Flávio Gomes de Barros
Jornalista Victoria Ribeiro:
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“Saúde prática e honesta para quem tem mais de 60 anos.' É assim que o cardiologista e geriatra Roberto Fontes se apresenta na descrição de seu canal no YouTube. Com mais de 35 anos de experiência, ele acumula 95 mil seguidores oferecendo orientações 'baseadas em evidências' sobre prevenção de doenças, controle da pressão e longevidade. Tudo isso, porém, não passa de ficção. Isso porque Fontes — um homem grisalho, sempre de terno e jaleco bem passados — é um personagem criado por inteligência artificial.
Segundo levantamento da CTRL+Z, organização que monitora o impacto das plataformas digitais e é dirigida por Daniela Silva, ex-head de Políticas Públicas do WhatsApp no Brasil, há ao menos 29 perfis semelhantes ao de Fontes no YouTube. Embora grande parte tenha sido criada em 2026, as contas já somam mais de 70 milhões de visualizações, sendo 10 milhões apenas em junho.
O roteiro é semelhante: os médicos de IA aparecem em consultórios, usam jaleco, exibem currículos fictícios, falam de forma calma e contam histórias de supostos pacientes – como se décadas de experiência lhes permitissem desvendar grandes enigmas diagnósticos.
Além de atrair audiência, muitos desses perfis também são usados para promover a venda de 'infoprodutos', como e-books. É o caso da Dra. Sofia Ferreira, apresentada como 'especialista' em cardiologia pela Universidade de Lisboa. Por R$ 38, a 'médica' oferece um guia com receitas naturais e listas de compras que prometem 'reviver o coração, defender as artérias e repará-las enquanto você dorme'.
Apesar de muitos desses perfis serem personagens inventados, criados do zero, a IA também pode ser usada para 'clonar' a imagem de pessoas reais. Foi esse o problema enfrentado pelo médico otorrinolaringologista Hélio Brasileiro: após a divulgação do levantamento da CTRL+Z e de reportagem sobre o tema na BBC News Brasil, ele descobriu que ao menos cinco canais no YouTube usavam sua imagem, sem autorização, para divulgar 'fórmulas' de saúde. O caso levou o médico a registrar um boletim de ocorrência na Polícia Civil de São Paulo.
Procurado pelo Pulsa, o Google, responsável pelo YouTube, afirmou que conteúdos produzidos com inteligência artificial 'devem seguir as Diretrizes da Comunidade, incluindo as políticas de desinformação médica' e que tomou 'medidas cabíveis com base nos Termos de Serviço'.
A reportagem também procurou o Ministério da Saúde e tentou ouvir os responsáveis pelos perfis gerados por IA. Como essas contas costumam usar identidades fictícias e outros mecanismos que dificultam a identificação de seus criadores, não foi possível localizá-los. Por isso, foram enviadas mensagens aos próprios perfis, como o da Dra. Sofia Ferreira, na tentativa de obter um posicionamento.
As imagens ultrarrealistas são apenas uma das artimanhas utilizadas. Pequenos detalhes são cuidadosamente construídos — a começar pelo tom de alarme. As contas apostam em vídeos com títulos como 'nunca ignore a coceira nessas cinco áreas do corpo, pode ser câncer' ou 'seu rosto fica inchado de manhã? Pode ser grave.
Outro recurso comum é apresentar soluções simples — e sem respaldo científico — para problemas complexos, como diabetes, obesidade e demências. As promessas costumam vir acompanhadas de frases que sugerem a existência de uma verdade escondida, como 'aquilo que nenhum médico te contou até hoje'.
Em um desses vídeos, a 'médica' Sofia caminha por um consultório e dirige a conversa a pessoas com diabetes. 'Toda manhã você acorda, fura o dedo e espera o número aparecer. E é sempre a mesma decepção. Você se alimenta direito, faz tudo o que o médico manda, e o número não desce. Eu vou dizer o que esse médico não te diz: seu pâncreas não desistiu', diz a personagem antes de recomendar o uso de feno-grego — uma erva originária da Ásia e do Mediterrâneo — como substituto da insulina.
Outras publicações recomendam, por exemplo, o uso de vinagre de maçã para controlar a glicemia e o consumo diário de azeite para tratar gordura no fígado. Há também orientações que desencorajam o uso de remédios já consagrados para hipertensão e colesterol.
'Esses perfis simulam a autoridade de profissionais de saúde para explorar medos e jogar com a confiança das pessoas', observa o ortopedista Carlos Eduardo Viterbo, divulgador científico da medicina baseada em evidências. 'Eles escolhem doenças de grande prevalência e usam o alarmismo para capturar a atenção. Um dos principais riscos é colocar em xeque tratamentos sérios.'
Não se trata de condenar o uso de chás, ervas e determinados alimentos. A questão está em atribuir a eles efeitos terapêuticos sem comprovação ou apresentá-los como substitutos de métodos realmente eficazes.
Além disso, não é correto tratá-los como 'inofensivos'. Dependendo da dose, da frequência de uso e da combinação com outras substâncias, eles podem reduzir o efeito de medicamentos e até provocar reações adversas, como lesões no fígado.
'Cada pessoa tem características, histórico e necessidades diferentes. A decisão médica leva tudo isso em conta — algo que um vídeo gerado por IA é incapaz de fazer', observa a cardiologista Maria Emília Teixeira, da Universidade Federal de Goiás (UFG).
Nos comentários, porém, fica claro que as orientações ultrapassam as telas. Em um deles, uma mulher relata ter interrompido um medicamento prescrito pela ginecologista para passar a consumir óleo de abóbora no tratamento da incontinência urinária.
Já no vídeo sobre feno-grego, um homem de 78 anos afirma ter câncer de pulmão e diabetes tipo 2. Ele conta que sua médica insiste para que continue aplicando insulina, mas agradece à falsa médica por apresentar uma 'nova alternativa'.
'O que a gente percebe é que esse tipo de conteúdo atinge as pessoas mais vulneráveis: aquelas com pouca familiaridade com tecnologia, mais velhas ou que estão enfrentando algum problema de saúde', observa Ana Carolina Monari, do Laboratório de Inteligência Artificial (Recod.ai) da Unicamp. 'Também pode atingir pessoas com dificuldade de acesso ao sistema de saúde, como quem está há meses esperando por uma consulta.'
Para a pesquisadora Nicole Sanchotene, do NetLab da UFRJ, os perfis de médicos de IA representam uma 'nova face da desinformação. Antes, para produzir esse tipo de conteúdo (ultrarrealista), era necessário ter conhecimentos técnicos. Hoje, qualquer pessoa pode fazer isso em questão de minutos.'
Nem mesmo o médico Drauzio Varella e a atriz Fernanda Montenegro escaparam. Em 2025, Varella teve seu rosto reproduzido por IA para promover um suplemento supostamente indicado para artrite e hérnia de disco. Já em julho deste ano, Montenegro foi às redes sociais para protestar contra uma propaganda que usava sua imagem para divulgar um suposto remédio capaz de curar 'até Alzheimer'...”
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