Ele tem 77 anos, sobreviveu a dois transplantes de fígado e acumula mais de 600 corridas na carteira de atleta. Aposentado e morador de São Paulo, Alberto Domínguez, é uma das figuras mais reconhecidas nos circuitos de corridas de rua da cidade e usa cada largada para levantar a bandeira da doação de órgãos.
Como tudo começou
O primeiro transplante de fígado aconteceu no início dos anos 2000, quando ele foi diagnosticado com cirrose hepática. A cirurgia salvou a vida, mas anos depois o órgão transplantado apresentou complicações que levaram a uma segunda intervenção. Na recuperação, os médicos indicaram a caminhada como parte da reabilitação, mas ele foi além.
A primeira prova de corrida veio ainda no mesmo ano da segunda cirurgia. O que era parte do protocolo médico virou rotina, e a rotina virou presença garantida nos circuitos de final de semana.
Segundo o atleta relatou ao jornal O Globo, cada corrida passou a funcionar como uma forma de agradecer ao doador que não conheceu e de mostrar a outros transplantados que a limitação depois da cirurgia é menor do que parece.
Mais de 600 provas depois
Hoje ele participa de corridas de 5 km, 10 km, meias maratonas e maratonas, assim integra a Liga de Atletas Transplantados do Brasil, movimento que reúne pessoas que receberam novos órgãos e encontraram no esporte uma forma de divulgar a importância da doação.
Nas corridas, usa camisa que identifica sua condição de transplantado e gera conversas com outros participantes que muitas vezes nunca tinham parado para pensar no assunto.
O número de 600 provas é resultado de mais de uma década de participação constante. Ele mantém medicação imunossupressora pelo resto da vida, protocolo obrigatório para evitar rejeição em pacientes transplantados, mas isso nunca o impediu de cruzar uma linha de chegada.
Transplante e qualidade de vida
Segundo a Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO), a maior parte dos transplantados pode retornar a atividades rotineiras após o período de recuperação, o que inclui trabalho, viagens e esportes de resistência.
No Brasil, mais de 6 mil transplantes de órgãos sólidos são realizados por ano. O número seria maior se a fila de espera fosse mais curta: dezenas de milhares de pacientes aguardam por um órgão compatível em todo o país. Para esse corredor de 77 anos, cada prova é também uma campanha silenciosa, com dois propósitos que ele leva juntos para a linha de chegada.





