Redação EdiCase
Tem dias em que a pressa fala mais alto. Amarrar o tênis “só para não atrasar”, guardar o brinquedo que ficou espalhado pela casa, escolher a roupa para evitar discussão ou até resolver a tarefa escolar para “não perder tempo”. Na rotina, são atitudes comuns dentro de casa, quase sempre feitas com boa intenção. A questão é que, repetidas vezes, elas podem reduzir as oportunidades de a criança fazer por conta própria.
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Para o neurocirurgião e especialista em desenvolvimento infantil André Ceballos, esse padrão não gera um impacto imediato, mas vai sendo construído no cotidiano, de forma quase imperceptível. “Na prática clínica, o que a gente observa é que a autonomia não falha de uma vez, ela deixa de ser exercitada. A criança vai sendo menos convidada a tentar”, afirma.
Segundo ele, a questão não está em orientar ou proteger, mas em substituir a criança com frequência em tarefas que ela já seria capaz de começar a fazer sozinha. “A autonomia não é um traço de personalidade, é uma habilidade que se constrói na repetição. Quando a criança participa, tenta, erra e retoma a ação, ela está desenvolvendo essa capacidade”, explica André Ceballos.
A seguir, o médico compartilha 5 erros comuns, muitas vezes cometidos sem perceber, que podem atrapalhar o desenvolvimento da autonomia infantil. Confira!
Atividades simples como vestir-se, guardar os brinquedos ou organizar o próprio material escolar podem parecer mais rápidas quando feitas pelo adulto. Mas, quando isso vira rotina, a criança deixa de treinar habilidades básicas do dia a dia, ela não aprende a sequência da tarefa nem desenvolve a sensação de “eu consigo fazer sozinho”, porque raramente tem a chance de tentar até o fim.
Intervir imediatamente em qualquer dificuldade, seja uma briga com outra criança, uma escolha simples ou um problema pequeno, pode impedir que a criança experimente resolver situações por conta própria. Com o tempo, ela passa a esperar que o adulto antecipe soluções, em vez de pensar em alternativas ou testar estratégias.
Quando a criança começa uma atividade e é constantemente interrompida ou corrigida antes de concluir, ela perde o ritmo da própria ação. Isso faz com que o foco saia da experiência e vá para a validação do adulto: “está certo assim?”. Aos poucos, isso reduz a iniciativa e a confiança para fazer sozinha, sem acompanhamento constante.
A tentativa de proteger a criança de qualquer desconforto, como esperar a vez, errar uma tarefa ou lidar com uma negativa, pode parecer cuidado excessivo, mas limita experiências importantes. Pequenas frustrações fazem parte do aprendizado emocional e ajudam a criança a desenvolver paciência, tolerância e capacidade de adaptação diante de situações que não saem como esperado.
Quando o adulto valoriza apenas o acerto final, a criança passa a associar tentativa com risco de erro e cobrança. Isso pode fazer com que ela evite experimentar novas atividades ou desista mais rápido diante de dificuldades. O erro, que deveria ser parte do processo, passa a ser visto como algo a ser evitado, e isso reduz a curiosidade, a iniciativa e a autonomia.
Para André Ceballos, o ponto de equilíbrio está em uma presença que orienta, mas não ocupa o lugar da ação. No consultório, ele observa que pequenas mudanças na rotina fazem diferença:
“O que ajuda muito é o adulto tolerar um pouco mais de tempo, um pouco mais de bagunça inicial e um pouco mais de tentativa. É isso que vai formar segurança interna na criança para ela agir sozinha”, conclui.
Por Ana Carolina Batista
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