Treinar demais e descansar de menos pode mexer com o funcionamento químico do cérebro. É o que aponta um estudo publicado na revista Neuroscience, divulgado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo.
Nos testes, essa substância química ligada ao prazer continuou em níveis altos justamente quando os animais já deveriam estar descansando. Se essa mesma reação ocorrer em seres humanos, isso pode explicar parte dos quadros de ansiedade, dificuldade para dormir e exaustão vistos em atletas que exageram na carga de treinos.

A seguir, os cinco pontos centrais da descoberta, da metodologia aos efeitos observados no cérebro dos animais.
1. O papel central da dopamina
A dopamina costuma ser associada a sensações de recompensa e motivação, mas sua função vai além disso: ela também participa da regulação do sono e do humor. No hipocampo, esse neurotransmissor interage diretamente com processos de memória e equilíbrio emocional.
Para o pesquisador Alisson Luiz da Rocha, primeiro autor do estudo, os resultados confirmam que a prática de exercícios físicos interfere diretamente no sistema nervoso central, e não só na musculatura. Segundo ele, quando feito em excesso, o treino também deixa marcas significativas no cérebro.
2. Dois grupos de camundongos testados
Os cientistas dividiram os animais em dois grupos para comparar diferentes tipos de sobrecarga física. Um grupo foi submetido a um teste de esforço único e intenso, correndo em esteira até a exaustão.
O outro grupo reproduziu a rotina de atletas de alto rendimento com síndrome de overtraining. Quadro marcado por queda de desempenho, perda de apetite, fadiga persistente, dores musculares, mais lesões e alterações no sistema imunológico e no metabolismo.
3. Oito semanas de treino progressivo
No grupo que simulou o overtraining, os camundongos treinaram ao longo de oito semanas com cargas cada vez mais pesadas. Na última etapa, chegaram a cumprir duas sessões diárias, separadas por apenas quatro horas de descanso entre elas.
Depois dessa fase, os pesquisadores analisaram o hipocampo dos animais de ambos os grupos. Eles mediram os níveis de dopamina, de serotonina e de proteínas ligadas à produção desses neurotransmissores, como a tirosina hidroxilase e o transportador vesicular de monoaminas 2.
4. Dopamina elevada durante o repouso
No grupo submetido ao esforço único, a dopamina subiu logo após o fim da corrida, resposta esperada após o desgaste físico. O dado mais preocupante, porém, apareceu no grupo que passou pelo treinamento crônico.
Mesmo 48 horas após o teste de desempenho, período em que os camundongos já deveriam ter retomado o repouso normal, a dopamina e a enzima ligada à sua produção continuavam acima do esperado nesse grupo.
O coordenador do estudo, Adelino Sanchez Ramos da Silva, afirmou que alterações semelhantes em humanos poderiam ajudar a explicar a relação entre treino excessivo, funcionamento cerebral e distúrbios do sono.
5. O que ainda falta comprovar
A Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo destacou que o estudo não avaliou diretamente sono, estado de alerta ou ansiedade nos animais. A ligação entre os achados e esses sintomas em humanos depende de pesquisas futuras para ser confirmada.
Os pesquisadores também não observaram variações relevantes nos níveis de serotonina entre os camundongos, o que vai de encontro a uma ideia difundida há tempos de que essa substância, por si só, explicaria os quadros de fadiga extrema.
Mesmo assim, os dados já indicam que a dopamina não deve ser vista apenas como um “hormônio do prazer” isolado do resto do organismo. A dopamina parece estar ligada aos mecanismos que regulam o descanso do corpo depois do esforço físico.





