A 326 anos-luz daqui, uma anã branca brilha em verde, a primeira com essa coloração já catalogada pela humanidade.
A WD J1330+6.435, estudada por pesquisadores liderados por Mark Hollands, da Universidade de Warwick, no Reino Unido, desafia décadas de compreensão sobre como esses remanescentes estelares absorvem e refletem luz, abrindo caminho para o estudo de fenômenos ainda mais inusitados no cosmos. A descoberta reconfigura o que se conhecia.
Enquanto astros mortos costumam exibir tons que variam entre laranja, branco e azul, determinados principalmente pela temperatura, a composição química da atmosfera da estrela interfere tanto quanto o calor na cor que observamos da Terra.
Sódio transforma a luz em verde
A anã branca passou a absorver material rochoso de um planeta próximo. Esse processo, chamado acreção, enriqueceu a atmosfera com cálcio, lítio e sódio, elementos raros nesses objetos extremos.
O sódio produz a tonalidade esverdeada, e nessas condições extremas, ele absorve uma faixa mais ampla do espectro luminoso, retirando a luz alaranjada e deixando apenas o brilho verde se destacar.
Hollands descreveu o resultado como fantasmagórico: se um observador estivesse em órbita de um planeta próximo e olhasse para cima, enxergaria uma estrela verde, cenário que parece saído de ficção científica.
A descoberta não é isolada, e pesquisadores mapearam 151 anãs brancas a cerca de 65 anos-luz e encontraram cinco com cores fora do padrão esperado. Carbono produz tons rosa-salmão ou roxo; detritos de asteroides e cometas antigos geram amarelo; hidrogênio e hélio em interação criam ciano ou azul-claro.
A WD J1011+2.845, localizada a 48 anos-luz, exemplifica isso. Sua tonalidade rosa-salmão decorre de uma zona profunda que transporta carbono do núcleo até as camadas exteriores, mudando a forma como a luz é refratada e refletida pela estrela.
Apesar dessa diversidade cromática, o branco segue dominante, e entre as 151 anãs brancas situadas a cerca de 65 anos-luz da Terra, apenas cinco apresentaram cores extraordinárias.
Conforme análise da Universidade de Warwick, cerca de uma em cada 30 anãs brancas apresenta coloração incomum, proporção que parece pequena até considerar toda a população de anãs brancas do Universo, representando ainda muitas estrelas de cores peculiares espalhadas pelo espaço.
A pesquisa abre caminho para uma nova forma de catalogar e compreender esses remanescentes estelares: a composição química pode alterar sua aparência além do que preveem análises baseadas apenas na temperatura. Cada tonalidade revela uma história química diferente.

Por que o sódio muda de comportamento em uma anã branca
Em estrelas normais como o Sol, o sódio absorve apenas um comprimento de onda muito específico da luz alaranjada, exatamente a mesma tonalidade que vemos nas lâmpadas de iluminação pública. Mas nas anãs brancas, as condições extremas transformam completamente esse comportamento.
Na WD J1330+6435, a atmosfera é tão densa e fria que os átomos de sódio passam a absorver não apenas um comprimento de onda estreito, mas uma faixa muito mais ampla do espectro: amarelos, laranjas e partes do vermelho desaparecem. Apenas o verde consegue atravessar, criando aquele brilho esverdeado que observamos.
O mesmo vale para o cálcio, que absorve a luz violeta/azul, reforçando o resultado verde final.





