Análise: "Duas faces do populismo brasileiro"

Publicado em 14/06/2026, às 11h00

Flávio Gomes de Barros

Para o político brasileiro mais vale demonstrar simpatia ao eleitor do que propriamente considerar os efeitos das suas decisões.

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É isso o que está acontecendo com duas propostas em tramitação no Congresso Nacional que impactam diretamente a população.

O jornalista Fabiano Lana analisa:

 

“Muitas vezes, o funcionamento real da economia está dissociado das intuições. Certos direitos, muito bem-intencionados, podem ter efeito contrário ao pretendido. No caso trabalhista, por exemplo, ainda é controverso se de fato protegem o trabalhador ou jogam boa parte deles para a informalidade. Os economistas divergem sobre isso.

O mesmo com relação às leis e políticas penais.

O Brasil tem uma polícia que mata. A taxa de pessoas presas, 300 para cada 100 mil, é mais do que o dobro da média mundial, 144, de acordo com o Conselho Nacional de Justiça.

Porém, o Congresso parece estar discutindo ambos os temas sem de fato prestar atenção nas consequências. Ou mesmo sem se debruçar no que é aferível. Pautas avançam e se paralisam ao sabor de batalhas ganhas ou perdidas nas redes sociais.

Tudo se torna maniqueísta e primário. Se você alega que o fim da escala 6X1 aumentará o preço dos serviços e o caminho talvez seja o aumento da produtividade, é logo taxado de ‘escravagista’ ou coisa pior. O Brasil parece que nunca irá superar a era Vargas, que pretendia regular todas as atividades econômicas de cima para baixo. Uma fé nos poderes do Estado. Tanto pior para a nova economia em que esse tipo de regulação não funciona mais.

Se, por outro lado, você ponderar que simplesmente reduzir o período de menoridade penal talvez coloque os infratores em contato direto com bandidos de alta periculosidade, se torna um ‘defensor de vagabundo’. De que adianta alegar, baseado em fatos, que as taxas de homicídio no Brasil estão caindo de maneira expressiva há cerca de uma década? Descrença.

É óbvio que todos os sensatos querem melhores condições de vida para os trabalhadores e um país mais seguro. Talvez também as pessoas estejam cansadas e ansiosas para ver problemas solucionados de maneira cabal. Querem algo simples, contundente (e muitas vezes errado).

Nem todo mundo tem condições de se aprofundar na resolução dos problemas do país. Porém, perguntar sobre estudos, levantamentos, exemplos internacionais em que se baseariam determinadas medidas pode ser percebido como afronta.

Esse trabalho pormenorizado de pesar as consequências de cada medida proposta para o país deveria ser dos políticos – que possuem dezenas de técnicos à disposição, cada um. Mas eles também estão na onda popular. Se informam pelas redes sociais e se movem por suas ondas.

A arena de discussão pública agora é eletrônica, volúvel, irritadiça e muitas vezes superficial. Quem tem conseguido triunfar nessa nova configuração de sociabilidade emotiva são os populistas, não importa qual corrente ideológica sigam.”

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