Vorcaro bancou modelos com jatinhos e hotéis de luxo para cortejar elite política

Publicado em 08/04/2026, às 12h33
Imagem Vorcaro bancou modelos com jatinhos e hotéis de luxo para cortejar elite política

Por Folha de São Paulo

Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, organizou eventos luxuosos com a presença de mulheres de diversas nacionalidades, incluindo brasileiras, para atrair autoridades políticas, o que levanta questões sobre corrupção e exploração sexual.

As festas, que contaram com infraestrutura elaborada e gastos exorbitantes, foram realizadas em locais como Trancoso e em eventos de Fórmula 1, com a participação de modelos internacionais e artistas, evidenciando uma rede de contatos entre o setor privado e o público.

As investigações da Polícia Federal estão em andamento, e especialistas alertam que a oferta de serviços sexuais a autoridades pode ser considerada propina, além de destacar a necessidade de averiguar as condições das mulheres envolvidas e o impacto cultural dessas práticas no ambiente político.

Resumo gerado por IA

Não é lenda urbana. Uma parte importante do negócio de Daniel Vorcaro, quando dono do Banco Master, foi investir em eventos para autoridades da República com muitas mulheres —e é fato que havia moças de Rússia, Ucrânia, Lituânia, Holanda, México e Venezuela, para citar exemplos de nacionalidades.

Cruzando entrevistas, postagens em redes sociais e documentos da PF (Polícia Federal), a Folha identificou 20 dessas mulheres que participaram de festas, 14 com perfis públicos no Instagram. Procuradas pela reportagem, elas não comentaram sobre os eventos nem sobre Vorcaro.

Havia também brasileiras. Entre elas, algumas deixaram estados como o Rio Grande do Sul e Santa Catarina em busca de oportunidades e contatos para ascender profissionalmente e acabaram aceitando a oferta de apoio financeiro da equipe de Vorcaro para ficar à disposição dos eventos.

A importância desses encontros para Vorcaro e a razão da presença dessas mulheres foram definidas por ele à então noiva, Martha Graeff, durante uma discussão. Graeff estava indignada porque ele mantinha contato na rede social com mulheres que ela considerava "putas".

"Fazia parte do meu 'business'. Nunca te escondi o que fiz, e por que fiz. Fiz festa com 300 desse tipo", escreveu Vorcaro, em uma troca de mensagens datada de 18 de agosto de 2025, levantada pelas investigações em um dos celulares do ex-banqueiro.

Segundo entrevistas feitas pela reportagem com 17 executivos que foram a algum desses eventos ou ouviram relatos de quem frequentou, o mencionado "business" foi bem estruturado.

Como a Folha mostrou, Vorcaro organizou infraestrutura, equipe e logística para que seus encontros pudessem ocorrer em dias úteis à margem de eventos oficiais no Brasil e no exterior, já que seu público-alvo eram políticos e outras autoridades que precisavam retornar às suas bases e famílias nos finais de semana.

Procurada, a defesa de Vorcaro informou que não se manifestaria sobre o tema.

Muitas das modelos mantêm contato com o promotor de eventos Diogo Batista e a influencer Karolina Trainotti. Batista era visto com frequência nos hotéis de luxo Unique e Rosewood, em São Paulo.

A reportagem da Folha mostrou que Batista fazia a ponte com as modelos e participava da organização dos eventos até 2024, quando teve um desentendimento com Vorcaro. Parte do trabalho, então, foi transferida para Trainotti —a mesma que recebeu um apartamento de quase R$ 4,4 milhões, em São Paulo, da Super Empreendimentos, empresa ligada a Vorcaro e investigada pela PF.

Ambos foram procurados pela reportagem e não se manifestaram.

NOITE INDÍGENA EM TRANCOSO

As primeiras notícias sobre as festas de Vorcaro citavam eventos em Trancoso, na Bahia. Detalhes de um deles foram parar em um processo judicial sobre questões imobiliárias. Vorcaro queria discrição e alugou a casa em nome de um terceiro. A festa, porém, ficou famosa por causa do excesso de gente, barulho e avarias, que ele precisou pagar. Os convidados quebraram copos, taças, a luminária de uma das suítes e até uma cobra de madeira maciça, usada na decoração.

A Folha localizou imagens dessa festa, que ocorreu em outubro de 2022, às vésperas do aniversário do ex-banqueiro. Modelos ficaram alguns dias na casa, mas a comemoração ocorreu na terça e na quarta-feira, dias 4 e 5.

A reportagem apurou que estrangeiras vieram ao Brasil em voos de primeira classe, passaram aproximadamente um mês no país, hospedadas em endereços caros, como o hotel Rosewood, e uma casa em Joá, no Rio de Janeiro —tudo pago pelo ex-banqueiro, como mostram os orçamentos coletados pelas investigações da PF. Depois de chegar ao Brasil, elas usaram como transporte aeronaves de Vorcaro. Em Trancoso, foi utilizado o aeródromo privado Terravista. Os aviões foram fotografados e filmados por essas convidadas.

Houve dança e performance com tochas, DJ e banda de MPB e pagode com apresentação da cantora e atriz Emanuelle Araújo, que agora está no ar na novela "A Nobreza do Amor", na Globo. Procurada, a assessoria de imprensa da cantora diz que faz muito tempo, e ela não se recorda da festa. A decoração foi inspirada na Amazônia. Os convidados receberam cocares de índio para entrarem no clima. Há uma cena em que Vorcaro aparece dançando com um desses adereços.

O promotor de eventos Diogo Batista foi vestido de índio dos Estados Unidos e passou o mês acompanhando as convidadas.

