Até 3 mil crianças tiveram pais brasileiros detidos pelo ICE

Publicado em 22/05/2026, às 10h03
- Reprodução/Folha de São Paulo

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Entre 2.000 e 3.000 crianças tiveram seus pais brasileiros presos pelo ICE, a Agência de Imigração e Controle de Alfândega dos EUA, durante o segundo governo de Donald Trump. Uma minoria voltou a ser reunida aos genitores —mas a maior parte delas foi separada de um ou dos dois pais definitivamente.

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A estimativa, obtida com exclusividade pelo UOL, foi calculada pelo Brookings Institution. O think tank de Washington D.C. acaba de lançar um extenso estudo no qual calcula que mais de 205 mil menores de idade foram retirados —temporária ou permanentemente— do convívio com seus pais, imigrantes sem documentos alvos da política migratória de deportação em massa do governo dos EUA. Desses, ao menos 145 mil nasceram no país e são cidadãos norte-americanos.

Uma parcela das crianças enfrenta condição ainda mais dramática: 22 mil ficaram sem nenhum dos pais em casa porque ambos foram detidos ou porque o único responsável por elas foi preso. Um em cada três menores (36,5%) afetados têm menos de seis anos de idade. A vasta maioria é de famílias latino-americanas, com mexicanos entre os mais numerosos, seguidos por imigrantes da Guatemala e de Honduras.

A administração Trump tem aceitado deportar crianças —mesmo aquelas que são cidadãs americanas— junto a seus pais imigrantes, para evitar separações, mas a maioria das famílias opta por tentar manter os filhos nos EUA, com esperança de garantir a eles melhores condições de vida.

O UOL apurou com pastores de igrejas evangélicas brasileiras nos EUA que há uma engenharia de procurações nas comunidades para garantir que as crianças não fiquem desamparadas caso os pais brasileiros sejam detidos em alguma blitz do ICE. Em alguns casos, os pastores são potencialmente responsáveis por mais de uma dezena de crianças, filhos dos fiéis.

Desde janeiro de 2025, cerca de 400 mil pessoas foram presas e enviadas para campos de detenção do ICE, segundo dados oficiais obtidos pelo Deportation Data Project, da Universidade da Califórnia.

As informações, analisadas pelos pesquisadores do Brookings, indicam que 1,4% dos detidos eram brasileiros. O cálculo de crianças afetadas foi feito a partir dos dados demográficos dos detidos pelo ICE comparado às informações do American Community Survey, do Escritório do Censo dos EUA.

As separações familiares têm levado à sobrecarga de domicílios em comunidades latinas, muitos deles comandados por outros imigrantes indocumentados já sob pressão financeira e de autoridades imigratórias. O quadro, segundo os autores da pesquisa, é uma bomba relógio para graves problemas sociais, imediatos e de longo prazo.

"A detenção do pai ou da mãe --e a deportação-- é uma experiência muito traumática para uma criança. É provável que isso acarrete consequências emocionais e sociais de longo prazo. Se pensarmos naquelas que perderam os dois pais, é um outro nível de ruptura e desafio", disse Tara Watson, diretora do Centro Brookings para Segurança Econômica e Oportunidade e uma das autoras do relatório.

Segundo o estudo, a grande maioria dessas crianças não está sendo assistida por redes de seguridade social e o poder público pouco ou nada sabe sobre como a vida delas seguiu depois da detenção ou deportação dos pais.

O Departamento de Segurança Doméstica dos EUA trabalha com dados que permitem inferir que há cerca de 60 mil crianças desassistidas de seus pais, informação claramente "subnotificada", segundo os pesquisadores do Brookings, mas que ainda assim já demonstra a gravidade do cenário.

"Temos visto que as crianças acabam ficando com familiares e amigos; às vezes, isso funciona bem, mas, em outros casos, os pais nessa situação acabam deixando seus filhos com alguém que se dispõe a acolhê-los, mas cujo ambiente pode não ser seguro para a criança", afirmou Watson.

"Há a preocupação de que as crianças acabem expostas a riscos. Uma coisa é acolher o filho de alguém por alguns dias, outra coisa bem diferente é criar essa criança até a idade adulta— o que representa uma exigência financeira e emocional de grande magnitude", disse a pesquisadora.

Watson cita o caso da morte de Orlin Hernandez Reyes, de dois anos. Orlin foi deixado junto a outros três primos com um tio, depois que sua mãe e sua tia, ambas imigrantes sem documentos de Honduras foram detidas pelo ICE a caminho do trabalho, no Alabama. A deportação aconteceu menos de um mês depois.

De acordo com o jornal Washington Post, que revelou a história há cinco dias, o tio de Orlin seria um homem com comportamento violento e uso indiscriminado de álcool, que teria cometido uma série de abusos físicos contra a criança que acabou morta em decorrências dos múltiplos maus-tratos.

A tragédia ganhou novos contornos depois que o diretor interino do ICE, Todd Lyons, responsabilizou a mãe deportada, Wendy Reyes, pela morte de Orlin. Segundo Lyons, a mulher, "que jamais deveria estar nos EUA", "escolheu deixar seu filho aqui com um assassino violento que lhe tirou a vida".

A mãe de Orlin, porém, nega que tenha deixado o filho para trás e diz que seus pedidos de reunião familiar foram negados, alegações que, de acordo com o Washington Post, são corroboradas pelos registros oficiais do caso.

Por lei, oficiais do ICE não são obrigados a verificar se os detidos têm filhos e em que condições as crianças ficarão sem os pais. A administração Trump que apenas aplica a lei ao remover do país indivíduos sem autorização legal para viver nos EUA.

A situação traz à memória a separação de famílias que marcou o primeiro mandato de Trump. A partir de 2018, a política de "tolerância zero" para travessia ilegal da fronteira entre EUA e México levou migrantes indocumentados recém-chegados a penitenciárias comuns. Por lei, no entanto, menores não podiam ser mantidos nesses ambientes com seus pais, o que causou a separação de milhares de crianças e bebês de suas famílias.

"A situação agora é diferente. Não só porque a escala de menores afetados é muito maior, mas porque estamos falando de pessoas que viviam aqui há anos, que tiveram crianças cidadãs norte-americanas", diz Watson, que segue: "O governo e a sociedade dos EUA precisam dar uma resposta e um suporte aos seus próprios cidadãos, menores de idade, que estão em situação delicada".

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