Fábio Pescarini/Folhapress
Em 19 de maio de 1986, o aposentado Luiz Silva, 72, tomava um chope no mirante da Ilha Porchat, península de São Vicente, no litoral paulista, quando uma enorme luz vermelha surgiu sobre o mar, rasgou a costa e sumiu quando alcançou a serra aos fundos da cidade.
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Até hoje, o então gerente da Embratel está convicto de ter testemunhado a "Noite Oficial dos Óvnis", como ficou conhecido o evento em que ao menos 21 objetos voadores não identificados foram avistados em quatro estados e tumultuaram o tráfego aéreo brasileiro.
"Era um charutão vermelho, maior que um Boeing", afirma Luiz, que no dia seguinte diz ter encontrado no trabalho comunicados de navios em telex sobre o fato. "Voava mais rápido que um avião, mas era perfeitamente observável."
A noite de 40 anos atrás está relatada em documentos que durante quase 30 anos foram mantidos sob sigilo pela Aeronáutica, disponibilizados desde 2015 no site do Arquivo Nacional.
Também há mais de uma dezena de áudios, gravados em fitas cassete. Eles trazem uma cronologia progressiva das trocas de mensagens por rádio e telefone entre controladores de voo, das ordens de oficiais de defesa aérea e de pilotos, tanto de voos civis quanto militares.
Os óvnis, alguns com 100 metros de diâmetro, foram detectados por radares do Cindacta (Centro Integrado de Defesa Aérea e de Controle de Tráfego Aéreo).
Para o ufólogo Jackson Luiz Camargo, autor de dois livros sobre aqueles avistamentos, a "Noite Oficial dos Óvnis" não tem paralelo no mundo.
"Esse é o caso com maior número de testemunhas da história da ufologia, talvez aquele com maior área de abrangência e com maior duração", diz, sobre o evento que invadiu a madrugada seguinte.
Em Guaratinguetá (SP), cerca de 2.000 militares, entre cadetes e oficiais da EEAR (Escola de Especialistas da Aeronáutica), testemunharam o fenômeno, a olho nu (sem instrumentos) ou usando binóculo.
Camargo, que chama o acontecimento de estarrecedor, afirma que houve relatos ainda na Argentina e no Uruguai.
Por volta das 18h daquele dia, o controlador de voo Sergio Mota da Silva, na época com 28 anos, foi o primeiro a dar o alarme sobre uma luz diferente no céu. Sozinho na torre de controle do aeroporto de São José dos Campos (SP), ele gerenciava a decolagem de um avião da antiga empresa Rio-Sul, quando observou o objeto luminoso.
Como protocolo, questionou a torre de controle do aeroporto de Guarulhos, na grande São Paulo.
Começava aí o intenso diálogo entre controladores e testemunhos de avistamentos diversos.
"Bem-vindo ao festival de discos voadores", afirmou Sergio, ao manter contato por telefone com Brasília, segundo um dos áudios. "Está uma loucura isso aqui, os que eu pude ver mudavam de cor o tempo todo, para vermelho, amarelo, azul, lilás. Era aquele festival de cores."
Três voos comerciais ou privados relataram os avistamentos. Em um deles, o então coronel Ozires Silva voltava para São José dos Campos em um Embraer Xingu, com o comandante Alcir Pereira da Silva, depois de ter participado uma reunião em Brasília com o presidente José Sarney.
Ozires assumiria a presidência da Petrobras no dia seguinte, quando foi informado sobre objetos pelo controlador de voo.
Os dois fizeram o primeiro avistamento quando o avião de prefixo prefixo PT-MBZ já começava procedimentos para pouso, entre São Paulo e Mogi das Cruzes, e decidiram subir para perseguir, por conta própria, três objetos durante quase 30 minutos. Um deles foi definido como "uma grande estrela vermelha".
No extremo da tensão, cinco caças F-5 e Mirage decolaram das bases aéreas de Anápolis (GO) e de Santa Cruz do Sul (RJ) para tentar interceptar os objetos.
O primeiro saiu do Rio em direção a São José dos Campos. No voo, o piloto diz ter observado uma luz branca abaixo do seu nível e que subiu pouco acima dele. A luminosidade mudou para vermelho, verde e novamente para branca.
O segundo saiu de Anápolis. O piloto, conforme documentos da Aeronáutica, teve contato por radar a 2 milhas de distância, mas não visual. O objeto distanciou-se rapidamente.
"Sua velocidade variava de forma a permitir uma aproximação, como também afastava-se repentinamente, mesmo estando o interceptador em velocidade supersônica, o que ocasionou a perda de contatado", diz o relatório.
Um outro jato saiu da base de Santa Cruz do Sul e uma luz vermelha acabou avistada. Um fato marcante, nesse voo, segundo a documentação da FAB, foi a identificação de 13 objetos à cauda da aeronave, que não estavam no radar. O piloto do F-5 manobrou o caça em 180°, mas não avistou nada.
"Foi um voo em esquadrilha [formação]", diz o escritor Marco Antonio Petit, 69, presidente da Comissão Brasileira de Ufólogos.
Mais dois aviões supersônicos partiram de Anápolis. Numa das perseguições, o piloto calculou que seu "alvo" sumiu a mais de 18 mil km/h.
No dia 23, o então ministro da Aeronáutica, brigadeiro Octávio Júlio Moreira Lima, convocou uma entrevista para comunicar à imprensa que os cinco caças perseguiram 21 objetos não identificados. "Tecnicamente, diria aos senhores que não temos explicação", disse.
Cientistas procurados pela Folha de S.Paulo na época alegaram falta de dados para definir os fenômenos.
"O que mais impressionou as altas patentes da época era que quando um piloto começava a mudar sua trajetória, acelerar ou reduzir, na mesma hora os objetos estavam fazendo a mesma coisa", diz o Petit, uma das lideranças na pressão que fez governo e Aeronáutica a disponibilizarem os arquivos secretos ao público.
Os objetos foram definidos nos documentos da FAB como sólidos e que refletiram inteligência, pela capacidade de acompanhar e manter distância dos observadores, como também de voar em formação.
Questionada no início da semana passada sobre a "Noite Oficial dos Óvnis", a Aeronáutica não se manifestou.
A astrofísica Mirian Castejon, supervisora de astronomia e ciência do Planetário Ibirapuera, na zona sul de São Paulo, afirma que, como o próprio nome diz, objetos voadores não identificados são aqueles não se sabe o que é. "Não necessariamente é uma vida alienígena, um extraterrestre", afirma.
"Não é comum ver objetos estranho s no céu, mas se a gente deitar no chão à noite e olhar para cima, amos ver muitas coisas, principalmente satélite, meteoros e outros luminosos", diz. "O céu fascinante."
COMO ACESSAR OS DOCUMENTOS
Entre na página do Sian (Sistema de Informação do Arquivo Nacional)
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