BELDADES NO HALLOWEEN E NA F1

O número de mulheres foi especialmente elevado na semana que antecedeu o GP de Fórmula 1 no Brasil, em 2023, segundo relatos feitos à Folha. O Master foi um dos patrocinadores da equipe Aston Martin Aramco, por isso, tinha acesso a áreas VIP e à estrutura da equipe para receber convidados durante as corridas.

Recentemente, uma das mulheres que participaram dos eventos ganhou projeção nas redes sociais do Brasil: a russa que aparece nos contatos da agenda de Vorcaro como "My Future Wife". Diante da repercussão na internet, ela fez uma postagem que viralizou, agradecendo o carinho do Brasil. A Folha fez contato com ela pelo Instagram, mas não obteve resposta.

A corrida ocorreu no domingo, 5 de novembro, e foi antecedida por uma festa de Halloween, na virada de terça, 31 de outubro, para quarta, 1º de novembro, que também serviu como comemoração tardia de aniversário de Vorcaro. O detalhado orçamento do evento foi de US$ 4,5 milhões, ou R$ 22,5 milhões na cotação da época, apontam os documentos da PF.

A complexa logística para trazer ao Brasil modelos e DJs famosos incluiu transfers em Verona, na Itália, Barcelona, na Espanha, e Santa Bárbara, nos EUA. Além dos voos, havia registro de uma passagem de ônibus de Kiev, capital da Ucrânia, para Varsóvia, na Polônia, indicando que entre os participantes estava alguém que atravessou a guerra na Europa.

O buffet da festa de Halloween para 190 convidados abarcou refeições internacionais e comida japonesa, das 22h às 6h. Um lote de 180 garrafas contava com champagne Dom Pérignon, além de tequila, gin e vodca premium.

Nos documentos, há também a descrição de despesa para um grupo VIP, com três concierges, dois mordomos e dois seguranças exclusivos. O gasto ainda incluiu a locação de carros blindados com motoristas por cinco dias, sinalizando que seriam utilizados para além da data da festa.

HOTÉIS DE LUXO E BARES FECHADOS

Além de eventos esporádicos, houve pontos de encontro mais usuais. Foram montados bares exclusivos na sede do Master, no Itaim Bibi, e no escritório da Titan, holding do grupo, que ficava no Edifício Birmann 32, mais conhecido como prédio da Baleia, na avenida Faria Lima, por causa da escultura do mamífero na entrada.

Hotéis de alto padrão também foram utilizados. No Fasano do Itaim Bibi, em São Paulo, que chegou a pertencer ao grupo Master, havia uma área exclusiva para receber convidados com mais discrição e quartos para quem quisesse relaxar. Pessoas próximas ao Master afirmam que Vorcaro também custeou quartos para políticos.

Muitas dessas mulheres passaram pelos hotéis Unique e Rosewood —o mais utilizado para recepcionar modelos internacionais.

As assessorias de imprensa do Hotel Fasano, do Itaim Bibi, Rosewood São Paulo e Unique não comentam sobre hóspedes.

OFERTA DE SEXO PAGO É PROPINA

Após três fases das Operações Compliance Zero, não se tem confirmação oficial de quais autoridades frequentaram eventos com mulheres, nem se de fato foram gravadas, apesar dos comentários de que há imagens de mulheres sem roupa nos equipamentos apreendidos. Também não há evidências sobre a conduta que elas tiveram nas festas, nem se houve sexo.

Um executivo com trânsito em Brasília afirmou à Folha que um grupo de investigadores até defende que as cenas são irrelevantes para um caso que trata de uma bilionária fraude financeira, mas especialistas discordam.

O senso comum espalhou a ideia de que sexo é uma questão de fórum íntimo. Se os envolvidos são dos setores público e empresarial, a esfera da discussão é outra.

As leis anticorrupção dos Estados Unidos, do Reino Unido e também do Brasil não tratam do tema especificamente. No entanto, já se convencionou que oferta de serviço sexual pago a autoridade é propina. A prática equivale a pagamento em dinheiro.

"Antigamente, se considerava que corrupção envolvia pagamento de valor financeiro ou entrega de bem material, mas a legislação evoluiu e adotou a interpretação de 'vantagem indevida', bem mais abrangente —e oferta de sexo nesse tipo de festa com certeza se enquadra nisso", diz o advogado Guilherme Fance, gerente de Pesquisa e Advocacy da Transparência Internacional no Brasil.

Em paralelo, a despesa com sexo tende a ser tipificada como fraude contábil, já que não é registrada oficialmente nas contas de uma empresa.

Quem acompanha temas como exploração sexual reforça que é importante saber a condição das mulheres que participaram dessas festas.

"Mulheres adultas podem escolher como fazer sexo, e prostituição não é crime. Mas nesse caso é importante saber se houve ou não a participação de menores de idade, pois sexo com menor de 14 anos é estupro, com meninas de 14 a 18, exploração sexual", diz a advogada Luciana Temer, professora da Faculdade de Direito da PUC-SP e presidente do Instituto Liberta.

Se for comprovado oficialmente que houve uso de prostituição para Vorcaro se aproximar de autoridades e se beneficiar disso, configura-se outro crime, rufianismo, ou cafetinagem: explorar a prostituição alheia, lucrando diretamente com ela ou sustentando-se, no todo ou em parte, à custa de quem a exerce.

Os especialistas alertam ainda que, se as festas de Vorcaro de fato atraíram tantos homens que estão em cargos públicos importantes, elas sinalizam um retrocesso cultural. Segundo eles, em muitos círculos, o entretenimento sexual com luxo é usado como um mecanismo de networking masculino, com o objetivo de estreitar laços de lealdade. Quando esse tipo de moeda de troca é utilizado por autoridades de Estado, contribui para reduzir o peso das mulheres nos espaços de poder.

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