Em 2026, o Brasil vive uma grande discussão em relação ao regime de trabalho 6×1. Enquanto alguns desejam que seja dado fim a esse tipo de escala, na qual o trabalhador precisa atuar durante seis dias para ter um de descanso na semana, já há grandes redes de supermercados e farmácias que adotaram a escala 5×2.
Empresas antecipam uma mudança que ainda depende do Congresso
A adoção do modelo 5×2 pelas empresas ocorre em um momento no qual o Congresso Nacional discute justamente a transformação da jornada de trabalho no país. Em maio, a Câmara dos Deputados aprovou, em dois turnos, a PEC 221/2019, estabelecendo jornada máxima de 40 horas semanais distribuídas em cinco dias, com dois dias de descanso.
O texto recebeu 461 votos favoráveis e 19 contrários no segundo turno. Agora, a proposta está sendo analisada pelo Senado, onde o debate avançou para a Comissão de Constituição e Justiça. A aprovação definitiva, porém, ainda depende da tramitação e das votações previstas para uma Proposta de Emenda à Constituição.
No entanto, as empresas não precisam esperar uma mudança constitucional para reorganizar suas próprias jornadas. Elas podem adotar políticas internas diferentes das atualmente praticadas, desde que respeitem a legislação trabalhista vigente. É justamente nesse espaço que algumas companhias do varejo começaram a experimentar a escala 5×2.
RD Saúde levou o modelo para as lojas de Raia e Drogasil
Conforme noticiado pelo portal Tempo Novo, um dos casos de maior alcance está na RD Saúde, companhia responsável pelas redes Droga Raia e Drogasil. A empresa passou a utilizar a escala 5×2 em suas mais de 3,5 mil farmácias no país.
A mudança começou de maneira mais restrita e, posteriormente, foi ampliada para a operação das lojas. O objetivo inicial estava relacionado principalmente à retenção de profissionais e à dificuldade de manter trabalhadores em determinadas funções do varejo farmacêutico.
Existe, porém, uma diferença importante entre essa experiência e o que está sendo discutido na PEC. A adoção do 5×2 pela RD Saúde não significa, necessariamente, que a empresa já tenha reduzido a jornada semanal para 40 horas. No modelo implementado, a distribuição dos dias de trabalho foi modificada, enquanto a carga semanal permaneceu em 44 horas.
Ou seja, o funcionário passou a contar com dois dias de descanso, mas isso não representa automaticamente a redução de quatro horas semanais prevista na proposta que tramita no Congresso.
Supermercados também começam a mudar
No setor supermercadista, a movimentação ocorre de forma semelhante. Os Supermercados Pague Menos, que não têm relação com a rede de farmácias que possui o mesmo nome, já utilizam a escala 5×2 em parte de suas unidades e vêm ampliando a adoção do modelo.
A rede possui dezenas de lojas e atua principalmente no interior de São Paulo. Nesse caso, a implementação acontece de maneira gradual, permitindo que a empresa avalie como a mudança interfere na organização das equipes e no funcionamento das unidades.
Outras redes também passaram a testar formatos diferentes de jornada. Entre elas estão Savegnago e Supernosso, que identificaram efeitos relacionados à contratação e à permanência dos funcionários.
Esse ponto ajuda a explicar por que o assunto ganhou espaço no varejo. Supermercados e farmácias dependem de grandes equipes para manter lojas abertas durante praticamente toda a semana. Quando existe dificuldade para preencher vagas ou quando a rotatividade aumenta, a empresa precisa gastar mais tempo e recursos para contratar e treinar novos funcionários.
Dessa forma, oferecer dois dias de descanso pode funcionar também como uma estratégia de gestão de mão de obra.
Por que a escala 5×2 pode interessar às empresas?
Embora a discussão seja frequentemente apresentada apenas como uma mudança nas condições de trabalho, o impacto para as empresas é mais amplo.
Levantamentos com varejistas que experimentaram o modelo indicam que a escala 5×2 pode facilitar a atração de candidatos e contribuir para diminuir a rotatividade. Em algumas operações, também foram observadas reduções em faltas e em despesas associadas ao deslocamento dos funcionários.
Isso acontece porque a jornada passa a oferecer uma rotina mais previsível e dois períodos de descanso durante a semana. Para o trabalhador, o ganho está principalmente na possibilidade de organizar melhor compromissos pessoais e períodos de recuperação física.
Para a empresa, por outro lado, existe um efeito operacional que precisa ser calculado: quanto mais dias de descanso cada funcionário recebe, maior pode ser a necessidade de distribuir as equipes de outra maneira para manter a mesma quantidade de horas de funcionamento.





