Pesquisadores da Universidade de St Andrews documentaram, pela primeira vez, baleias-cachalote dando cabeçadas umas nas outras, confirmando relatos históricos de marinheiros do século 19 sobre esse comportamento, que pode ter implicações na dinâmica social desses animais.
O estudo, realizado entre 2020 e 2022 com o uso de drones, revelou que as cabeçadas são realizadas principalmente por jovens cachalotes, desafiando a crença anterior de que apenas machos adultos participavam desse comportamento.
Os autores destacam a necessidade de mais observações para entender a função das cabeçadas e sugerem que o uso de drones pode facilitar a descoberta de novos comportamentos entre as baleias, ampliando o conhecimento sobre suas interações sociais.
Pesquisadores da Universidade de St Andrews, na Escócia, documentaram baleias-cachalote dando cabeçadas umas nas outras, capturando o raro momento em vídeo e descrevendo-o cientificamente pela primeira vez.
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O comportamento registrado ajudou a confirmar relatos antigos de marinheiros do século 19 que afirmavam que os cachalotes usavam suas cabeças para empurrar e golpear objetos, às vezes até afundando navios.
Com o uso de drones, os pesquisadores conseguiram registrar, além das cabeçadas, as interações sociais dos animais ao redor dos Açores, em Portugal, e das Ilhas Baleares, na Espanha, entre 2020 e 2022. O estudo, feito em colaboração com a Universidade dos Açores e a Associação Tursiops, foi publicado nesta segunda-feira (23) na revista Marine Mammal Science.
As descobertas da pesquisa também revelaram que as baleias-cachalote mais jovens eram as responsáveis pelas cabeçadas, e não os machos adultos, como se pensava anteriormente. Isso levantou novas questões sobre a finalidade desse comportamento e como ele pode influenciar a dinâmica do grupo e a estrutura social.
“Foi realmente emocionante observar esse comportamento, que sabíamos que havia sido hipotetizado há muito tempo, mas ainda não documentado e descrito sistematicamente”, disse Alec Burslem, autor principal do estudo, em comunicado.
Abaixo, assista ao vídeo do momento em que baleias-cachalote dão cabeçadas uma na outra:
Os autores afirmam que são necessárias mais observações para entender por que as baleias-cachalote exibem esse comportamento. Espera-se que o uso crescente de drone facilite o estudo dessas interações, além de outros comportamentos ainda não vistos perto da superfície do oceano.
Alguns estudiosos sugerem que as cabeçadas podem ter se originado a partir de disputas físicas entre os cachalotes, possivelmente ligadas à competição entre machos. Para outros, o uso da cabeça como arma regularmente seria arriscado, já que poderia danificar estruturas cranianas essenciais para a produção de sons usados na ecolocalização e na comunicação desses animais.
Ataque inspirou obra famosa
Histórias de cachalotes usando suas cabeças para golpear objetos vêm da época em que se caçava baleias em barcos abertos, no século 19. Um dos ataques mais conhecidos envolveu o navio baleeiro Essex, em 1820. A embarcação de 27 metros movida a vela afundou após ser atingida duas vezes de frente por um grande cachalote macho nas águas próximas às Ilhas Galápagos.
O evento atraiu grande atenção na época e acabou servindo de inspiração para o clássico romance “Moby Dick”, do autor Herman Melville. Na obra, a baleia branca que dá nome ao livro ataca e afunda o navio baleeiro Pequod. Relatos semelhantes de ataques de cachalotes a navios baleeiros incluem o naufrágio do Ann Alexander em 1851, ano de publicação de “Moby Dick”, e do Kathleen em 1902.
Para Burslem, observar e registrar comportamentos de baleias-cachalote perto da superfície a partir de uma visão aérea é só uma das formas como os drones estão mudando o estudo da vida selvagem.
“É empolgante pensar em quais comportamentos ainda não vistos poderemos descobrir em breve, bem como em como mais observações de cabeçadas podem nos ajudar a esclarecer as funções que esse comportamento pode desempenhar”, concluiu o pesquisador.
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