Uma equipe liderada pelo geólogo Luca Bindi, da Universidade de Florença, encontrou em uma partícula formada pelos resíduos da bomba atômica de Hiroshima uma liga metálica que não corresponde a nenhum material industrial conhecido. O estudo foi publicado na revista Science Advances e se baseia na análise de 34 amostras de um material chamado hiroshimaite.
Hiroshimaites são partículas formadas em 6 de agosto de 1945, quando a bomba Little Boy explodiu a 600 metros do solo sobre a cidade. As temperaturas geradas pela explosão superaram 7.000°C, vaporizando metais, vidro, solo, concreto e materiais de construção.
Ao se condensar e esfriar rapidamente, esse vapor formou microesferas que preservam, em estado sólido, um registro das condições extremas do evento. Essas partículas têm sido estudadas desde os anos 1980 como registro geoquímico do bombardeio.

O fragmento que chamou atenção
Ao examinar as 34 amostras, os pesquisadores encontraram vários fragmentos microscópicos de uma liga rica em ferro e cromo, composição esperada para o contexto. Um dos grãos, com cerca de 10 micrômetros, apresentou uma quantidade muito maior de silício do que as partículas vizinhas.
Para investigar a estrutura interna, a equipe retirou quatro grãos com pequenas agulhas e aplicou difração de raios X de cristal único em cada um.
Três dos grãos mostraram a estrutura cúbica de corpo centrado, típica do aço comum. O quarto, o rico em silício, apresentou uma estrutura cúbica muito mais complexa, conhecida como estrutura do tipo AlAu4, derivada do beta-manganês. Além do silício, sua composição incluía cromo, níquel, molibdênio, manganês e alumínio.
A combinação dessa composição química com esse arranjo cristalino não foi encontrada em nenhuma liga industrial ou em produtos de explosões anteriormente identificados.
Como a liga pode ter surgido
Os pesquisadores acreditam que a velocidade extrema do processo foi decisiva. Em condições normais, uma massa metálica fundida esfria lentamente e os átomos se organizam na estrutura mais estável disponível.
No caso da explosão de Hiroshima, o resfriamento aconteceu em frações de segundo, rápido demais para que os átomos encontrassem esse equilíbrio. O resultado pode ter sido a preservação de uma fase metálica que, em circunstâncias comuns, seria instável e se reorganizaria antes de solidificar.





