ela não comprou a medicação. Eu tomei um remédio que a cozinheira deixou para mim", conta.

Segundo Mariana, situações de acúmulo de função e pressão eram recorrentes. Em outra ocasião, relata ter passado dias se alimentando com sobras de comida durante um evento no condomínio. "Para mim, era tudo novo. Eu não sabia como funcionava, não conhecia meus direitos", diz.

Experiências como essas levaram Mariana a buscar mais informações sobre a profissão e a legislação trabalhista, até que ela resolveu criar um grupo de apoio para outras profissionais, o Conexão Babás.

"Muitas delas não sabem os seus próprios direitos. Salário, jornada, décimo terceiro, férias, adicional noturno, seguro desemprego. Juntando os grupos do WhatsApp, somos em torno de 5.000 mulheres. Tem profissionais que recebem R$ 4.000, mas tem muitas que recebem um salário mínimo", conta.

"Eu estou com um caso em que a mulher trabalha há 16 anos na casa. O salário dela é R$ 1.560", diz. O salário mínimo atual é R$ 1.621.

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