Um sarcófago romano encontrado nos jardins da Abadia de Westminster, em Londres, permaneceu um enigma por mais de 150 anos. Análises ósseas recentes e estudos históricos indicam que os restos pertencem a um abade de alta patente do período medieval. A peça trazia uma inscrição em homenagem a Valerius Amandinus, britânico que viveu entre 300 e 400 d.C.
No entanto, a tampa apresentava uma cruz latina esculpida no século 10 ou 11, prova de que o corpo ali guardado não era romano, mas de alguém sepultado séculos mais tarde.
O sarcófago foi encontrado em 1869 nos jardins da Abadia de Westminster. Cerca de 700 anos depois de seu uso original, a peça foi reaproveitada, e a tampa recebeu uma nova talha com a cruz latina típica da Idade Média.
Como a ciência chegou à nova Idade do corpo
James Young Langthorne, da Pre-Construct Archaeology (PCA) e especialista em ossos humanos, analisou os restos e concluiu que o homem tinha entre 35 e 49 anos ao morrer e cerca de 1,75 m de altura. As estimativas feitas no século 19 indicavam um homem de 1,70 m e no máximo 30 anos.
Uma amostra óssea foi enviada ao Centro de Pesquisa Ambiental das Universidades Escocesas para datação por carbono. O resultado situou o enterro entre 987 e 1.052 d.C., intervalo que coincide com o final da era saxã e confirma a época em que a tampa foi trocada.

Para ser sepultado naquele espaço da Abadia, era preciso ter peso religioso considerável, o que reduziu a lista de candidatos a apenas dois clérigos. Um deles é Aelfwig, abade beneditino morto por volta de 1.020; o outro é Wulnoth, seu sucessor, falecido em 1049.
Warwick Rodwell, arqueólogo consultor da Abadia, publicou a pesquisa no Journal of the British Archaeological Association na quarta-feira (20 de outubro). O estudo aponta Aelfwig como o nome mais provável. O fato de ele já atuar como monge em Westminster antes da morte pesa a favor dessa hipótese.

Um ritual reservado à elite do clero
A estrutura de pedra, originalmente romana, recebeu o abade em um caixão encaixado posteriormente em seu interior. Esse tipo de reaproveitamento só fazia sentido para alguém de posição elevada na hierarquia religiosa da época.
A cruz latina na tampa reforça essa leitura e aponta para um funeral reservado a uma figura de destaque do clero medieval. Segundo a pesquisa, Aelfwig ilustra como um sarcófago de origem romana acabou reaproveitado em um ritual fúnebre distante de sua finalidade original.





