A geleira Thwaites, localizada na Antártida Ocidental e conhecida como “Geleira do Juízo Final”, poderá perder o apoio de uma elevação do fundo do mar a partir de 2038, o que pode acelerar seu recuo e aumentar a contribuição para a elevação do nível dos oceanos até 2100.
A possibilidade foi apontada por um estudo publicado em outubro de 2026 na revista científica Nature Communications, que analisou como a água do oceano penetra sob o gelo e intensifica o derretimento em sua base.
A pesquisa indica que a geleira poderá contribuir com cerca de 3 centímetros para a elevação média global do nível do mar até o fim do século, aproximadamente o dobro da média estimada por modelos internacionais utilizados como referência no estudo. Essa projeção considera um cenário sem aquecimento climático adicional, com base nas condições climáticas médias observadas entre 1996 e 2023.
Por que a geleira pode perder seu ponto de apoio?
A Thwaites permanece parcialmente estabilizada por formações elevadas do fundo marinho, que funcionam como barreiras naturais e ajudam a limitar o deslocamento do gelo em direção ao oceano. Uma dessas estruturas é conhecida como Crista Mouginot, cujo contato com a geleira contribui para reduzir sua movimentação.
O problema é que o derretimento na base do gelo pode fazer com que essa ligação seja perdida. Com o avanço da água oceânica sob a geleira, a região apoiada no leito marinho pode diminuir, permitindo que a massa de gelo recue e avance em direção a outra elevação submarina, chamada Crista Sul.
Nas simulações realizadas pelos pesquisadores, a possibilidade de desprendimento da Crista Mouginot variou conforme a extensão da zona de contato entre o gelo e o oceano. Nos cenários em que essa área tinha entre quatro e seis quilômetros de largura, a probabilidade de perda do apoio chegou a aproximadamente 60% até 2100.
Em algumas dessas projeções, o processo poderia começar em 2038. Isso não significa, porém, que a geleira desaparecerá nesse ano ou que a perda do ponto de apoio ocorrerá necessariamente nessa data. O resultado representa uma possibilidade identificada pelo modelo científico.
Como a água do oceano acelera o derretimento?
A pesquisa se concentrou na chamada zona de aterramento, região em que a geleira deixa de estar apoiada no fundo do mar e passa a flutuar sobre a água. Nesse trecho, a entrada de água oceânica relativamente quente pode intensificar o derretimento da parte inferior do gelo.
Observações por satélite indicam que essa área de transição pode se estender por vários quilômetros, em vez de funcionar como uma fronteira estreita e bem delimitada, como muitos modelos anteriores consideravam.
Para avaliar o efeito desse processo, os cientistas desenvolveram simulações que incorporaram diferentes larguras para a zona de aterramento. Os resultados foram comparados com observações da evolução da Thwaites entre 1996 e 2023, incluindo mudanças na espessura do gelo, na velocidade de deslocamento e na posição da região de contato com o fundo marinho.
A representação mais ampla dessa zona permitiu reproduzir melhor as mudanças observadas na geleira ao longo de quase três décadas. Os resultados também mostraram que a infiltração de água pode influenciar a estabilidade dos pontos de apoio submarinos.
Quanto a geleira pode elevar o nível do mar até 2100?
As estimativas variaram de acordo com a extensão da zona de aterramento considerada nas simulações. No cenário que incluiu uma área de aproximadamente cinco quilômetros, a contribuição da Thwaites para a elevação média global do nível do mar chegou a 30,1 milímetros, equivalentes a cerca de 3 centímetros, com uma margem de incerteza de 5,7 milímetros.
O valor é superior à média de aproximadamente 1,52 centímetro calculada pelos modelos internacionais usados como referência na pesquisa. A diferença indica que a forma de representar o derretimento na região de contato entre o gelo e o oceano pode alterar significativamente as projeções.
A Thwaites é monitorada por cientistas porque sua perda de gelo pode contribuir para a elevação do nível dos oceanos e influenciar a estabilidade de outras massas de gelo da Antártida Ocidental. Por isso, compreender a velocidade de seu recuo é importante para estimar possíveis impactos sobre as regiões costeiras.
Apesar dos resultados, o estudo apresenta limitações. As simulações não incorporaram aumentos futuros de temperatura e não reproduziram integralmente todos os processos que influenciam o comportamento da geleira, como o desprendimento de grandes blocos de gelo e as mudanças na circulação da água sob a plataforma.
Os pesquisadores destacam que novas observações diretas das condições oceânicas sob o gelo poderão ajudar a reduzir essas incertezas. Até lá, a possibilidade de perda do ponto de apoio em 2038 deve ser entendida como um cenário projetado, e não como uma data definitiva para o recuo ou o colapso da Thwaites.





