Advogado é impedido de atuar em tribunal por usar trajes do candomblé

Publicado em 01/07/2023, às 12h57
Reprodução/Arquivo Pessoal -

UOL

Um advogado de Brasília foi impedido de fazer a sustentação oral de defesa de um cliente no TJDFT (Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios) por usar trajes típicos do candomblé, uma religião de matriz africana. O caso ocorreu na tarde de quarta (28).

LEIA TAMBÉM

O advogado Gustavo Coutinho, 30, não pode realizar a defesa de um cliente durante uma sessão marcada para a tarde de quarta (28) no TJDFT.

Na ocasião, a 7ª Turma Cível da 2ª Câmara do tribunal decidiu, por unanimidade, que ele não poderia falar na corte por ser necessário vestir "traje formal, em atenção à regra regimental".

Adepto do candomblé, Gustavo Coutinho vestia terno, blusa e calça branca acompanhados de suas guias e seu eketé, uma espécie de chapéu, cobrindo a cabeça. A vestimenta é obrigatória por três meses para quem realiza a chamada "iniciação" na religião.

O advogado chegou a se cobrir com uma beca preta, como é tradição no tribunal, mas ainda assim não pode atuar no caso do cliente. A defesa foi realizada por outra advogada. Após a sessão, Coutinho acionou a comissão de Prerrogativas da OAB/DF.

"Me senti violentado, desrespeitado e impedido de exercer a minha profissão. (...) [O desembargador] falou que aquilo não se tratava de um preconceito racial ou religioso, mas que era uma questão de respeito à corte. Ele chegou a falar que se eu tivesse trazido uma beca mais composta, que 'eles não perceberiam'. Acho que ele se referiu às minhas guias, certamente", disse Gustavo Coutinho, advogado.

O que a corte justificou

Ao UOL, o juiz desembargador Fabrício Fontoura Bezerra disse que o advogado entrou no tribunal usando calça e camisa brancas e um "turbante", e não terno e gravata. Disse ter ouvido as explicações sobre a tradição religiosa. No entanto, a decisão foi unânime em relação à obrigatoriedade de vestimenta formal para a explanação da defesa. "Destaquei o respeito às religiões e ao eventual acolhimento de entendimento contrário pelo Colegiado", disse.

"Foi assegurado ao ilustre advogado a oportunidade de apresentar naquela oportunidade um áudio a ser ouvido em sessão pelos desembargadores votantes; ou mesmo o seu adiamento do julgamento para depois do período em que deve usar as vestimentas próprias da religião escolhida. Porém, considerando que ainda deverá usá-la por três meses, declinou a sugestão e repassou o exercício da palavra", disse Fabrício Fontoura Bezerra, desembargador.

Coutinho disse ao UOL que preferiu não adiar a defesa para não prejudicar o cliente. "Optamos que ela [advogada parceira] fizesse essa defesa. Mas, de certa forma, ele já foi prejudicado porque eu acompanho o caso do cliente desde o início", explica.

Ao UOL, o TJDFT disse que não iria se pronunciar sobre o caso.

O que diz o regimento do tribunal

O regimento do TJDF diz que os advogados têm que estar com vestes compatíveis com a dignidade da profissão, com respeito à corte e compatíveis com a liturgia. Não há menção às cores que podem ser usadas, embora haja uma padronização por tons escuros.

Também não há menção a algum tipo de proibição do uso de símbolos religiosos, como guia ou terço. "O regimento interno do TJ trata apenas uso de beca e traje civil completo", explica Newton Rubens, diretor de Prerrogativas da OAB/DF (Ordem dos Advogados do Brasil do Distrito Federal).

A padronização das vestimentas dentro dos tribunais é tema recorrente no direito. O cientista político e advogado especialista em direito constitucional, Nauê Azevedo, também lembra que, até pouco tempo atrás, mulheres eram impedidas de usar calças em tribunais.

"Os tribunais ainda possuem algumas dificuldades para equilibrar a expressão religiosa de algumas matrizes e a não banalização da liturgia necessária em seus espaços. Pode ser uma oportunidade para que os magistrados e magistradas façam um debate mais profundo sobre isso e encontrem uma forma de adaptar o regimento interno de modo razoável, que não permita a supressão de práticas religiosas e também não afete a liturgia do Judiciário", disse Nauê Azevedo, advogado e cientista político.

Gostou? Compartilhe

LEIA MAIS

'Saiu rindo', diz segurança sobre colega que liderou espancamento que matou ciclista no Rio Empresária que morreu após cirurgia plástica fez seis procedimentos no rosto, diz família Campo de society comprado com dinheiro do tráfico é alvo de operação em RO PEC que acaba com a escala 6x1 chega à CCJ, e governo Lula emplaca aliado na relatoria