Quando uma pessoa não sai da cabeça, o sofrimento pode corroer a alegria de viver e sabotar o funcionamento do cérebro.
O neurocirurgião e neurocientista japonês Michihito Sugawara reuniu, no livro “Apague aquela pessoa da sua mente”, publicado pela Fontanar, métodos baseados em neurociência para ajudar quem tenta se livrar de pensamentos obsessivos sobre pessoas tóxicas ou prejudiciais. Ele comanda duas clínicas em Tóquio voltadas para saúde mental e estilo de vida.
Em mais de 25 anos de atendimento, Sugawara ouviu repetidamente a mesma queixa de pacientes incapazes de interromper os pensamentos sobre alguém que as machuca. Essa pessoa pode ser uma ex-namorada, um chefe, um desafeto ou um familiar, e o desconforto é o mesmo: não conseguir parar de pensar nela.
O experimento do urso branco e o efeito oposto
Um dos estudos mais conhecidos em psicologia ilumina exatamente esse problema. Em 1987, um pesquisador americano dividiu participantes em dois grupos isolados e deu a um deles a instrução: “Não pense em um urso branco nos próximos cinco minutos”. O outro grupo recebeu o comando oposto: “Pense em um urso branco nos próximos cinco minutos”.
O resultado surpreendeu: quem foi orientado a não pensar no animal pensou nele sete vezes por minuto, quase o dobro do grupo que recebeu permissão.
Conforme Sugawara explica, tentar rejeitar pensamentos sobre estresse no trabalho ou em relacionamentos familiares pode gerar o efeito completamente inverso ao que se espera.
Exames de imagem cerebral confirmam esse mecanismo de efeito oposto ao esperado em situações de estresse relacionado.
Três estratégias para desapegar da obsessão
A literatura científica consultada pelo especialista reúne três abordagens que ajudam a diminuir a intensidade desses pensamentos intrusivos. A primeira é buscar algo que genuinamente desperte interesse, um hobby, um curso novo ou uma atividade que expanda horizontes e mantenha a mente ocupada, reduzindo o espaço para esses pensamentos.
A segunda se relaciona à primeira: reorganizar o tempo livre. Quando há vazios na agenda, a mente tende a voltar àquela pessoa. Ler, assistir a séries, revisar compromissos e planejar atividades futuras preenchem essas brechas e diminuem a ruminação.
Por último, Sugawara recomenda registrar pequenas vitórias diárias, como as ocasiões em que você consegue, graças aos seus esforços, evitar aquele pensamento ou aquela situação. Esses pontos, somados, formam uma trajetória de melhora tangível.
Estudos de neuroimagem mostram que as obsessões ativam a amígdala quase duas vezes mais do que pensamentos ocasionais. Quando imagens intrusivas ocorrem diariamente e interferem no trabalho ou nos relacionamentos, indicam disfunção no circuito orbitofrontal-estriado.
A terapia cognitivo-comportamental e os inibidores seletivos da recaptação de serotonina apresentam eficácia comprovada nesses casos.
Um diagnóstico diferencial preciso determina se há transtorno obsessivo-compulsivo ou variação normal do funcionamento cerebral.





